O último papel de Eric Dane: o desfecho de Cal Jacobs em ‘Euphoria’

A morte de Eric Dane por ELA transforma sua última atuação como Cal Jacobs na 3ª temporada de ‘Euphoria’ em testamento profissional. Analisamos como o ator humanizou um vilão complexo e o dilema narrativo que a série enfrenta para fechar seu arco.

Eric Dane morreu aos 53 anos, vítima de esclerose lateral amiotrófica (ELA), deixando um legado silencioso que ganha peso inesperado: sua última atuação na tela será como Cal Jacobs na terceira e última temporada de ‘Euphoria’. O ator filmou suas cenas mesmo enfrentando a doença degenerativa — uma decisão que transformou automaticamente cada frame seu não apenas em performance, mas em testamento profissional.

A notícia, confirmada pela família à People Magazine, chega semanas antes da estreia da temporada final em 12 de abril de 2026. Para quem acompanha a série desde o início, há uma ironia difícil de ignorar: Cal Jacobs, um homem que passa a vida inteira escondendo quem é, será o último personagem interpretado por um ator que escolheu trabalhar até o fim.

Como Eric Dane transformou Cal Jacobs de vilão em estudo de personagem

Como Eric Dane transformou Cal Jacobs de vilão em estudo de personagem

Quando Eric Dane Euphoria entrou no vocabulário dos espectadores em 2019, poucos imaginavam que o ator conhecido como Dr. Mark Sloan de ‘Grey’s Anatomy’ entregaria um dos personagens mais perturbadores da TV recente. Cal Jacobs é, no papel, um homem que mantém uma vida dupla — gravando encontros sexuais com homens jovens enquanto sustenta a fachada de pai de família conservador.

O problema: Cal não é um monstro unidimensional. Dane construiu o personagem com camadas que a série demorou a revelar. A cena do breakdown no quarto de hotel na segunda temporada — aquele momento em que Cal finalmente quebra, bêbado, confessando suas fraquezas para o filho Nate — é um estudo de atuação em microexpressões. Quando Dane faz os olhos de Cal vacilarem entre raiva e desespero, quando sua voz falha no exato momento em que admite “eu estava disfarçado”, ele entrega algo raro: um homem patético sem ser digno de pena.

Isso exige precisão. Em uma série onde até os protagonistas cometem atos moralmente questionáveis, Cal se destaca por ser explicitamente predatório em seus comportamentos — e ainda assim, Dane consegue que o público entenda (não justifique) suas motivações. A diferença entre um ator que interpreta e um que habita está nos detalhes: o jeito como Cal ajusta a postura quando está “em serviço” versus quando está sozinho, a maneira como Dane deixa a máscara de homem confiante deslizar em frações de segundo.

O dilema narrativo: como ‘Euphoria’ pode fechar o arco de Cal sem desonrar a própria premissa

Para a terceira temporada, Dane havia confirmado à Entertainment Weekly que Cal retornaria. “Acontece de eu saber que não é o fim”, disse o ator sobre o personagem. A declaração, feita antes de sua morte, carrega agora um peso que nem ele poderia antecipar.

Havia expectativa de que a temporada final oferecesse a Cal algo próximo de uma redenção. Dane inclusive sugeriu isso em entrevistas. Mas aqui está o dilema narrativo que ‘Euphoria’ enfrenta: como redimir um personagem que filmou relações sexuais com adolescentes?

A série sempre flertou com a ambiguidade moral — Rue trafica para sua mãe, Maddy e Cassie destroem uma amizade por um homem manipulador, Nate é abusivo e ainda assim ganha momentos de vulnerabilidade. Mas Cal está em outro patamar. Seus atos têm consequências legais reais. Uma redenção completa seria desonesta com a própria premissa da série, que nunca vendeu conforto moral.

O que pode funcionar: não perdão, mas compreensão. Explicar sem desculpar. Mostrar como a repressão sexual e a hipocrisia de uma sociedade que pune diferenças moldaram um homem que, em outras circunstâncias, talvez fosse diferente. É o tipo de nuance que Dane provou saber navegar.

Atuar com ELA: quando a profissão se torna afirmação de identidade

Atuar com ELA: quando a profissão se torna afirmação de identidade

Em abril de 2025, Dane confirmou à People Magazine que retornaria ao set de ‘Euphoria’ na semana seguinte. “Me sinto afortunado por poder continuar trabalhando e estou ansioso para retornar ao set”, disse. Em junho do mesmo ano, à E! News, acrescentou que atuar “me mantém afiado, me mantém avançando”.

Essas declarações revelam algo sobre Dane que vai além da dedicação profissional. A ELA é uma doença que progressivamente compromete os neurônios motores, afetando movimento, fala e, eventualmente, respiração. Um ator cujo instrumento de trabalho é o próprio corpo, confrontado com uma condição que lentamente rouba controle desse corpo, escolhendo continuar trabalhando — isso não é apenas estoicismo. É uma afirmação de identidade. A profissão não era o que ele fazia; era quem ele era.

Para Cal Jacobs, isso acrescenta uma camada meta-textual involuntária. O personagem passa décadas negando sua verdadeira natureza. O ator que o interpreta, confrontado com uma doença que lentamente rouba controle do próprio corpo, escolhe afirmar sua identidade profissional até o fim. Há uma coincidência trágica nessa sobreposição.

O legado além de McSteamy: por que Cal Jacobs é o papel que Dane merecia

É tentador reduzir Eric Dane a seu papel mais famoso — o apelido “McSteamy” de ‘Grey’s Anatomy’ segue-o até em obituários. Mas fazer isso é ignorar o que sua carreira realmente representa: um ator de televisão que encontrou, tarde, o papel que permitiu demonstrar alcance dramático real.

Depois de ‘Grey’s Anatomy’, Dane poderia ter aceitado o caminho fácil. Papéis em produções menores, filmes de ação esquecíveis, a carreira estável de quem foi “o médico gostoso” da TV. Em vez disso, escolheu Cal Jacobs — um personagem que exigiu dele expor feiura, vulnerabilidade e uma espécie de desespero patético que poucos atores têm coragem de encarnar.

Que ‘Euphoria’ seja seu último trabalho não é coincidência triste — é um encerramento apropriado. A série, com todos seus defeitos e virtudes, permitiu que Dane mostrasse o que sempre esteve lá: um ator de verdade, não apenas uma face bonita.

Quando a terceira temporada estreiar em abril, cada cena de Cal Jacobs carregará um peso que não estava no roteiro original. Veremos não apenas o desfecho de um personagem complexo, mas a última performance de alguém que escolheu trabalhar até não poder mais. Isso não torna o personagem melhor ou pior — torna a experiência de assisti-lo diferente. Mais reverente. Mais definitiva.

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Perguntas Frequentes sobre Eric Dane e ‘Euphoria’

Quando estreia a 3ª temporada de ‘Euphoria’?

A terceira e última temporada de ‘Euphoria’ estreia em 12 de abril de 2026 na HBO/Max. A temporada terá 8 episódios.

Eric Dane terminou de filmar suas cenas na 3ª temporada?

Sim. Eric Dane filmou todas as suas cenas como Cal Jacobs antes de sua morte. O ator retornou ao set em abril de 2025 mesmo enfrentando a ELA, e completou sua participação na temporada final.

O que é ELA, a doença que causou a morte de Eric Dane?

ELA (esclerose lateral amiotrófica) é uma doença neurodegenerativa progressiva que afeta os neurônios motores, causando fraqueza muscular, dificuldade de movimento e fala, e eventualmente comprometimento respiratório. Não tem cura. Eric Dane foi diagnosticado em 2024 e morreu em fevereiro de 2026.

Quem mais está no elenco da 3ª temporada de ‘Euphoria’?

O elenco principal retorna: Zendaya (Rue), Hunter Schafer (Jules), Jacob Elordi (Nate), Sydney Sweeney (Cassie), Alexa Demie (Maddy) e Maude Apatow (Lexi). Barbie Ferreira (Kat) não retorna. Angus Cloud (Fezco) morreu em 2023, e sua ausência será abordada na série.

Quantos episódios terá a 3ª temporada de ‘Euphoria’?

A temporada final terá 8 episódios, mesma quantidade das temporadas anteriores. Sam Levinson permanece como showrunner e diretor.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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