‘O Tanque’: O filme de guerra que troca o realismo pelo delírio no Prime Video

Analisamos por que ‘O Tanque’ no Prime Video está dividindo o público ao trocar o realismo militar pelo horror psicológico. Entenda como o uso histórico de Pervitin e a direção de Dennis Gansel transformam um filme de guerra em um delírio claustrofóbico inspirado em ‘Apocalypse Now’.

Há uma linhagem específica de cinema de guerra que não se interessa pela balística, mas pela sinapse. ‘O Tanque’ Prime Video, o novo épico claustrofóbico de Dennis Gansel, pertence a esse grupo. Não é um sucessor de ‘O Resgate do Soldado Ryan’, mas um herdeiro espiritual de ‘Apocalypse Now’ e ‘Vá e Veja’, onde a lama das trincheiras se mistura à lama da consciência em decomposição.

O filme alemão escalou rapidamente o topo global do streaming, mas sua recepção é um campo de batalha à parte. Com 62% de aprovação do público no Rotten Tomatoes, a obra divide espectadores entre os que buscam precisão histórica e os que aceitam o convite para um delírio movido a metanfetamina e metal retorcido.

Entre o Tiger e o ‘Coração das Trevas’

Entre o Tiger e o 'Coração das Trevas'

A premissa parece um thriller de resgate convencional: cinco soldados alemães a bordo de um tanque Tiger em uma missão suicida atrás das linhas inimigas. No entanto, o roteiro de Gansel — parcialmente inspirado nas memórias de seu próprio avô — subverte a expectativa. O tanque aqui não é uma fortaleza; é um sarcófago de aço.

A referência ao ‘Coração das Trevas’ de Joseph Conrad não é apenas marketing. O filme utiliza o isolamento do Tiger para mimetizar a jornada de Willard em ‘Apocalypse Now’. À medida que o combustível acaba e a munição escasseia, a realidade externa deixa de importar. O que resta é a dinâmica de grupo em colapso e a percepção de que a missão é um pretexto para um expurgo psicológico.

A estética do pesadelo vs. o realismo tático

A maior crítica que ‘O Tanque’ vem sofrendo no Prime Video diz respeito ao seu “irrealismo”. Tecnicamente, os críticos têm razão: um Tiger jamais operaria isolado sem apoio de infantaria ou logística de combustível. O próprio Dennis Gansel admitiu ao The Telegraph que a imprecisão é deliberada: “Um tanque Tiger nunca estaria sozinho… mas o filme opera na lógica do pesadelo”.

Visualmente, o filme abandona as cores dessaturadas do gênero em favor de uma paleta que oscila entre o cinza industrial e o laranja febril das explosões. A fotografia de Torsten Breuer foca no suor, nas pupilas dilatadas e na textura fria do painel de controle. É uma escolha estética que prioriza a sensação de pânico sobre a clareza geográfica. Se você espera a competência tática de ‘Corações de Ferro’ (Fury), vai se frustrar. Aqui, o inimigo é invisível e a geografia é mental.

Pervitin: O motor químico do delírio

Pervitin: O motor químico do delírio

Um dos pontos mais fortes da narrativa é o uso do Pervitin (a metanfetamina distribuída pela Wehrmacht). O filme não o trata como uma curiosidade histórica, mas como o filtro através do qual vemos a história. A paranoia da tripulação é amplificada pela química, transformando cada ruído externo em uma ameaça sobrenatural.

Essa escolha fundamenta o ângulo único do filme: a guerra como uma experiência dissociativa. Quando os soldados começam a ver e ouvir coisas que não deveriam estar lá, o espectador é forçado a questionar a confiabilidade da própria imagem. É o horror psicológico infiltrado no drama histórico, uma mistura que explica por que o final tem sido tão polarizante.

Veredito: Por que o final divide tanto o público?

Sem entregar o desfecho, basta dizer que Gansel optou por uma conclusão que prioriza o fechamento temático em vez da satisfação catártica. É um final que exige que o espectador aceite a premissa de que a guerra é, em última análise, um absurdo sem sentido. Para quem buscou duas horas de entretenimento militar, o encerramento soa como uma traição. Para quem buscou um estudo sobre o colapso moral, é a única conclusão possível.

‘O Tanque’ não é um filme perfeito — a transição entre o realismo e o surrealismo às vezes tropeça em diálogos expositivos —, mas é uma obra corajosa. No mar de conteúdos genéricos de streaming, Dennis Gansel entrega um filme que, se não agrada a todos, ao menos recusa a indiferença.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre ‘O Tanque’ (The Tiger)

‘O Tanque’ é baseado em uma história real?

O filme é uma ficção, mas o diretor Dennis Gansel baseou elementos do roteiro em relatos reais de seu avô, que serviu na Segunda Guerra Mundial, e no uso histórico documentado de Pervitin (metanfetamina) pelas tropas alemãs.

Onde assistir ao filme ‘O Tanque’?

O filme está disponível no catálogo do Prime Video no Brasil sob o título ‘O Tanque’ (ou ‘The Tiger’ em alguns mercados).

Por que o filme é considerado ‘irrealista’ por alguns fãs de guerra?

Muitos espectadores criticam o fato de um tanque Tiger operar sozinho sem apoio logístico. No entanto, o diretor afirmou que essa escolha foi deliberada para enfatizar o isolamento psicológico e a atmosfera de pesadelo, priorizando o tema sobre a precisão militar.

Quanto tempo dura o filme?

‘O Tanque’ tem aproximadamente 1 hora e 50 minutos de duração, mantendo um ritmo tenso e focado quase inteiramente dentro ou ao redor do veículo.

O filme tem cenas pós-créditos?

Não, ‘O Tanque’ não possui cenas pós-créditos. A história se encerra de forma definitiva antes do início do rolo de créditos.

Mais lidas

Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

Veja também