Nossa crítica de ‘O Som da Morte’ revela por que o terror de Corin Hardy desperdiça sua mitologia asteca e se torna um clone de ‘Premonição’ sem identidade própria. Um filme tecnicamente competente que escolheu a repetição em vez da inovação.
Existem dois tipos de terror derivativo: aquele que usa referências como base para construir algo próprio, e aquele que apenas copia a fórmula esperando que ninguém perceba. ‘O Som da Morte’ não é exatamente um filme ruim — é pior: é um filme que poderia ter sido interessante, mas escolheu o caminho da repetição preguiçosa.
Dirigido por Corin Hardy, o mesmo cineasta de ‘A Freira’, o filme chega com um elenco de peso: Dafne Keen de ‘Logan’ e Nick Frost de ‘Todo Mundo Quase Morto’. Na teoria, todos os ingredientes para um terror memorável. Na prática, uma sensação de déjà vu que persiste do primeiro ao último minuto.
Por que o filme parece ‘Premonição’ com maquiagem diferente
A premissa é simples demais para dar errado: um grupo de estudantes encontra um apito em formato de caveira, assopra, e quem ouve o som está marcado para morrer. Se isso soa familiar, é porque a franquia ‘Premonição’ já explorou exaustivamente a ideia de “a Morte vem buscar quem escapou dela” — só que lá, o gatilho era uma visão premonitória; aqui, é um objeto amaldiçoado.
O problema não é a semelhança em si. O problema é que o filme não faz NADA com essa diferença. A estrutura é idêntica: personagens descobrem que estão condenados, tentam descobrir as regras do jogo, e um a um vão sendo eliminados em sequências elaboradas de morte. A troca do mecanismo de ativação não muda a dinâmica fundamental — e quem assistiu aos seis filmes de ‘Premonição’ (incluindo o recente ‘Premonição 6: Laços de Sangue’) vai reconhecer cada batida narrativa com precisão desconcertante.
Há uma tentativa tímida de conectar o apito a práticas ocultistas e à civilização olmeca. Notei isso e pensei: “finalmente, algo para diferenciar”. Mas essa mitologia nunca sai do rascunho — funciona mais como desculpa para justificar as mortes do que como elemento narrativo genuíno. É a diferença entre usar folclore como textura e usá-lo como cartão de visita vazio.
As mortes impressionam, mas não sustentam um filme sem identidade
Vamos dar crédito onde é devido: as sequências de morte são inventivas. A cena de abertura — um estudante engolido por chamas após ser agredido por um espírito queimado — estabelece um tom brutal que o filme mantém consistentemente. Há um momento com Nick Frost confrontando uma versão de si mesmo com câncer de pulmão que é genuinamente perturbador, com maquiagem prostética que transforma o ator em um espelho decomposto de si mesmo.
A construção dessas cenas revela que Hardy conhece o ofício: a câmera cria tensão através de enquadramentos que antecipam o perigo, os efeitos práticos de gore funcionam sem recorrer a CGI excessivo, e há um compromisso com o espetáculo que vai agradar fãs de terror old school. Mas aqui está o ponto crucial: mortes criativas são o MÍNIMO que esperamos desse subgênero. Quando ‘Premonição’ estreou em 2000, a ideia de que a Morte era uma força invisível e criativa era novidade. Vinte e seis anos depois, só isso não basta.
O filme me lembrou da diferença entre ‘O Iluminado’ e seus imitadores. Kubrick criou um vocabulário visual de terror psicológico que foi copiado infinitamente — mas os imitadores raramente entendem POR QUE aquilo funcionava. ‘O Som da Morte’ conhece a mecânica de ‘Premonição’, mas não compreende o que tornava aquele filme impactante: a sensação de que estávamos vendo algo que não tínhamos visto antes.
Dafne Keen e Nick Frost desperdiçados em personagens raso
Dafne Keen provou em ‘Logan’ que consegue carregar peso emocional com naturalidade. Aqui, ela interpreta Chrys Willet, uma estudante com passado misterioso, em recuperação de vício, carregando culpa pela morte do pai. É um backstory denso que o filme nunca explora de forma significativa — o vício é mencionado, mas nunca interfere na trama; a culpa pelo pai é usada como motivação genérica para “querer sobreviver”.
A química entre Keen e Sophie Nélisse (que interpreta Ellie, interesse romântico de Chrys) existe, mas o roteiro não dá espaço para que se desenvolva. Os personagens existem para morrer — e isso seria aceitável se o filme não insistisse em nos pedir que nos importemos com eles. Você não pode ter arcos emocionais rasos E esperar tensão genuína quando esses personagens estão em perigo.
Nick Frost, sempre carismático, faz o que pode com um papel que exige dele basicamente “estar presente e reagir”. É desperdício de talento, o tipo de escolha de elenco que sugere que o filme queria nomes reconhecíveis mais do que performances memoráveis.
O final que entrega exatamente o que você esperava — e isso é o problema
Nos últimos vinte minutos, ‘O Som da Morte’ tinha uma chance de subverter expectativas. Poderia ter explorado a mitologia asteca de forma real, transformando o apito em algo mais que um macguffin. Poderia ter dado a Chrys uma resolução que conectasse seu trauma pessoal com a maldição de forma temática. Poderia, no mínimo, ter oferecido um desfecho que não fosse cópia quase carbono de ‘Premonição’.
Não faz nada disso. A “reviravolta” final — de que os personagens podem enganar a morte se seus corações pararem momentaneamente — é idêntica à solução encontrada pelos sobreviventes do Voo 180 no filme original de 2000. Não é homenagem, é preguiça disfarçada de referência.
Saí da sessão com a mesma sensação que tenho quando vejo um remake que não entende seu material original: frustração. Não porque o filme é incompetente — a direção é sólida, as mortes funcionam, o elenco tenta. Mas porque é um filme que existe sem razão. Não acrescenta nada ao subgênero, não subverte expectativas, não oferece perspectiva única. Apenas… ocupa espaço.
Veredito: para quem serve — e para quem não
Se você nunca viu nenhum filme de ‘Premonição’ e quer um terror sobrenatural com mortes criativas, ‘O Som da Morte’ vai te entreter. Há craft aqui, há competência técnica, há alguns sustos genuínos. O problema é que existe uma franquia inteira que faz a mesma coisa, frequentemente melhor, e com a vantagem de ter chegado primeiro.
Para fãs de terror que conhecem o terreno, a experiência é a de assistir a um filme que parece ter sido gerado por um algoritmo treinado em “filmes de Premonição”. A mitologia asteca prometida no trailer? Esqueça. O elenco talentoso? Subutilizado. A oportunidade de fazer algo novo com uma fórmula antiga? Desperdiçada.
Corin Hardy demonstrou em ‘A Freira’ que consegue operar dentro de universos estabelecidos com personalidade. Aqui, parece contido por um roteiro que confunde “familiar” com “confortável”. O resultado é um filme que não é ruim o suficiente para ser esquecível, nem bom o suficiente para ser lembrado. Fica naquele limbo irritante do “já vi isso antes, e vi melhor”.
Nos anos 2000, ‘Premonição’ parecia fresco porque misturava terror com a ideia de que a morte é burocrática e criativa. Em 2026, repetir essa fórmula sem acrescentar nada novo não é nostalgia — é falta de imaginação. E num gênero que vive de subverter expectativas, isso é o verdadeiro horror.
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Perguntas Frequentes sobre ‘O Som da Morte’
Onde assistir ‘O Som da Morte’?
‘O Som da Morte’ estreou nos cinemas em fevereiro de 2026. Ainda não há data confirmada para streaming, mas produções da New Line Cinema costumam chegar à Max alguns meses após o lançamento theatrical.
‘O Som da Morte’ é um remake de ‘Premonição’?
Não oficialmente. O filme é uma produção original, mas a estrutura narrativa, o conceito de “morte criativa” e até a solução do final são praticamente idênticos à franquia ‘Premonição’. A crítica aponta que funciona mais como uma cópia não assumida do que como uma homenagem.
Quanto tempo dura ‘O Som da Morte’?
O filme tem aproximadamente 1 hora e 45 minutos de duração. O ritmo é ágil, especialmente nas sequências de morte, mas a familiaridade com a fórmula de ‘Premonição’ pode fazer o filme parecer mais longo para quem conhece o gênero.
Qual a classificação indicativa de ‘O Som da Morte’?
O filme é classificado como 16 anos no Brasil e R (17 anos acompanhado) nos EUA. Contém violência gráfica, mortes elaboradas, uso de drogas e linguagem forte. Não é recomendado para públicos sensíveis.
‘O Som da Morte’ tem cenas pós-créditos?
Não há cenas durante ou após os créditos. O filme tem um desfecho conclusivo, sem abertura para sequência — o que é irônico, considerando que ‘Premonição’ gerou seis filmes.

