‘O Sobrevivente’ fracassou nos cinemas com US$ 68,6 milhões contra um orçamento de US$ 110 milhões, mas lidera a Paramount+ há seis semanas. Analisamos por que o público rejeitou o ingresso mas abraçou o streaming — e o que isso revela sobre a nova economia do entretenimento.
Há algo profundamente irônico no sucesso de ‘O Sobrevivente’. O filme que ninguém quis pagar para ver no cinema agora é o título que todo mundo está assistindo em casa. Seis semanas no topo da Paramount+ nos Estados Unidos — perdendo o posto apenas cinco dias para um filme do Bob Esponja — não é conquista pequena. É o tipo de longevidade que poucos blockbusters conseguem, mesmo aqueles que bombaram nas bilheterias. E isso levanta uma pergunta que Hollywood prefere ignorar: será que o público realmente rejeitou o filme, ou apenas rejeitou o modelo de consumir filmes como esse?
Para entender o fenômeno, vale olhar os números com honestidade. ‘O Sobrevivente’ arrecadou US$ 68,6 milhões mundialmente contra um orçamento de US$ 110 milhões. Em qualquer planilha de estúdio, isso é prejuízo. Paramount apostou na combinação de Glen Powell — em ascensão após ‘Top Gun: Maverick’ — com o diretor Edgar Wright, cujo currículo inclui ‘Scott Contra o Mundo’ e a trilogia Cornetto (‘Todo Mundo Quase Morto’, ‘Polícia Estúpida’ e ‘Herança de Sangue’). O material de origem também tinha pedigree: adaptação do romance de Stephen King que já virara filme em 1987 com Arnold Schwarzenegger. No papel, tudo fazia sentido. Na prática, o público não compareceu.
Por que o streaming mudou completamente o jogo
A resposta mais óbvia é a conveniência. Mas há nuances que números brutos não capturam. Quando você já paga assinatura mensal de um serviço de streaming, o custo psicológico de clicar em “play” é zero. Não há risco financeiro — apenas temporal. E se o filme for ruim? Você desliga e escolhe outra coisa em trinta segundos. Já no cinema, a equação é diferente: preço do ingresso, deslocamento, tempo dedicado, a frustração potencial de ter gastado dinheiro em algo medíocre.
Isso explica por que reviews mistas — ‘O Sobrevivente’ tem 62% no Rotten Tomatoes — pesam muito mais na decisão de ir ao cinema do que na decisão de assistir em casa. A crítica dizia que o filme era entretenimento competente, mas não essencial. Para gastar dinheiro e tempo? As pessoas preferem pular. Para assistir num serviço que já pagam? Por que não.
Há também o fator gênero. Filmes de ação têm performance consistentemente forte em streaming, muito mais do que dramas ou comédias românticas. A experiência de assistir em casa não prejudica tanto a apreciação de perseguições e lutas quanto prejudica a imersão visual de um épico cinematográfico. ‘O Sobrevivente’ se beneficia disso: é um thriller de ação que funciona igualmente bem na tela grande e na tela da sala — e as sequências de perseguição no formato “reality show distópico” ganham até outra camada quando assistidas com a mesma distração que teríamos vendo TV por assinatura.
O que Edgar Wright e Glen Powell entregam de verdade
Wright é um diretor com assinatura visual inconfundível — edição nervosa, transições criativas, referências pop que funcionam como Easter eggs para quem presta atenção. Em ‘O Sobrevivente’, ele adapta seu estilo para um blockbuster mainstream sem perder completamente sua identidade. O resultado não é seu melhor trabalho, mas também não é um produto enlatado. Há inteligência na forma como constrói as sequências de ação dentro do formato de “game show mortal” do enredo — os cortes rápidos e as câmeras múltiplas, que poderiam parecer apenas virtuosismo técnico, encontram justificativa narrativa na própria premissa do filme.
Glen Powell, por sua vez, carrega o filme com o tipo de carisma que o cinema de estúdio adora. Ele tem presença que faz você querer assistir — não por grande atuação dramática, mas porque é divertido vê-lo na tela. O problema é que carisma nem sempre traduz em “movie star” que arrasta multidões ao cinema. Ryan Reynolds provou isso por anos: queridinho do público, mas sem conseguir abrir um blockbuster sozinho até ‘Deadpool’. Powell está em fase similar — amado por quem o conhece, mas ainda não é nome que faz alguém comprar ingresso às cegas.
O fenômeno que Hollywood não quer admitir
O caso de ‘O Sobrevivente’ não é isolado, e isso é o mais revelador. Hollywood está vendo repetidamente filmes que “fracassam” nas bilheterias encontrando público massivo no streaming. Isso sugere que a rejeição não é ao conteúdo, mas ao modelo de consumo. Pessoas ainda querem ver esses filmes — só não querem pagar ingresso, lidar com estacionamento, sentar ao lado de estranhos que mexem no celular.
Para estúdios, isso cria um dilema financeiro real. Streaming gera valor de retenção para a plataforma, mas não substitui a receita explosiva de um sucesso de bilheteria. Paramount pode celebrar os números da Paramount+, mas contabilmente, o filme deu prejuízo. A pergunta que ninguém quer responder é: quantos filmes assim um estúdio consegue absorver antes que o modelo quebre?
Para o público, porém, a mensagem é clara. O espectador de 2026 aprendeu a esperar. Sabe que quase tudo chega no streaming eventualmente. Sabe que o custo-benefício de assistir em casa supera o ritual do cinema para a maioria dos lançamentos. E sabe diferenciar o que merece a experiência teatral — um ‘Oppenheimer’, com sua imersão sonora e visual que perde algo na TV; um ‘Duna’, com sua escala que demanda tela grande — do que é perfeitamente consumível no sofá de casa. ‘O Sobrevivente’ se encaixa na segunda categoria, e o público votou com o controle remoto.
Seis semanas no topo do streaming provam uma coisa: o filme não era o problema. O problema era pedir que as pessoas pagassem para vê-lo do jeito que o estúdio queria. Em um mundo onde streaming existe, essa estratégia se torna cada vez mais uma aposta arriscada — e ‘O Sobrevivente’ é apenas o caso mais recente de um filme que provou valer a pena, só não no lugar onde Hollywood esperava.
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Perguntas Frequentes sobre ‘O Sobrevivente’
Onde assistir ‘O Sobrevivente’?
‘O Sobrevivente’ está disponível exclusivamente na Paramount+ desde seu lançamento. O filme é um original da plataforma e não deve migrar para outros serviços.
Por que ‘O Sobrevivente’ fracassou nas bilheterias?
O filme arrecadou US$ 68,6 milhões contra um orçamento de US$ 110 milhões. A combinação de reviews mistas (62% no Rotten Tomatoes), competição com outros lançamentos e o hábito crescente do público de esperar filmes chegarem ao streaming contribuíram para o fraco desempenho nos cinemas.
‘O Sobrevivente’ é baseado em livro?
Sim. O filme é adaptação do romance ‘The Running Man’ de Stephen King, publicado em 1982 sob o pseudônimo Richard Bachman. A obra já havia sido adaptada em 1987 com Arnold Schwarzenegger.
Quem dirige e estrela ‘O Sobrevivente’?
O filme é dirigido por Edgar Wright (‘Scott Contra o Mundo’, trilogia Cornetto) e estrelado por Glen Powell (‘Top Gun: Maverick’, ‘Twisters’). Powell interpreta o protagonista que participa de um reality show mortal.
Vale a pena assistir ‘O Sobrevivente’?
Para fãs de ação e do estilo visual de Edgar Wright, sim. O filme é entretenimento competente com sequências bem construídas, mas não é essencial. Funciona bem no streaming, onde o custo psicológico de assistir é zero.

