‘O Senhor dos Anéis’ e a profecia de Ursula K. Le Guin sobre a fantasia atual

Analisamos como a crítica de Ursula K. Le Guin sobre a ‘fantasia comodificada’ explica o declínio criativo de ‘O Senhor dos Anéis’ nas mãos da Amazon. Entenda por que a falta de risco e o excesso de orçamento transformaram o mito de Tolkien em um produto de prateleira sem alma.

Em 2001, Ursula K. Le Guin quebrou uma promessa que havia feito a si mesma. Após declarar que ‘Tehanu’ encerraria o ciclo de Terramar, a autora retornou ao seu universo com uma coletânea de contos e um prefácio que se tornaria um manifesto. Naquele texto, Le Guin cunhou um termo que, 25 anos depois, serve como a autópsia perfeita para o estado atual de ‘O Senhor dos Anéis’ Ursula K. Le Guin previu o que acontece quando a arte se torna refém do algoritmo: a fantasia comodificada.

“A fantasia comodificada não assume riscos: não inventa nada, apenas imita e trivializa”, escreveu ela. Para a autora, esse processo priva as histórias de sua complexidade ética, transformando a ação em violência gratuita e os personagens em bonecos movidos por platitudes sentimentais. Ao olhar para ‘Os Anéis de Poder’ ou para a inchada trilogia ‘O Hobbit’, é impossível não notar que a descrição de Le Guin não era apenas uma crítica, mas uma profecia sobre a Amazon Prime Video e a Warner Bros.

O diagnóstico de Le Guin: o risco criativo vs. a planilha

O diagnóstico de Le Guin: o risco criativo vs. a planilha

Le Guin não era apenas uma romancista; era uma teórica do mito. Vencedora de múltiplos prêmios Hugo e Nebula, ela compreendia que a fantasia genuína exige um componente que executivos de estúdio abominam: o risco do desconhecido. A fantasia comodificada funciona como um parasita da imaginação alheia. Ela oferece cascas visuais familiares — um elfo de cabelos longos, uma montanha nebulosa, um mapa envelhecido — e espera que o espectador preencha o vazio com a memória de obras que realmente tinham alma.

Ao assistir ‘Os Anéis de Poder’, a sensação é de um déjà vu técnico. A série mimetiza a paleta de cores e a grandiosidade da Nova Zelândia de Peter Jackson, mas carece do que Le Guin chamava de “coração vivo”. Os ossos estão lá, polidos por bilhões de dólares, mas a estrutura é oca. É a estética da fantasia sem a substância do mito.

Por que a trilogia original de Jackson escapou da comodificação?

Existe uma tendência em tratar a trilogia original de ‘O Senhor dos Anéis’ como um milagre irrepetível. De certa forma, foi. Peter Jackson e sua equipe tomaram decisões que hoje seriam barradas por comitês de marketing: o corte de Tom Bombadil, a reestruturação cronológica de ‘As Duas Torres’ e a ênfase no silêncio e na textura. A fotografia de Andrew Lesnie usava luz e sombra para criar uma Terra-média que parecia histórica, não digital.

O segredo residia na humanidade tátil. Momentos como Gandalf admitindo seu medo nas minas de Moria ou a exaustão física de Sam no Monte da Perdição não são ganchos para action figures; são âncoras emocionais. Em contraste, ‘O Hobbit’ tentou industrializar esse sentimento. Jackson, pressionado pelo estúdio, esticou um livro de 300 páginas em nove horas de cinema. O resultado foi a ação inflada e a diluição moral que Le Guin tanto temia: a imitação que trivializa o original.

‘Os Anéis de Poder’ e a queda nos números

Os dados da consultoria Luminate confirmam o desinteresse: a estreia da segunda temporada de ‘Os Anéis de Poder’ sofreu uma queda de 60% em visualizações em relação à primeira. Isso não é apenas fadiga de gênero, é a rejeição orgânica à falta de perigo narrativo. A série sofre de uma assepsia criativa; ela tenta agradar a todos e acaba não desafiando ninguém.

Tolkien escreveu ‘O Senhor dos Anéis’ sob a sombra das trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Sua obra é uma meditação sobre a corrupção do poder e a perda irreparável. Quando Frodo falha em sua missão no clímax — e ele falha, sendo salvo apenas pela piedade anterior por Gollum — Tolkien está fazendo uma afirmação perturbadora sobre a natureza humana. ‘Os Anéis de Poder’ tem orçamento para recriar a queda de Númenor, mas parece não ter coragem para explorar o niilismo e a arrogância que levaram a essa queda.

O antídoto: a lição de ‘Tehanu’

O mais irônico é que a própria Le Guin mostrou como ressuscitar uma franquia sem comodificá-la. ‘Tehanu’ é o oposto de uma sequência segura. Ela subverteu Terramar, trocando os grandes magos por pessoas comuns e questionando as bases patriarcais de seu próprio mundo. Não foi uma leitura confortável, e por isso foi vital.

A lição para o futuro da fantasia é clara: ressurreições só funcionam quando há algo novo e urgente a dizer. Se ‘O Senhor dos Anéis’ continuar sendo tratado apenas como uma Propriedade Intelectual (IP) a ser minerada, ele continuará a desmoronar sob o peso de sua própria escala. Le Guin sabia que a nossa imaginação é o que dá vida a essas histórias. Se continuarmos a alimentar zumbis corporativos com nossa atenção, não poderemos reclamar quando a fantasia finalmente perder sua magia.

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Perguntas Frequentes sobre ‘O Senhor dos Anéis’ e Ursula K. Le Guin

O que Ursula K. Le Guin achava de ‘O Senhor dos Anéis’?

Le Guin era uma grande admiradora de J.R.R. Tolkien, considerando ‘O Senhor dos Anéis’ uma obra-prima da fantasia moderna. No entanto, ela criticava duramente as imitações genéricas que surgiram depois, o que ela chamava de ‘fantasia comodificada’.

O que significa o termo ‘fantasia comodificada’?

É um termo criado por Le Guin para descrever histórias que imitam a estética da fantasia clássica (elfos, dragões, magia) mas removem a complexidade moral e o risco criativo, transformando a arte em um produto comercial previsível e superficial.

Por que ‘Os Anéis de Poder’ é criticado por fãs de Tolkien?

As principais críticas envolvem o ritmo da narrativa, desvios significativos do cânone estabelecido nos apêndices e a sensação de que a série prioriza o espetáculo visual em detrimento da profundidade filosófica presente nos livros originais.

Onde assistir à trilogia original de ‘O Senhor dos Anéis’?

Atualmente, a trilogia dirigida por Peter Jackson (versões de cinema e estendidas) está disponível no streaming Max (antigo HBO Max), que detém os direitos de exibição dos filmes da Warner Bros.

Qual a relação entre as obras de Le Guin e Tolkien?

Ambos são pilares da fantasia, mas com abordagens diferentes: Tolkien focava na criação de mitos e linguística (High Fantasy), enquanto Le Guin explorava temas antropológicos, sociais e psicológicos através da série Terramar (Earthsea).

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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