O roteiro perdido de ‘Zatanna’ por Emerald Fennell e o que ele revela sobre seu cinema

O Roteiro Zatanna Emerald Fennell nunca foi filmado, mas as pistas sobre ele ajudam a entender o que torna o cinema da diretora tão difícil de “encaixar” em franquias. Analisamos como ‘Bela Vingança’, ‘Saltburn’ e ‘Wuthering Heights’ iluminam a Zatanna que a DC recusou.

Existe algo fascinante sobre projetos de cinema que nunca saem do papel. Não pelo que são, mas pelo que podiam ter sido. O Roteiro Zatanna Emerald Fennell ocupa esse espaço curioso na história recente dos filmes de super-heróis: uma visão autoral descartada antes mesmo de ganhar chance de provar o próprio valor. E, depois da recepção controversa de ‘Wuthering Heights’ (2026), esse “e se?” ficou ainda mais revelador — não sobre a DC, mas sobre o cinema que Fennell insiste em fazer, mesmo quando o material original pede obediência.

O problema é que, até hoje, quase tudo que existe sobre esse projeto vem de falas soltas e bastidores. Isso cria duas tentações fáceis: ou tratar o roteiro como obra-prima imaginária, ou como devaneio incompatível com blockbuster. A leitura mais interessante está no meio: o fato de ele ter sido considerado “longe demais do gênero” já diz muito — não só sobre a máquina de super-heróis, mas sobre como Fennell escreve mulheres, desejo, punição e performance.

Emerald Fennell não “entra” num gênero — ela o usa como armadilha

Emerald Fennell não “entra” num gênero — ela o usa como armadilha

‘Bela Vingança’ se apresenta como thriller de vingança, mas opera como peça de acusação: contra a cumplicidade coletiva, contra o conforto de achar que “os bons” estão identificáveis. A direção é doce na superfície (paleta pastel, música pop, humor), e essa doçura vira veneno — porque nos faz relaxar exatamente quando o filme quer apertar.

Em ‘Saltburn’, ela radicaliza a estratégia: a promessa de sátira de classe vira um estudo de obsessão e desempenho social, com o corpo e o constrangimento como ferramentas dramáticas. O cinema da Fennell adora máscaras: personagens que performam uma versão de si mesmos, e filmes que performam um gênero para desmontá-lo por dentro. Colocar essa abordagem num filme de super-herói não seria “um tempero autoral”; seria mexer na engenharia do produto.

“Talvez longe demais do gênero”: por que essa frase soa como elogio e veto ao mesmo tempo

Quando Fennell disse que seu roteiro era “talvez um pouco longe demais do gênero”, a frase funciona como diagnóstico. O “gênero”, aqui, não é só super-herói — é o pacote: estrutura reconhecível, arco moral legível, cenas de ação em pontos determinados, ganchos para universo expandido, e uma sensação de que tudo precisa ser consumível por público amplo sem atrito.

Zatanna, em teoria, é perfeita para escapar disso. Ela é uma maga performática: truques de palco, feitiços que dependem da fala, ilusionismo como linguagem. A personagem já nasce no limite entre entretenimento e ocultismo. Em mãos mais convencionais, isso vira “magia com VFX”. Em mãos como as de Fennell, a magia provavelmente viraria tema: quem controla a narrativa quando a realidade obedece à sua voz? E o que acontece quando essa voz é também performance para plateia?

Não precisamos do roteiro para enxergar a fricção: o cinema de Fennell costuma exigir ambiguidade moral e desconforto, enquanto super-heróis ainda são policiados pela necessidade de “torcida”. E quando ela se aproxima demais do desconforto, a indústria costuma chamar de “longe do gênero”.

‘Wuthering Heights’ (2026) como pista: Fennell adapta cortando a anatomia do clássico

A recepção mista de ‘Wuthering Heights’ em 2026 ajuda a entender por que Zatanna, com Fennell, assustaria executivos. O filme mexe no que muitos consideram a ossatura do romance de Emily Brontë — e a decisão mais controversa foi reduzir drasticamente o peso da segunda geração, que no livro reforça a ideia de ciclo e repetição da violência.

Isso não é “erro de fidelidade”; é método. Fennell costuma escolher um nervo e apertar até o osso. Ela não se comporta como adaptadora que “transporta” uma obra; ela reescreve a obra para encaixar no seu projeto de cinema — e, com isso, aceita perder camadas do original para ganhar coerência com a própria tese.

Aplicado a quadrinhos, isso teria um efeito imediato: Zatanna é personagem com décadas de lore, crossovers, versões e inconsistências. Um blockbuster típico tenta conciliar tudo (ou simular conciliação). Fennell provavelmente escolheria um eixo — desejo, controle, humilhação pública, o custo de ser “encantadora” — e reconfiguraria o resto ao redor. Para parte do fandom, isso seria heresia. Para o cinema, poderia ser a primeira vez que Zatanna viraria personagem antes de virar “propriedade”.

Zatanna como personagem de Fennell: magia, palco e o preço de ser “gostável”

Zatanna Zatara tem um conceito que já traz conflito embutido: ela vive entre o palco e o oculto. É artista e é arma. É herdeira de linhagem e, ao mesmo tempo, figura pública. O cinema de super-herói adora protagonistas “inspiradoras” e fáceis de consumir. Fennell, ao contrário, escreve mulheres que não se encaixam na vitrine.

Em ‘Bela Vingança’, Cassandra não é desenhada para conforto do espectador. Em ‘Saltburn’, a moralidade é um pântano sedutor. Uma Zatanna escrita por Fennell tenderia a ser contraditória: carismática no palco, opaca fora dele; empoderada em cena, vulnerável nos bastidores; alguém que cobra um preço pela própria magia — e talvez cobre dos outros também.

Há um ponto em que isso deixa de ser só “mais complexa” e vira ameaça ao modelo: o gênero ainda premia protagonistas femininas quando elas cabem em arquétipos “admiráveis”. O tipo de personagem que Fennell faz — fascinante, falha, às vezes cruel — costuma ser permitido a anti-heróis homens. Trazer isso para Zatanna poderia ser justamente o “longe demais”.

O que a DC (e o público) perde quando um projeto desses morre cedo

O DCU sob James Gunn tem mostrado apetite por cantos estranhos do catálogo — e o lado mágico já tem espaço para existir. Em tese, Zatanna tem caminho aberto. O que não parece ter caminho aberto é um filme de estúdio disposto a bancar uma autora cujo maior talento é mexer no que o público acha que quer.

O roteiro de Fennell não vai sair do papel, e a perda não é “uma versão a menos” — é a perda de um experimento raro: uma franquia grande aceitando risco tonal e moral. Em 2026, com o desgaste evidente da fórmula, o mais valioso num super-herói talvez não seja acertar tudo. É ser impossível de prever.

Um filme de Zatanna por Emerald Fennell poderia ser o choque que o gênero evita por instinto. Ou poderia desandar. Mas, ao contrário de tantos produtos que já nascem com a temperatura morna, ele teria algo cada vez mais escasso: identidade.

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Perguntas Frequentes sobre o roteiro de ‘Zatanna’ e Emerald Fennell

O roteiro de ‘Zatanna’ escrito por Emerald Fennell foi vazado?

Até onde se sabe, não. O que circula publicamente são comentários da própria Fennell e relatos de bastidores, mas o texto completo do roteiro não está disponível de forma confiável.

Por que o projeto de ‘Zatanna’ com Emerald Fennell não aconteceu?

Não há uma explicação oficial única e detalhada. A própria Fennell sugeriu que o texto era “talvez um pouco longe demais do gênero”, o que indica incompatibilidade criativa com o tipo de filme que o estúdio queria fazer naquele momento.

Zatanna vai aparecer no DCU de James Gunn?

Até agora, não há anúncio oficial confirmando um filme ou série solo de Zatanna no DCU. Como o universo já abriu espaço para personagens menos conhecidos e para o lado mágico, a chance existe — mas é especulação.

Preciso conhecer os quadrinhos para entender uma futura adaptação de Zatanna?

Não necessariamente. As adaptações da DC geralmente introduzem a personagem do zero para o público geral, usando o material dos quadrinhos mais como repertório do que como “pré-requisito” de leitura.

Quais filmes de Emerald Fennell ajudam a imaginar como seria ‘Zatanna’ com ela?

‘Bela Vingança’ (pela subversão de expectativas e moralidade desconfortável) e ‘Saltburn’ (pela obsessão e pela performance social). Eles mostram como Fennell usa “embalagens” de gênero para chegar a temas mais corrosivos.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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