‘O que demorou tanto?’: a reação de Leonard Nimoy ao clássico episódio de ‘DS9’

Leonard Nimoy surpreendeu a produção de DS9 ao aprovar entusiasticamente o episódio ‘Trials and Tribble-ations’ com a frase ‘O que demorou tanto?’. A reação revela como a franquia superou tensões internas e celebrou seu legado com inteligência.

Existem histórias de bastidores que revelam mais sobre uma franquia do que qualquer documentário. Esta é uma delas: o momento em que Leonard Nimoy — o homem que encarnou a lógica vulcana por décadas — surpreendeu toda a produção de Jornada nas Estrelas: A Nova Missão com uma reação que ninguém esperava. E a ironia é deliciosa: quem preparou o terreno para um confronto foi justamente quem temia que as pontes estivessem queimadas.

O ano era 1996. Deep Space Nine planejava algo ousado para celebrar os 30 anos da franquia: inserir digitalmente o Capitão Sisko e sua tripulação dentro do clássico episódio ‘The Trouble with Tribbles’, da Série Original. Uma homenagem ambiciosa que exigia permissão para usar imagens antigas — e a aprovação do homem que interpretou Spock.

O telefone que ninguém queria discar

O telefone que ninguém queria discar

Ira Steven Behr, produtor executivo de DS9, contou durante o Trek Talks 5 — evento beneficente realizado em agosto de 2025 — que Rick Berman, o executivo que comandava a franquia na época, lhe deu uma missão simples em teoria, aterrorizante na prática: ligar para Leonard Nimoy e pedir permissão.

Não era paranóia. Berman conhecia o histórico. Nimoy havia sido convidado para dirigir Jornada nas Estrelas: Generations (1994), o filme que marcaria a transição entre as gerações. O problema? O roteiro já estava pronto quando o convite foi feito — com pontos de trama impostos pelo estúdio que Nimoy detestou. Mais grave ainda: o papel de Spock no prólogo era puramente decorativo.

Para um ator que construiu um personagem com a profundidade que Nimoy deu a Spock — e que dirigiu três filmes da franquia com mão firme — aquilo era um desrespeito. Ele recusou. As relações ficaram, no mínimo, geladas.

Então quando Behr discou o número, ele estava preparado para o pior. Berman o tinha avisado: seria uma ligação ‘espinhosa’. Cada palavra foi escolhida com cuidado. ‘Estamos pensando em fazer este episódio, pegar The Trouble with Tribbles e misturar com nosso show…’

Silêncio do outro lado da linha.

E então veio a resposta que ninguém esperava:

‘O que demorou tanto?’

Por que a reação de Nimoy importa além da anedota

É fácil rir da situação — e ela é genuinamente cômica: um produtor tenso, um telefone temido, uma resposta que desmonta todo o drama construído. Mas há algo mais profundo acontecendo aqui. Leonard Nimoy não estava apenas sendo generoso. Ele estava reconhecendo, implicitamente, que Deep Space Nine estava fazendo algo que a franquia sempre deveria ter feito: celebrar seu próprio legado com inteligência e afeto genuíno.

Pense no contexto: DS9 sempre foi a série ‘diferente’ de Star Trek. Mais sombria, mais serializada, menos otimista no sentido clássico de Gene Roddenberry. Para alguns fãs, era quase heresia. Mas para Nimoy — que lutou por anos para dar profundidade a um personagem que poderia ter sido apenas um alienígena com orelhas pontudas — aquela série que ousava quebrar regras provavelmente fazia mais sentido do que os filmes-bloco de efeitos especiais que a Paramount priorizava.

A aprovação dele não foi apenas um ‘sim’ burocrático. Foi um reconhecimento de que DS9 estava honrando a Série Original da forma correta: não como relíquia intocável, mas como fundação viva sobre a qual novas histórias podiam ser construídas.

A ironia que Rick Berman não previu

A ironia que Rick Berman não previu

Há uma camada adicional de poesia nessa história. Rick Berman, o homem que assumiu o controle criativo de Star Trek após a morte de Roddenberry, era conhecido por sua abordagem pragmática. Foi ele quem preparou Behr para um conflito que não existiu.

A ironia é que Berman projetou suas próprias tensões com Nimoy em uma situação que exigia apenas boa vontade. O telefone que ele temia se transformou no momento de reconciliação que a franquia precisava — mesmo que ninguém soubesse disso na hora.

Nimoy nunca mais trabalhou diretamente com Berman. Mas voltou a interpretar Spock em Star Trek (2009) e Além da Escuridão – Star Trek, os filmes de J.J. Abrams que reiniciaram a franquia. Curiosamente, foi em produções que também misturavam reverência com inovação — exatamente o que ‘Trials and Tribble-ations’ fez.

Um episódio que mereceu seu ‘sim’

Vale contextualizar o que exatamente Nimoy estava aprovando. ‘Trials and Tribble-ations’ não era um episódio comum. A equipe de DS9 recriou os cenários de 1967 com precisão obsessiva, inseriu atores modernos em filmagens antigas usando tecnologia digital pioneira, e construiu uma narrativa que funcionava como thriller temporal E como comédia de peixes-fora-d’água.

O clímax — Sisko conhecendo Kirk brevemente — é o tipo de fanservice que soa cansativo no papel, mas funciona na tela porque é tratado com seriedade. Avery Brooks interpreta o encontro como um momento de reverência genuína, não como piada.

Para Nimoy, ver isso provavelmente foi reconhecer que a franquia que ele ajudou a construir estava em boas mãos. Mãos que respeitavam o passado sem serem escravas dele.

Por que ‘O que demorou tanto?’ é a resposta perfeita

Essa anedota encapsula algo que fãs de Star Trek sempre souberam, mas que a produção às vezes esquece: a franquia sobrevive não apesar de suas contradições, mas por causa delas. A mesma série que produziu Generations — um filme que Nimoy rejeitou — também produziu DS9, que ele abraçou.

O telefone de Behr para Nimoy poderia ter terminado em mais uma ponte queimada. Em vez disso, virou uma história que humaniza todos os envolvidos: Berman mostrando cautela excessiva, Behr enfrentando um medo que não existia, e Nimoy demonstrando que por trás da lógica vulcana havia um homem que reconhecia sinceridade quando via.

‘O que demorou tanto?’ não é apenas uma frase engraçada. É o reconhecimento de que certas homenagens são tão óbvias, tão certas, que a única pergunta legítima é por que ninguém teve a coragem de fazê-las antes.

DS9 teve essa coragem. E Leonard Nimoy — para alívio de todos — estava pronto para aplaudi-la.

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Perguntas Frequentes sobre Leonard Nimoy e DS9

O que é o episódio ‘Trials and Tribble-ations’ de DS9?

‘Trials and Tribble-ations’ é o 6º episódio da 5ª temporada de Deep Space Nine, exibido em 1996. O episódio usa tecnologia digital para inserir os personagens de DS9 dentro do clássico ‘The Trouble with Tribbles’ (1967) da Série Original, criando uma homenagem aos 30 anos de Star Trek.

Por que Leonard Nimoy recusou participar de ‘Generations’?

Nimoy foi convidado para dirigir Generations (1994), mas recusou porque o roteiro já estava pronto com elementos impostos pelo estúdio que ele desaprovava. Além disso, o papel de Spock no prólogo era mínimo e puramente decorativo — algo inaceitável para quem construiu o personagem por décadas.

Leonard Nimoy apareceu em algum episódio de DS9?

Não. Nimoy nunca apareceu em Deep Space Nine. Sua conexão com a série foi a aprovação para uso de imagens antigas de Spock em ‘Trials and Tribble-ations’. Ele também não dirigiu nem escreveu para a série.

O que é o Trek Talks?

Trek Talks é uma série de eventos beneficentes online com membros do elenco e produção de Star Trek. Ira Steven Behr revelou a história do telefone com Nimoy durante o Trek Talks 5, realizado em agosto de 2025, em apoio à Hollywood Food Coalition.

Qual foi a última vez que Leonard Nimoy interpretou Spock?

A última aparição de Nimoy como Spock foi em Além da Escuridão – Star Trek (2013), o segundo filme da trilogia reboot de J.J. Abrams. Ele faleceu em 27 de fevereiro de 2015, aos 83 anos.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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