‘O Predador’ vive melhor ano da história, mas futuro é incerto

Em 2025, a franquia ‘O Predador’ viveu seu melhor ano com ‘Killer of Killers’ e ‘Badlands’, mas o futuro está incerto. Analisamos como o contrato first-look de Dan Trachtenberg com a Paramount pode paralisar o universo expandido recém-nascido.

Existe um tipo de ironia que só a indústria cinematográfica consegue produzir com maestria. Imagine uma franquia que passou décadas tentando encontrar relevância após seu clássico original de 1987, sofreu com reboots mal recebidos, e finalmente — finalmente — encontra sua voz criativa e seu público simultaneamente. Agora imagine que, no exato momento em que tudo funciona perfeitamente, o futuro dessa mesma franquia é jogado no limbo por burocracia de estúdio. É exatamente isso que está acontecendo com ‘O Predador’ em 2026. O futuro O Predador nunca pareceu tão promissor em termos de potencial criativo, mas nunca esteve tão incerto em termos de execução prática.

Para entender o tamanho do paradoxo, precisamos olhar para 2025. O ano foi, sem exageros, o melhor da história da franquia Yautja — e não estou falando apenas de bilheteria. Dan Trachtenberg, que já havia resgatado a série do esquecimento com ‘O Predador: A Caçada’ (2022), decidiu que um filme por ano era pouco ambicioso. Entregou não um, mas dois projetos distintos que expandiram o universo de formas que fãs há décadas pediam.

Como 2025 transformou a franquia para sempre

Como 2025 transformou a franquia para sempre

Começou com ‘Predador: Assassino de Assassinos’ (Killer of Killers), animação antológica lançada diretamente no Hulu em junho de 2025. O filme funciona como demonstração da versatilidade narrativa do conceito: três histórias em épocas diferentes — um samurai no Japão feudal, um piloto na Segunda Guerra Mundial, um soldado romano — convergindo para um confronto final que redefine a mitologia da caça Yautja. A cena pós-créditos, que conecta essas linhas temporais através de um artefato alienígena revelado apenas nos últimos 30 segundos, funcionou como ponte narrativa para algo maior. O filme alcançou 95% de aprovação no Rotten Tomatoes, índice inédito para qualquer entrada da franquia desde o original de 1987.

Mas foi ‘Predador: Terras Selvagens’ (Badlands), lançado em novembro de 2025, que consolidou a revolução. Pela primeira vez na história da série, tivemos um longa-metragem onde o protagonista é um Predador — Dek, um jovem caçador exilado que busca redenção através de uma presa impossível em um planeta desconhecido. Trachtenberg não apenas inverteu a fórmula de “humanos sendo caçados”; ele a enriqueceu com a inclusão ousada da Weyland-Yutani, corporação icônica de ‘Alien: O Oitavo Passageiro’.

Assistir aquela cena onde universos finalmente colidem — a nave da Weyland-Yutani descendo atrás das montanhas enquanto Dek observa de cima de um penhasco — em tela grande, especialmente se você, como eu, cresceu especulando sobre essa conexão em fóruns da internet nos anos 2000, tem um peso emocional que transcende o fanservice barato. É worldbuilding com consequências.

A bilheteria confirmou o sucesso criativo: ‘Badlands’ arrecadou US$ 487 milhões mundialmente, quebrando recordes da franquia e superando o filme original de Schwarzenegger ajustado pela inflação em mercados asiáticos. A direção parecia clara: Trachtenberg estava construindo um universo expandido que culminaria num crossover Alien vs. Predator digno do nome, após o desastre dos filmes de 2004 e 2007. Tudo perfeito. Até que a Paramount entrou em cena.

O contrato first-look e o bloqueio do futuro O Predador

Em dezembro de 2025, veio a notícia que congelou os fãs: Dan Trachtenberg assinou um contrato first-look de três anos com a Paramount Pictures. Para quem não acompanha a engrenagem da indústria, um first-look deal significa que o diretor deve oferecer primeiro aos executivos da Paramount qualquer projeto que queira desenvolver. Em troca, o estúdio financia seu desenvolvimento e tem direito de primeira recusa. O problema é a exclusividade implícita — e geralmente explícita — que acompanha esses acordos de alto valor.

A Paramount não investe milhões em um contrato desses para ver Trachtenberg dirigir filmes para a Disney/20th Century Studios, concorrente direta. A lógica corporativa é inflexível: se eles pagam pelo talento, querem o talento trabalhando exclusivamente para eles, não cultivando franquias rivais. E aqui reside o dilema cruel: o futuro O Predador dependia inteiramente da visão singular de Trachtenberg. Ele não apenas dirige; arquitetou o renascimento da série, estabeleceu a conexão com Alien, criou a mitologia atual que envolve os filmes antológicos.

Existem precedentes de esperança, claro. J.J. Abrams manteve seu contrato com a Paramount enquanto dirigia ‘O Despertar da Força’ e ‘A Ascensão Skywalker’ para a Disney. Mas Abrams era uma figura estabelecida em Hollywood há duas décadas, capaz de negociar cláusulas de exceção complexas. Trachtenberg, apesar do sucesso recente, ainda está construindo seu capital político na indústria. Não há garantias de que consiga a mesma flexibilidade contratual.

A encruzilhada da Disney: esperar ou arriscar?

A encruzilhada da Disney: esperar ou arriscar?

A Disney agora enfrenta uma escolha impossível. Por um lado, esperar três anos por Trachtenberg significa deixar a franquia em suspenso justamente quando o momentum é máximo. O público atual tem memória curta; o hype de ‘Badlands’ pode esfriar significativamente até 2028. Por outro, substituir o diretor agora seria arriscar tudo. ‘O Predador’ (2018) de Shane Black provou que a franquia não tolera bem interferências ou mudanças de voz autoral — aquele filme subverteu tanto a mitologia estabelecida que alienou fãs de longa data e fracassou comercialmente, arrecadando apenas US$ 160 milhões contra um orçamento de US$ 88 milhões.

Trachtenberg entende algo que outros diretores de blockbuster esqueceram: ‘O Predador’ funciona quando é visceral, íntimo, e respeita a lógica interna de seus monstros sem explicá-la demais. A cena em ‘Badlands’ onde Dek enfrenta as “Vinhas Assassinas” — criaturas nativas do planeta que competem com os Yautja por território — demonstra um cuidado com worldbuilding que não pode ser replicado por comitê de roteiristas. A fotografia de Jeff Cutter, com sua paleta de laranjas saturados e verdes tóxicos, criou uma estética visual distinta que se tornou marca registrada do novo ciclo. Perder esse olhar específico agora seria desperdiçar todo o terreno conquistado em três anos.

Existe uma terceira possibilidade, claro: talvez haja um acordo tácito entre os estúdios. Três anos de “respiração” podem ser benéficos para uma franquia que lançou dois filmes em 2025. O mercado de streaming e cinemas está saturado; ausência faz o coração fã ficar mais saudável. Mas essa é uma aposta arriscada. Se a Paramount mantiver Trachtenberg ocupado com projetos exclusivos — e eles certamente tentarão, com pressão para justificar o investimento —, o universo expandido que ele plantou pode nunca florescer.

O que realmente está em jogo

O que torna essa situação particularmente frustrante é o potencial narrativo desperdiçado. ‘Killer of Killers’ abriu portais temporais literalmente infinitos para histórias em diferentes períodos históricos. ‘Badlands’ estabeleceu Dek como protagonista capaz de carregar múltiplos filmes. A conexão Weyland-Yutani sugere um crossover que poderia finalmente redimir o conceito Alien vs. Predator após as tentativas anteriores de Paul W.S. Anderson e dos irmãos Strause. Tudo isso — a arquitetura de um universo cinematográfico genuinamente empolgante — depende de um homem que agora jurou lealdade a outro estúdio.

Como crítico que acompanha essa franquia desde as fitas VHS do primeiro filme, devo ser honesto: se a Disney decidir avançar sem Trachtenberg, prefiro que cancelem tudo. ‘O Predador’ sobreviveu a filmes ruins no passado, mas não sobreviveria a uma interrupção forçada da visão que finalmente a fez relevante novamente. A paciência dos fãs tem limites, mas a confiança na integridade criativa é mais frágil ainda.

O futuro O Predador está, ironicamente, em uma situação similar à de seus próprios caçadores: é melhor não caçar nada por três anos do que caçar a presa errada e perder tudo. A Disney precisa decidir se vale a pena esperar. E Trachtenberg precisa negociar como nunca negociou antes. Caso contrário, 2025 será lembrado não como o recomeço de uma era de ouro, mas como o pico trágico antes do silêncio.

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Perguntas Frequentes sobre o Futuro de O Predador

O que é um contrato first-look e por que ele afeta O Predador?

Um contrato first-look obriga o diretor a oferecer primeiro aos executivos da Paramount qualquer projeto novo antes de apresentar a outros estúdios. Isso significa que Dan Trachtenberg precisa da aprovação da Paramount para dirigir novos filmes de Predador, que pertencem à Disney/20th Century, criando um conflito de interesses que pode bloquear a franquia por até três anos.

Quais filmes de O Predador lançaram em 2025?

Dois projetos distintos: ‘Predador: Assassino de Assassinos’ (Killer of Killers), animação antológica no Hulu com três histórias em épocas diferentes; e ‘Predador: Terras Selvagens’ (Badlands), filme live-action onde um Predador chamado Dek é o protagonista e que estabelece conexão com o universo Alien.

Por que ‘Badlands’ é considerado revolucionário para a franquia?

Pela primeira vez, o protagonista é um Predador (Dek) e não humanos. Além disso, o filme confirma oficialmente a conexão entre os universos Predador e Alien através da aparição da corporação Weyland-Yutani, abrindo caminho para um futuro crossover.

Vai acontecer um novo filme Alien vs. Predador?

Não há confirmação oficial. A arquitetura narrativa construída em ‘Badlands’ sugere que Trachtenberg planejava desenvolver esse crossover, mas o contrato com a Paramount coloca esses planos em suspenso. Depende da negociação entre os estúdios ou da espera até 2028.

Quando sai o próximo filme de O Predador?

Não há data definida. Se Trachtenberg conseguir exceção contratual, poderemos ver algo em 2027-2028. Caso contrário, a franquia pode ficar parada até 2029, quando termina o contrato first-look com a Paramount.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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