‘O Peso da Dor’: por que este drama sobre tiroteio foi ignorado

Em ‘O Peso da Dor’ (2021), quatro pais encaram o trauma de um tiroteio escolar em uma única sala — sem flashbacks e sem alívio. Analisamos por que o ‘O Peso da Dor filme’ foi ignorado na temporada de prêmios e como sua linguagem transforma conversa em tensão.

Existem filmes que a crítica ama e o público ignora. Existem filmes que o público adora e a crítica despreza. E existe uma terceira categoria mais cruel: filmes que todo mundo deveria ver, mas que simplesmente somem do radar. ‘O Peso da Dor’ (título original: Mass), drama de 2021 dirigido e escrito por Fran Kranz, é um caso emblemático — e dá para entender por que tanta gente passa batido: ele não oferece distância, alívio nem catarse fácil.

O curioso é que não faltou aprovação crítica (o filme foi muito bem recebido em Sundance e tem ótimo desempenho em agregadores). O que faltou foi tração cultural: campanha, conversa e “momento”. E, sobretudo, disposição da indústria para abraçar um drama que trata um trauma americano contemporâneo sem estilização e sem “pontos de virada” confortáveis.

Um filme de uma sala só — e a coragem de não fugir do rosto de ninguém

Um filme de uma sala só — e a coragem de não fugir do rosto de ninguém

A premissa parece pequena: quatro pais se encontram anos após um tiroteio escolar. Jay e Gail perderam o filho; Linda e Richard são os pais do atirador, que se suicidou depois do massacre. O filme inteiro acontece, praticamente, em uma sala de igreja. Sem flashbacks, sem reconstituições, sem cenas do evento. Nada de imagens “explicativas” para guiar o espectador.

Isso não é pobreza de produção: é estratégia moral e cinematográfica. Kranz filma como quem recusa transformar dor em espetáculo. Ao tirar o tiroteio do campo visual, ele impede a plateia de buscar o conforto da explicação rápida (o “monstro”, o “sinal claro”, a “causa única”). O que sobra é mais incômodo: pessoas comuns tentando nomear o indizível.

E aí entra a mise-en-scène: a direção aposta em enquadramentos que, aos poucos, apertam a sensação de confinamento. No início, a disposição no espaço e a formalidade dos gestos criam uma barreira quase protocolar. Conforme as frases ficam menos defensivas e mais perigosas, a câmera se aproxima, a respiração vira parte do ritmo e a sala deixa de ser cenário para virar uma espécie de arena — sem heroísmo, sem plateia, sem juiz.

A cena em que o filme “prova” que é cinema (não teatro filmado)

Há um momento-chave com Gail (Martha Plimpton) em que o texto poderia pedir corte, música ou fuga para um plano de reação salvador. Kranz faz o oposto: sustenta a tomada tempo suficiente para que a performance se imponha sem anestesia. Você percebe o trabalho corporal — a forma como a voz tenta manter controle e falha, como o silêncio vira frase.

Esse tipo de duração não é “teatral”; é uma decisão de montagem e de ética do olhar. O filme entende que editar demais seria “limpar” a experiência. E é exatamente aí que ele encontra sua força: não existe espetáculo, mas existe presença. E presença, no cinema, é linguagem.

Ann Dowd e o tipo de dor que não pode competir

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Ann Dowd, como Linda, faz uma escolha raríssima: interpreta alguém que sabe que qualquer demonstração de sofrimento pode soar como tentativa de equivalência. É uma personagem aprisionada por um tribunal invisível. Ela mede cada palavra porque sabe que, socialmente, não há forma “correta” de sofrer quando seu filho foi o agressor.

Quando o choro finalmente vem, o impacto não é melodramático — é acumulativo. O filme constrói essa contenção como parte do tema: não basta estar devastada; ela também precisa provar que não está pedindo absolvição.

Jason Isaacs e Martha Plimpton, por sua vez, evitam a armadilha do “pai/mãe porta-voz”. Jay e Gail não viram símbolos; viram pessoas, com contradições, vaidade ferida, necessidade de respostas e, às vezes, desejo de punição. Reed Birney dá a Richard um peso específico: o pai que oscila entre a culpa paralisante e a raiva de ser reduzido a “cúmplice” de uma história que ele também perdeu o direito de narrar.

Por que ‘O Peso da Dor’ foi ignorado na temporada de prêmios

A resposta não está numa única causa — é um combo de mercado, política de campanha e, sim, desconforto.

  • Campanha e distribuição: prêmios grandes não são só “mérito”; são visibilidade sustentada. Um drama pequeno, sem máquina de marketing e sem eventos suficientes, some rápido no calendário — especialmente em anos competitivos.
  • Fadiga e aversão ao tema: tiroteios escolares, por serem repetidos e recentes, produzem uma espécie de exaustão moral. O votante tende a admirar de longe (“importante”), mas evita se associar emocionalmente (“não quero reviver isso”).
  • O filme não oferece a saída que a indústria gosta de premiar: não há lição fácil, vilão pronto, catarse redentora. O final não “resolve” — ele apenas muda o tipo de silêncio.
  • Preconceito com o rótulo “peça filmada”: existe um viés contra filmes de espaço limitado, como se movimento de câmera fosse sinônimo de cinema. Aqui, a linguagem está no tempo, no corte, na distância do enquadramento e na direção de atores — elementos tão cinematográficos quanto qualquer set-piece.

O diálogo com ‘A Vida Depois’ (The Fallout): dois ângulos, o mesmo apagamento

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Faz sentido aproximar ‘O Peso da Dor’ de ‘A Vida Depois’ (2021), que acompanha estudantes sobreviventes. Se o filme de Megan Park observa o trauma no “logo depois” — quando o corpo ainda não sabe voltar à rotina —, ‘O Peso da Dor’ mergulha no longo prazo: anos depois, quando o mundo já seguiu e a ferida virou identidade.

Os dois foram bem recebidos e, ainda assim, ficaram fora do centro das premiações principais. Não é coincidência: são filmes sobre um tipo de violência que não vira “mito” com facilidade. A indústria sabe transformar guerras antigas e crimes distantes em narrativa prestigiosa; já a violência cotidiana, sem metáfora, cobra um preço emocional que nem todo mundo quer pagar publicamente.

Veredito: para quem este filme é — e para quem não é

‘O Peso da Dor’ é um filme necessário, mas não “agradável”. Ele não foi feito para entretenimento escapista, nem para quem procura suspense, reviravolta ou conforto moral. Ele é para quem aceita que cinema também pode ser um espaço de confronto: um lugar onde a pergunta é mais importante do que a resposta.

O maior mérito de Fran Kranz é recusar simplificações. Os pais da vítima não são santos; os pais do atirador não são caricaturas de monstros. São quatro pessoas tentando atravessar um evento que não deveria existir — mas existe, e volta sempre que as manchetes mudam.

Se a temporada de prêmios ignorou o filme, isso diz algo sobre a indústria. O fato de ele continuar disponível para ser descoberto diz algo melhor sobre o público: ainda existe espaço para obras que não pedem aplauso — pedem atenção.

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Perguntas Frequentes sobre ‘O Peso da Dor’

‘O Peso da Dor’ é baseado em uma história real?

Não. ‘O Peso da Dor’ (Mass) é uma história ficcional, mas inspirada em situações reais recorrentes nos EUA — especialmente encontros restaurativos e conversas entre famílias afetadas por violência armada.

Qual é a duração de ‘O Peso da Dor’?

O filme tem cerca de 1h51 (111 minutos) de duração, variando por plataforma e região.

‘O Peso da Dor’ tem cenas de tiroteio ou imagens explícitas do massacre?

Não. O filme não mostra o tiroteio em si; ele foca na conversa entre os pais anos depois. Ainda assim, o tema é pesado e há descrições verbais do ocorrido.

Onde assistir ‘O Peso da Dor’?

A disponibilidade muda bastante por país e por janela de licenciamento. O jeito mais seguro é buscar por ‘Mass (2021)’ ou ‘O Peso da Dor’ no JustWatch (ou serviço similar) para ver em quais plataformas ele está no Brasil no momento.

‘O Peso da Dor’ é um filme “parado”?

É um drama de diálogo, concentrado em atuação e tensão emocional, com poucos elementos externos e quase nenhuma mudança de cenário. Se você gosta de filmes centrados em performance e subtexto, ele prende; se busca ação ou ritmo acelerado, pode parecer difícil.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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