O “filme complementar” de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ pode ser ‘Emily’ (2022): juntos, eles revelam como a imaginação gótica da autora ajuda a entender as escolhas de Emerald Fennell. Veja por que Emily filme O Morro dos Ventos Uivantes funciona melhor como duplo programa.
Existe algo deliciosamente irônico em assistir à nova adaptação de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ e, logo depois, perceber que há um “filme-irmão” recente — estrelado por Emma Mackey, atriz frequentemente apontada como sósia de Margot Robbie — imaginando a vida de quem escreveu o romance. Não é exatamente uma coincidência: é um caso raro em que duas obras independentes acabam conversando como se tivessem combinado.
A adaptação de Emerald Fennell chega com Margot Robbie e Jacob Elordi como Catherine e Heathcliff, e com uma aposta que inevitavelmente divide opiniões: menos “prestígio britânico polido”, mais febre romântica, carne, excesso e crueldade emocional. O que muita gente não percebe é que ‘Emily’ (2022), filme sobre Emily Brontë, funciona como lente para entender por que essa história continua voltando — e por que a abordagem de Fennell, por mais estilizada que pareça, pode ser estranhamente coerente com o espírito do livro.
O que Emerald Fennell realmente busca ao filmar ‘O Morro dos Ventos Uivantes’
Fennell não se interessa por adaptações “bem-comportadas”. Desde ‘Promising Young Woman’, ela filma desejo e violência moral como coisas que se confundem — e seu cinema costuma desconfiar do verniz social que tenta organizar o caos. Em ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, essa postura aparece no modo como a história deixa de ser apenas romance de época e vira uma experiência de obsessão: personagens que não sabem amar sem destruir.
O ponto é que o romance de Emily Brontë nunca foi exatamente “agradável”. A sensação de intempérie — emocional e física — é parte do DNA do livro. Quando Fennell intensifica o melodrama e trata a paixão como algo quase doentio, ela não está apenas “modernizando”: está escolhendo não domesticar a ferocidade da obra, como muitas versões anteriores fizeram em nome do bom gosto.
Se você sai do filme achando que “passou do ponto”, a pergunta útil não é se Fennell foi exagerada — é onde o livro já era excessivo, e o quanto nós nos acostumamos a versões que transformam brutalidade em romantização elegante.
‘Emily’ (2022): o biopic que entende que a autora também é um romance gótico
Aqui entra a palavra-chave do duplo programa: Emily filme O Morro dos Ventos Uivantes. Dirigido por Frances O’Connor, ‘Emily’ foge do biopic “museu”. Em vez de tratar Emily Brontë como monumento literário, o filme a assume como personagem de imaginação perigosa — alguém que escreve não para registrar o mundo, mas para explodir as grades dele.
Emma Mackey faz uma Emily menos “reclusa frágil de livro didático” e mais um corpo em atrito: com a família, com o lugar onde vive, com o que se espera dela. E o filme compra a ideia central (sem fingir que é biografia definitiva): talvez a intensidade do romance não venha de experiências factuais verificáveis, mas de uma vida interior tão radical que precisou virar literatura para caber em algum lugar.
O’Connor toma liberdades — e toma de propósito. A mise-en-scène e o tom se aproximam de uma fábula romântica sombria: vento, terra, corrida, respiração, gestos impulsivos, a sensação de que a natureza e o desejo falam mais alto do que etiqueta. É um filme que entende que explicar Emily Brontë com “dados” seria reduzir o mistério que fez o livro sobreviver.
O encaixe: quando um filme vira a “chave” do outro
Assistir a ‘Emily’ e à nova ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ em sequência muda o tipo de pergunta que você faz. Catherine e Heathcliff deixam de parecer só uma “história de amor tóxica” (rótulo fácil, às vezes preguiçoso) e passam a soar como sintoma: um romance escrito por alguém que imaginava sentimentos como forças da natureza, não como lições de moral.
Os dois filmes convergem num gesto raro: nenhum deles quer ser reverente. Ambos preferem atmosfera, impulso e contradição a “fidelidade literal” (que muitas vezes é só fidelidade a uma expectativa de gênero). E é aí que o diálogo fica interessante: ‘Emily’ dá corpo à ideia de uma autora que precisava inventar o indizível; Fennell filma o resultado dessa invenção como algo que continua indomável.
A curiosa rima de casting — Robbie num, Mackey no outro — vira detalhe simbólico: quase como se o cinema criasse uma ponte visual entre autora e criação, entre “mulher que não cabe” e personagens que também não cabem. Não é argumento, mas é uma camada a mais na experiência.
Para quem funciona (e para quem provavelmente vai odiar)
Esse duplo programa é para quem gosta de adaptações que tomam partido — que escolhem um caminho e bancam as consequências. Se você quer o conforto do drama de época que transforma violência emocional em romance aspiracional, as escolhas de Fennell tendem a incomodar. Se você detesta biopic que inventa, ‘Emily’ também pode soar “imprudente”.
Agora, se o que te interessa é entender por que ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ continua assombrando leitores e cineastas, a combinação é potente: um filme dramatiza a imaginação; o outro transforma essa imaginação em imagem — sem pedir desculpas.
Veredito: o “filme complementar” que dá profundidade ao fenômeno
Vistos isoladamente, ambos correm o risco de serem mal interpretados: a versão de Fennell como estilização vazia; ‘Emily’ como invenção gratuita. Juntos, eles se defendem e se iluminam. Um sugere de onde pode ter vindo a tempestade; o outro mostra por que essa tempestade ainda faz sentido na tela.
Se a nova ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ te deixou intrigado (ou irritado), ‘Emily’ é o passo seguinte mais produtivo — não para “explicar” o romance, mas para recolocar a obra no lugar certo: o de algo que nunca foi comportado.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Emily’ e ‘O Morro dos Ventos Uivantes’
‘Emily’ (2022) é uma biografia fiel de Emily Brontë?
Não no sentido estrito. ‘Emily’ usa elementos conhecidos da vida da autora, mas assume liberdades dramáticas para construir uma fábula romântica que tenta capturar a energia emocional por trás de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, não reconstituir fatos com precisão documental.
Preciso ler o livro para entender a nova adaptação de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’?
Não. A história se sustenta por conta própria, mas conhecer o romance ajuda a perceber que o tom de obsessão e brutalidade não é “invenção moderna” — está na raiz da obra, mesmo quando outras adaptações suavizam isso.
‘Emily’ (2022) tem alguma ligação oficial com ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ de Emerald Fennell?
Não. São filmes independentes, de equipes diferentes. A ligação é temática: ‘Emily’ imagina a autora e o tipo de intensidade emocional que poderia alimentar o romance; a adaptação de Fennell encena essa intensidade no limite.
Emma Mackey é a “sósia de Margot Robbie”?
É uma comparação popular nas redes por semelhanças físicas, mas são atrizes diferentes, com trajetórias e estilos próprios. No contexto desses filmes, a coincidência vira mais um detalhe curioso para quem assiste como duplo programa.
Vale mais a pena assistir primeiro a ‘Emily’ ou ‘O Morro dos Ventos Uivantes’?
Depende do que você quer. Começar por ‘Emily’ pode fazer a adaptação parecer uma “materialização” da imaginação da autora; começar por ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ e ir para ‘Emily’ tende a dar contexto emocional para o porquê daquela história ser tão extrema.

