Vinte anos depois, ‘O Grande Truque’ se confirma como o roteiro mais disciplinado de Christopher Nolan. Analisamos como a obra equilibra obsessão e o plot twist mais honesto do diretor, provando que sua genialidade brilha mais sob o controle da adaptação literária.
Todo truque de mágica tem três atos. O primeiro é ‘a promessa’: o mágico mostra algo comum. O segundo é ‘a virada’: ele transforma o comum em extraordinário. Mas você ainda não está aplaudindo, porque fazer algo desaparecer não é suficiente; você precisa trazê-lo de volta. ‘O Grande Truque’ de Christopher Nolan entendeu essa estrutura melhor do que qualquer outro filme de sua filmografia, transformando a própria montagem cinematográfica em um ato de prestidigitação.
Vinte anos após seu lançamento, espremido entre o nascimento de ‘Batman Begins’ e o impacto cultural de ‘O Cavaleiro das Trevas’, este longa de 2006 permanece como a obra mais disciplinada de Nolan. Enquanto o grande público debate a grandiosidade de ‘A Origem’ ou a densidade de ‘Oppenheimer’, ‘O Grande Truque’ opera em uma frequência de precisão cirúrgica. Com uma nota de 77% no Rotten Tomatoes — abaixo de ‘Tenet’, curiosamente —, o filme é frequentemente relegado ao posto de ‘obra menor’, um erro de julgamento que ignora o roteiro mais equilibrado da carreira do diretor.
A contenção como o maior trunfo de Nolan
Nolan construiu sua marca em espetáculos de escala global: cidades dobrando em Paris, buracos negros renderizados por astrofísicos e explosões atômicas reais em IMAX. Nesse contexto, um thriller vitoriano sobre dois mágicos rivais parece modesto. No entanto, é justamente nessa escala reduzida que o diretor brilha. Sem a pressão de sustentar um orçamento de 200 milhões de dólares, ele se permitiu focar no que realmente importa: a mecânica do engano.
Diferente de ‘Tenet’ ou ‘Interestelar’, onde a exposição narrativa muitas vezes interrompe o ritmo para explicar conceitos de física quântica, em ‘O Grande Truque’ a exposição é a trama. Quando Cutter (Michael Caine) explica o funcionamento de um truque, ele não está apenas ensinando o público; ele está estabelecendo as regras de um jogo que Nolan jogará conosco até o último frame. Cada cena serve a um propósito duplo, eliminando qualquer gordura narrativa.
A estrutura não-linear que espelha o truque
Nolan é obcecado pelo tempo, mas em ‘O Grande Truque’, a fragmentação temporal não é um exercício de estilo — é uma necessidade temática. Assistimos a dois homens lendo os diários um do outro, cientes de que o rival faria exatamente isso. Cada entrada de diário é uma performance; cada ‘confissão’ é um misdirection (desvio de atenção).
A fotografia de Wally Pfister, usando luz natural e tons de âmbar para recriar a era da iluminação a gás, reforça essa sensação de segredo. A câmera está sempre ligeiramente próxima demais, escondendo o que está nas bordas do quadro — exatamente como um mágico faz no palco. É a única vez em que a complexidade estrutural de Nolan não parece forçada, mas sim uma extensão orgânica da obsessão dos protagonistas.
Por que o twist final ainda é o mais honesto da carreira
Muitos plot twists dependem de informações escondidas do espectador até o último segundo. O de ‘O Grande Truque’ é diferente: ele está escondido à vista de todos desde a primeira cena. Quando revemos o filme, percebemos que Christian Bale entrega uma performance de uma sutileza assustadora. As variações em seu temperamento, a forma como ele olha para a esposa Sarah (Rebecca Hall) em diferentes dias e até sua reação imediata ao ver o truque de Chung Ling Soo são pistas claras.
O filme nos diz a verdade o tempo todo, mas, como Cutter afirma na abertura: ‘Você não quer saber a verdade. Você quer ser enganado’. O sacrifício de Alfred Borden e a descida de Robert Angier (Hugh Jackman) à loucura tecnológica de Nikola Tesla (interpretado com uma aura mística por David Bowie) criam um clímax que não é apenas chocante, mas emocionalmente devastador. Não é um ‘gotcha’ barato; é uma tragédia grega disfarçada de entretenimento de época.
O valor da adaptação e o futuro com ‘The Odyssey’
Existe um padrão na filmografia de Nolan: ele é um diretor melhor quando trabalha sob as restrições de uma obra existente. Seus filmes originais tendem a se perder em conceitos abstratos, enquanto suas adaptações — como a trilogia Batman, ‘Oppenheimer’ e este roteiro baseado no livro de Christopher Priest — possuem uma âncora emocional mais sólida.
Ao adaptar Priest, os irmãos Nolan cortaram a moldura narrativa moderna do livro e focaram inteiramente na rivalidade. Essa capacidade de destilar a essência de uma história complexa é o que torna ‘O Grande Truque’ tão perene. Para os fãs que aguardam seu próximo projeto, ‘The Odyssey’, isso é um sinal encorajador: Nolan operando dentro das margens de um mito clássico tem o potencial de repetir a disciplina que tornou este filme de 2006 uma obra-prima de engenharia narrativa.
Vinte anos depois: o veredito
‘O Grande Truque’ é Nolan em seu estado mais puro e menos indulgente. É um filme sobre homens que destroem suas vidas por um aplauso, feito por um cineasta que entende que o cinema é, em última análise, a maior das ilusões. Se você não o visita há anos, deve fazê-lo agora. Você descobrirá que o maior truque de Nolan não foi o final, mas sim ter feito um filme tão perfeito que ele continua se revelando novo, mesmo quando você já conhece todos os segredos do mágico.
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Perguntas Frequentes sobre ‘O Grande Truque’
‘O Grande Truque’ é baseado em uma história real?
Não totalmente. O filme é baseado no romance de ficção de Christopher Priest. No entanto, ele utiliza figuras históricas reais, como Nikola Tesla e Thomas Edison, e a rivalidade entre eles na ‘Guerra das Correntes’ como pano de fundo para a trama.
Onde posso assistir ‘O Grande Truque’ de Christopher Nolan?
Atualmente, o filme está disponível para streaming na Max (antiga HBO Max) e disponível para aluguel em plataformas como Prime Video e Apple TV+.
Qual é a duração do filme?
‘O Grande Truque’ tem 2 horas e 10 minutos de duração. É considerado um dos filmes mais ágeis de Nolan em termos de ritmo.
O filme tem cenas pós-créditos?
Não, ‘O Grande Truque’ não possui cenas pós-créditos. A história é encerrada completamente antes do início dos créditos finais.
Por que David Bowie está no filme?
Christopher Nolan afirmou que David Bowie era a única pessoa no mundo com o carisma e a aura ‘alienígena’ necessária para interpretar Nikola Tesla. Nolan chegou a viajar para convencer o músico a aceitar o papel.

