O fim de ‘O Dono de Kingstown’ e o futuro do império de Taylor Sheridan

Analisamos como o encerramento de ‘O Dono de Kingstown’ e a migração de Taylor Sheridan para a TV aberta com ‘Y: Marshals’ sinalizam uma mudança estratégica no império do criador. Por que o fim da série de Jeremy Renner é uma decisão de mercado, não de audiência.

Quando a Paramount confirmou que ‘O Dono de Kingstown’ (Mayor of Kingstown) encerrará sua jornada na quinta temporada — com uma ordem reduzida de apenas oito episódios —, o ceticismo tomou conta de Hollywood. Para os analistas apressados, o veredito era claro: o ‘Sheridan-verse’ estaria finalmente colapsando. Com ‘Yellowstone’ e ‘1923’ no retrovisor, o encerramento da saga de Mike McLusky parecia o último prego no caixão de uma era de ouro.

No entanto, sob a ótica de quem estuda a fundo a filmografia de Taylor Sheridan — desde a crueza de ‘Sicario’ até a melancolia de ‘Terra Selvagem’ —, o que vemos não é um declínio, mas uma metamorfose tática. O criador não está perdendo o fôlego; ele está trocando de pele para sobreviver a um mercado de streaming que já não aceita orçamentos ilimitados sem retorno garantido.

A maturidade técnica de ‘O Dono de Kingstown’

A maturidade técnica de 'O Dono de Kingstown'

É uma ironia amarga que a série termine justamente quando atingiu seu ápice estético e narrativo. Se a primeira temporada foi criticada por um niilismo quase gratuito, as temporadas subsequentes refinaram essa violência. O uso da fotografia dessaturada, com tons de cinza e azul frio, transformou a cidade de Kingstown em um personagem opressor, um labirinto de concreto onde Jeremy Renner entrega sua atuação mais física e contida.

Renner, como Mike McLusky, abandonou o carisma heróico para adotar uma postura de exaustão absoluta. Cada diálogo nas escadarias da prefeitura ou nos pátios das prisões carrega o peso de um homem que sabe que está apenas adiando o inevitável. Ao contrário de ‘Yellowstone’, que flerta com o melodrama operístico, ‘Kingstown’ se manteve fiel a um realismo sujo, focando na engrenagem burocrática da dor.

O fim do ‘cheque em branco’ da Paramount

O encerramento do acordo de exclusividade de Sheridan com a Paramount é o verdadeiro divisor de águas. Durante anos, ele operou com uma liberdade raríssima, produzindo múltiplas séries simultaneamente sem a supervisão tradicional dos estúdios. O fim de ‘O Dono de Kingstown’ sinaliza que a era dos ‘experimentos caros’ acabou.

A decisão de encerrar a série com oito episódios sugere uma necessidade de síntese. Sheridan terá que abandonar as subtramas erráticas que marcaram o meio da série para focar no essencial: a implosão do sistema que os McLusky tentaram, inutilmente, mediar. Para o espectador, isso pode resultar na temporada mais tensa e focada de toda a franquia.

‘Y: Marshals’ e a migração para a TV aberta

'Y: Marshals' e a migração para a TV aberta

O movimento mais intrigante de Sheridan não é o que ele está encerrando, mas para onde está indo. Com a estreia de ‘Y: Marshals’ na CBS em março de 2026, o autor está testando sua marca no formato de televisão aberta. É um risco calculado. Ao levar Kayce Dutton (Luke Grimes) para a rede nacional, Sheridan tenta provar que seu estilo — geralmente associado ao prestígio do streaming — consegue capturar a audiência massiva dos procedurais clássicos.

Essa transição exige uma mudança na linguagem cinematográfica. Menos contemplação, mais ritmo. Menos silêncios prolongados, mais ganchos narrativos. Se ‘Y: Marshals’ for bem-sucedido, o império de Sheridan deixará de ser uma bolha de streaming para se tornar a nova fundação da TV linear americana.

O que esperar do último ato de Mike McLusky

Para o encerramento de ‘O Dono de Kingstown’, não espere redenção. O universo de Sheridan raramente oferece saídas limpas. O arco de Mike McLusky é sobre a impossibilidade de ser um ‘homem bom’ dentro de um sistema inerentemente mau. A expectativa é que a série termine de forma cíclica, mostrando que, independentemente de quem ocupe a cadeira de ‘prefeito’, a engrenagem das prisões continuará moendo vidas.

A saída de cena de ‘Kingstown’ não é um fracasso, mas o fechamento de um ciclo de experimentação sombria. Taylor Sheridan continua sendo o arquiteto mais influente da TV atual, mas o fim desta série marca o momento em que ele deixa de ser um rebelde com orçamento infinito para se tornar um estrategista de conglomerados de mídia.

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Perguntas Frequentes sobre Taylor Sheridan e ‘O Dono de Kingstown’

‘O Dono de Kingstown’ foi cancelada ou finalizada?

A série está sendo finalizada de forma planejada. Taylor Sheridan e a Paramount optaram por encerrar a história de Mike McLusky na quinta temporada para dar um desfecho definitivo à trama.

Quantos episódios terá a última temporada de ‘O Dono de Kingstown’?

A quinta e última temporada contará com 8 episódios, uma redução em relação aos 10 episódios das temporadas anteriores, focando em uma narrativa mais ágil e conclusiva.

O que é a nova série ‘Y: Marshals’?

‘Y: Marshals’ é um spinoff de ‘Yellowstone’ focado em Kayce Dutton (Luke Grimes). A série marca a estreia de Taylor Sheridan na TV aberta (CBS), com previsão de lançamento para março de 2026.

Onde assistir às séries de Taylor Sheridan no Brasil?

A maioria das produções, incluindo ‘O Dono de Kingstown’, ‘Yellowstone’, ‘1923’ e ‘Tulsa King’, está disponível no catálogo do Paramount+.

Jeremy Renner continuará trabalhando com Taylor Sheridan?

Embora ‘Kingstown’ esteja terminando, ambos expressaram interesse em futuras colaborações. Renner foi o protagonista de ‘Terra Selvagem’, filme escrito e dirigido por Sheridan em 2017.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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