Analisamos como ‘O Eternauta’ na Netflix moderniza o clássico de Oesterheld sem perder o peso político. Com atuação visceral de Ricardo Darín e uma direção que privilegia o silêncio e o realismo, a série redefine a ficção científica latino-americana para o público global.
Existe um desafio hercúleo em adaptar obras que se tornaram a fundação da identidade cultural de um país. ‘O Eternauta’ Netflix não é apenas a transposição de uma graphic novel; é o resgate de um mito argentino que sobreviveu à censura e ao tempo. A série de Bruno Stagnaro consegue o que parecia improvável: atualizar o cenário político de Héctor Germán Oesterheld para 2025 sem diluir o terror existencial da obra original.
A neve mortal: do papel à textura digital
A premissa é um pesadelo minimalista: uma nevasca fluorescente cai sobre Buenos Aires, matando instantaneamente qualquer ser vivo que toque os flocos. O que torna a versão da Netflix superior a outras tentativas de ficção científica regional é o uso do silêncio. Na sequência inicial, onde a cidade é subitamente silenciada, a direção de som abdica de trilhas grandiosas para focar no estalar da neve e no som abafado de carros colidindo — uma escolha técnica que amplifica a claustrofobia urbana.
Diferente da HQ de 1957, que usava a neve como metáfora para o avanço do imperialismo e, mais tarde, da ditadura, a série ancora o horror no hiperrealismo. A Buenos Aires de Stagnaro é tangível, suja e reconhecível. Quando vemos o Estádio Monumental de Núñez transformado em um campo de refugiados improvisado, o impacto não é apenas visual, é emocional. É a destruição de um cotidiano que o espectador latino-americano conhece profundamente.
Ricardo Darín: a exaustão como heroísmo
A escolha de Ricardo Darín para viver Juan Salvo poderia ser vista como óbvia, mas sua performance foge do clichê do herói de ação. Darín empresta a Salvo uma ‘gravitas’ de homem comum exausto. Ele não é um soldado; é um pai de família operando em modo de sobrevivência. A força do ator está nas microexpressões de descrença diante do absurdo, especialmente nas cenas de flashbacks que sugerem a natureza não-linear do ‘Eternauta’.
Essa abordagem reforça o conceito de ‘herói coletivo’ que Oesterheld tanto defendia. Salvo não é um salvador solitário; sua sobrevivência depende inteiramente da coesão do pequeno grupo que se isola em sua casa. A série dedica tempo para construir essa dinâmica de grupo, evitando que os personagens secundários sejam meras buchas de canhão para os invasores.
O que mudou na transição para o streaming?
A maior mudança não é tecnológica, mas de ritmo. Enquanto a HQ original era episódica e focada em peripécias de resistência, a série adota uma estrutura de thriller psicológico. Há uma contenção deliberada em mostrar os ‘Eles’ (os invasores). A ameaça é sentida através de seus intermediários — os Cascarudos e os Homens-Robô — cujos designs foram atualizados para evitar o aspecto ‘filme B’ dos anos 50, ganhando uma estética biomecânica perturbadora.
Esta primeira temporada, composta por seis episódios, foca na sobrevivência imediata e na perda da inocência. A mitologia complexa de viagens temporais e dimensões paralelas, que dá nome à obra, é introduzida como um sussurro, uma promessa para o futuro que evita sobrecarregar o espectador casual com excesso de exposição no piloto.
Veredito: um novo padrão para a ficção científica latina
O design de produção merece destaque por não tentar emular Hollywood. A ‘neve mortal’ não parece um efeito de CGI barato; ela tem densidade e uma luminescência doentia que contrasta com a fotografia dessaturada da cidade morta. É uma obra que entende que o horror mais eficaz nasce da subversão do familiar.
‘O Eternauta’ prova que a Netflix encontrou o tom certo para suas produções internacionais de alto orçamento: respeitar a raiz local enquanto entrega uma narrativa universal. É uma série sobre resistência que, ironicamente, resistiu às armadilhas das adaptações genéricas.
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Perguntas Frequentes sobre ‘O Eternauta’ (Netflix)
A série ‘O Eternauta’ é fiel aos quadrinhos?
Sim, em essência. A série mantém a premissa da neve mortal e a luta pela sobrevivência em Buenos Aires, mas atualiza o cenário dos anos 50 para os dias atuais, focando mais no realismo e no suspense psicológico.
Onde assistir à série ‘O Eternauta’?
A série é uma produção original da Netflix e está disponível exclusivamente na plataforma de streaming.
Quem é o protagonista de ‘O Eternauta’ na Netflix?
O protagonista Juan Salvo é interpretado pelo renomado ator argentino Ricardo Darín, conhecido por filmes como ‘O Segredo dos Seus Olhos’ e ‘Argentina, 1985’.
‘O Eternauta’ terá segunda temporada?
Sim. A Netflix confirmou a renovação da série antes mesmo da estreia da primeira temporada, visando adaptar o vasto material da graphic novel original.
Qual é a classificação indicativa da série?
A série possui classificação indicativa para maiores de 16 anos, devido a cenas de violência, tensão psicológica e temas maduros de sobrevivência.

