‘O Esquema Fenício’: o filme de Wes Anderson com Tom Hanks que ganhou vida nova no streaming

Analisamos como ‘O Esquema Fenício’ usa a simetria de Wes Anderson para criar um suspense noir único. Entenda por que a atuação de Benicio del Toro e a riqueza de detalhes técnicos transformaram o filme em um fenômeno de audiência no streaming após uma estreia tímida nos cinemas.

Entrar em um filme de Wes Anderson é como abrir uma caixa de joias mecânica: tudo é milimetricamente posicionado, ligeiramente artificial e movido por uma lógica interna inabalável. ‘O Esquema Fenício’, que acaba de ganhar uma segunda vida explosiva no streaming, não foge à regra, mas adiciona um tempero raro à receita do diretor: o suspense de crime noir. Se nos cinemas o filme pareceu contido demais, no sofá ele revela sua verdadeira natureza de diorama obsessivo.

Após uma passagem discreta pelas salas em 2025, onde arrecadou 40 milhões de dólares — um valor tímido para um elenco que ostenta Tom Hanks e Scarlett Johansson —, o longa encontrou seu público na HBO Max. Atualmente no Top 5 global da plataforma, o fenômeno prova que a densidade visual de Anderson é, talvez, melhor apreciada quando temos o botão de ‘pause’ à disposição.

A transição do pastel para o noir: a estética do perigo simétrico

A transição do pastel para o noir: a estética do perigo simétrico

Historicamente, Anderson usa sua simetria para evocar nostalgia ou melancolia familiar. Em ‘O Esquema Fenício’, ele a utiliza para criar desconforto. Há uma sequência específica — o encontro noturno em um cais de madeira perfeitamente alinhado — onde a iluminação expressionista encontra a paleta de cores turquesa e ocre típica do diretor. É o ‘noir’ passado pelo filtro de uma confeitaria europeia dos anos 50.

Diferente de ‘O Grande Hotel Budapeste’, onde o ritmo era de farsa acelerada, aqui a montagem de Barney Pilling é deliberadamente mais lenta. Anderson filma a violência não com cortes rápidos, mas com planos abertos e estáticos. Ver um assassinato ocorrer no fundo de um quadro perfeitamente composto, enquanto o primeiro plano foca em um arranjo de flores, é o tipo de dissonância cognitiva que torna este filme mais perturbador do que seus trabalhos anteriores.

Benicio del Toro e o peso da gravidade andersoniana

O centro gravitacional da obra é Zsa-zsa Korda, interpretado por um Benicio del Toro que parece ter nascido para o enquadramento de Anderson. Del Toro traz uma fisicalidade pesada, quase brutal, que contrasta com a leveza do cenário. Como um empresário bilionário que tenta proteger sua herdeira (Mia Threapleton) de uma conspiração familiar, ele entrega diálogos rápidos com uma voz rouca que ancora o filme na realidade do suspense.

Já Tom Hanks, em sua segunda colaboração com o diretor após ‘Asteroid City’, entrega um Leland que é o oposto de seus heróis americanos habituais. Ele é um antagonista excêntrico, cujas motivações são tão obscuras quanto suas táticas em um jogo de basquete de apostas altíssimas. É um uso inteligente do ‘star power’ de Hanks: Anderson o utiliza não pelo seu carisma, mas pela sua capacidade de parecer perfeitamente deslocado.

Por que o streaming salvou ‘O Esquema Fenício’?

Por que o streaming salvou 'O Esquema Fenício'?

A recepção morna nos cinemas (77% no Rotten Tomatoes) pode ser atribuída à expectativa. O público de 2025 esperava um thriller de espionagem convencional, mas recebeu um estudo de personagem altamente estilizado. No streaming, essa pressão desaparece. O espectador que dá o play na HBO Max já sabe que está entrando em um ‘filme de Wes Anderson’.

Além disso, a riqueza de detalhes da cenografia de Adam Stockhausen exige múltiplas visualizações. Em uma tela de cinema, você absorve a escala; na TV, você percebe os títulos dos livros na estante de Korda ou os rótulos de vinhos fictícios que dão pistas sobre a trama. É um filme feito para o ‘scrubbing’ da barra de reprodução.

Veredito: evolução ou repetição?

‘O Esquema Fenício’ não é o melhor trabalho de Anderson — esse posto ainda pertence a ‘Moonrise Kingdom’ ou ‘Budapeste’ para a maioria —, mas é o seu mais experimental em termos de tom. Ele prova que sua estética não é apenas um truque visual, mas uma linguagem capaz de se adaptar a gêneros mais sombrios.

Para quem busca ação frenética, o filme será um exercício de frustração. Para quem aprecia a técnica cinematográfica pura e quer ver grandes atores operando fora de suas zonas de conforto, é uma obra essencial que finalmente recebeu o reconhecimento que merecia, ainda que tardiamente.

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Perguntas Frequentes sobre ‘O Esquema Fenício’

Onde assistir ‘O Esquema Fenício’ de Wes Anderson?

O filme está disponível no catálogo da HBO Max (Max) em grande parte do mundo, incluindo o Brasil. Nos Estados Unidos, a distribuição digital ficou a cargo do Prime Video.

Qual a duração de ‘O Esquema Fenício’?

O longa tem aproximadamente 1 hora e 45 minutos de duração, mantendo o padrão de narrativas concisas e ágeis de Wes Anderson.

Tom Hanks é o protagonista do filme?

Não. Embora Tom Hanks tenha um papel de destaque como o empresário Leland, o verdadeiro protagonista (ou centro da narrativa) é Benicio del Toro, que interpreta o bilionário Zsa-zsa Korda.

‘O Esquema Fenício’ é baseado em algum livro?

Não, o roteiro é uma história original escrita por Wes Anderson e Roman Coppola, focada em uma trama de herança e conspiração empresarial com toques de espionagem.

O filme tem cenas pós-créditos?

Não há cenas pós-créditos em ‘O Esquema Fenício’. A história se encerra completamente antes do início do rolo de créditos final.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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