Em World’s Finest #50, Mark Waid resgata o Drang Kryptoniano, um monstro de 1963, e o transforma de recurso de enredo em elemento de lore. Analisamos como essa ‘arqueologia de quadrinhos’ enriquece o universo DC e por que Dan Mora é o artista ideal para visualizar o bizarro.
Mark Waid e Dan Mora estão conduzindo uma espécie de ‘arqueologia narrativa’ em Batman/Superman: World’s Finest. Na edição 50, eles não apenas entregam uma aventura, mas resgatam um monstro que dormia nos arquivos da DC há mais de seis décadas. O Drang Kryptoniano, uma criatura que muitos nem sabiam que existia, voltou nas páginas de World’s Finest. Mas por que trazer de volta um monstro esquecido de 1963? A resposta está na forma como roteiristas modernos tratam o passado: não como algo morto, mas como material vivo a ser recontextualizado.
Como um monstro de 1963 voltou à vida
A edição #50 de Batman/Superman: World’s Finest abre com uma cena que qualquer leitor familiarizado com Jimmy Olsen reconhece: o fotógrafo do Daily Planet aperta um botão que não deveria. Dentro da Fortaleza da Solidão, ele reativa um mecanismo Kryptoniano. O resultado? Um Durlan — aquela raça alienígena capaz de mudar de forma — assume a aparência de um Drang Kryptoniano, uma besta de chifres e escamas que apareceu originalmente em Action Comics #303, de 1963.
Aquela história de Era de Prata tinha uma premisso típica da época: Superman, infectado por Kryptonita Vermelha, se transforma em um monstro irracional. Era um recurso de enredo comum — a Kryptonita Vermelha gerava transformações bizarras e temporárias, permitindo que os roteiristas criassem situações impossíveis de resolver com a força bruta habitual do personagem. O Drang era, essencialmente, Superman desfigurado, uma ameaça física que precisava ser contida, não derrotada.
Em 2026, Waid dá à criatura uma existência própria. Não é mais Superman transformado — é uma entidade distinta, um monstro que existe no lore Kryptoniano. Essa mudança sutil transforma o que era um recurso de enredo em um elemento de mundo. É isso que distingue ‘arqueologia de quadrinhos’ de mera nostalgia: não é trazer o passado de volta, é expandi-lo.
Por que Mark Waid escolheu exatamente este monstro
Mark Waid não é um roteirista qualquer. O autor de Kingdom Come e Irredeemable construiu uma carreira entendendo a história dos quadrinhos de super-heróis como poucos. Sua série History of the DC Universe, nos anos 1980, já demonstrava essa obsessão em catalogar e organizar o cânone. Quando ele escolhe o Drang, não é aleatório.
O monstro representa algo específico: a Era de Prata em seu momento mais imaginativo e menos preocupado com lógica. Naquele período, editores como Mort Weisinger aprovavam histórias onde Superman ganhava poderes absurdos, perdia memórias, ou se transformava em criaturas. Era uma fase de experimentação narrativa que a DC gradualmente abandonou quando buscou seriedade nos anos 1980.
Waid, ao trazer o Drang de volta, está dizendo que essa história não precisa ser apagada. Pode ser reaproveitada. A criatura que era apenas uma transformação temporária de Superman agora habita a Fortaleza da Solidão como um artefato Kryptoniano real. É uma reescrita que respeita o material original enquanto o atualiza.
A arte de Dan Mora: quando o bizarro encontra o majestoso
Se Waid fornece a justificativa narrativa, Dan Mora entrega a execução visual. O artista, que já provou seu valor em Once & Future e na própria World’s Finest, desenha o Drang com uma textura que o distingue dos monstros genéricos de quadrinhos contemporâneos. A criatura tem peso, dimensão — os chifres parecem orgânicos, as escamas têm variação de cor.
Mais importante, Mora entende como desenhar combate envolvendo Superman e Batman. A dupla não precisa ser simétrica: Superman absorve impactos que destruiriam qualquer outro herói, enquanto Batman usa o ambiente. Quando o Drang ataca, a diferença de abordagem fica clara. Superman enfrenta; Batman contorna. É uma coreografia que exige conhecimento profundo dos personagens.
O que isso significa para o futuro dos quadrinhos DC
O resgate do Drang Kryptoniano aponta para uma estratégia maior. A DC, sob a liderança editorial atual, parece disposta a abraçar sua história completa — incluindo as partes que críticos considerariam ‘burrice’ da Era de Prata. Isso contrasta com a abordagem Marvel, que tende a reinventar ou ignorar elementos obscuros.
Para o leitor, isso significa um universo mais denso. Quando Jimmy Olsen aciona um mecanismo na Fortaleza, a expectativa não é apenas ‘o que vai acontecer agora?’, mas também ‘que pedaço da história vai emergir?’. A ‘arqueologia de quadrinhos’ transforma cada edição em uma potencial escavação.
Não é para todos. Leitores que preferem narrativas fechadas e autocontidas podem achar cansativo. Mas para quem acumula décadas de leitura, cada referência resgatada funciona como recompensa por ter prestado atenção.
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Perguntas Frequentes sobre o Drang Kryptoniano
O que é o Drang Kryptoniano?
O Drang Kryptoniano é uma criatura que apareceu originalmente em Action Comics #303 (1963), quando Superman foi transformado em um monstro por Kryptonita Vermelha. Em 2026, Mark Waid reimaginou a criatura como uma besta Kryptoniana real, separando-a de Superman.
Onde ler Batman/Superman: World’s Finest #50?
A edição está disponível em formato impresso em lojas especializadas e digitalmente na plataforma DC Universe Infinite. No Brasil, a Panini Comics publica a série mensalmente.
Quem são os criadores de Batman/Superman: World’s Finest?
A série é escrita por Mark Waid (Kingdom Come, Daredevil) e desenhada por Dan Mora (Once & Future, Go Go Power Rangers). A dupla trabalha junta desde o lançamento da série em 2022.
O que é ‘arqueologia de quadrinhos’?
É o termo usado para descrever quando roteiristas modernos resgatam elementos obscuros ou esquecidos da história dos quadrinhos — especialmente da Era de Ouro (1938-1956) e Era de Prata (1956-1970) — e os recontextualizam em histórias atuais, expandindo o lore em vez de apenas fazer nostalgia.
Preciso ler edições anteriores para entender World’s Finest #50?
Não. A série foi concebida com histórias acessíveis para novos leitores. Cada arco funciona de forma relativamente independente, embora haja continuidade de personagens de suporte como Dick Grayson e Barbara Gordon.

