‘O Dono de Kingstown’: o thriller de Taylor Sheridan que promete abalar a Netflix

Analisamos como ‘O Dono de Kingstown’ se consagra como o thriller mais visceral de Taylor Sheridan. Com a performance definitiva de Jeremy Renner e uma abordagem técnica crua sobre o sistema prisional, a série deixa de ser um ‘tesouro escondido’ para se tornar um marco do gênero crime na Netflix.

Taylor Sheridan construiu um império televisivo sobre o solo árido de Montana, onde cavalos e chapéus de cowboy ditam o ritmo. ‘Yellowstone’ e seus derivados revitalizaram o Western, provando que o gênero ainda pulsa. Contudo, enquanto o público observava a família Dutton, Sheridan operava em uma frequência mais sombria e urbana — uma que finalmente encontra seu palco definitivo com a chegada de ‘O Dono de Kingstown’ à Netflix.

A série, muitas vezes eclipsada pelo brilho de suas ‘irmãs’ rurais, é um crime thriller que ignora sutilezas. Protagonizada por um Jeremy Renner em estado de graça, a produção não apenas preenche o catálogo de streaming; ela desafia a percepção do espectador sobre moralidade sistêmica em um cenário onde a esperança é o recurso mais escasso.

A ‘Indústria do Encarceramento’ como motor narrativo

A 'Indústria do Encarceramento' como motor narrativo

Sheridan, em parceria com o co-criador Hugh Dillon — que cresceu em Kingston, Ontario, cercado por prisões reais —, evita a romantização da violência. Em ‘Yellowstone’, a brutalidade é mítica, quase operística. Em ‘O Dono de Kingstown’, ela é burocrática e econômica. A cidade fictícia de Michigan vive de uma única indústria: o sistema prisional. É uma economia baseada no encarceramento, onde cada muro de concreto gera lucro e cada conflito interno movimenta a engrenagem externa.

Mike McLusky (Renner) é o ‘prefeito’ extraoficial desse ecossistema. Ele não possui mandato, mas detém o poder. Como intermediário entre detentos, gangues e a polícia, Mike é o lubrificante que impede a máquina de explodir. A série recusa a dicotomia rasa entre heróis e vilões; Mike é um homem fragmentado, tentando aplicar ética em um lugar projetado para destruí-la.

Jeremy Renner e o peso do silêncio

Esqueça o carisma leve do Gavião Arqueiro. Em ‘O Dono de Kingstown’, Renner entrega uma performance física e visceral. Mike McLusky é um personagem definido pelo cansaço acumulado. Há uma cena técnica notável na segunda temporada: um longo plano-sequência onde Mike caminha pelo pátio da prisão após uma rebelião. A câmera de Ben Richardson (diretor de fotografia) foca na linguagem corporal de Renner — os ombros caídos, a mandíbula travada, o olhar de quem já não se surpreende com o horror.

A intensidade de Renner nas temporadas recentes ganha um subtexto involuntário após seu acidente na vida real. A vulnerabilidade física que ele traz para o papel agora parece menos uma escolha de atuação e mais uma extensão da sua própria resiliência, elevando Mike a um patamar de realismo raro em thrillers de crime.

A evolução técnica e a redenção crítica

A evolução técnica e a redenção crítica

Embora tenha estreado sob críticas mornas em 2021 — acusada de ser niilista em excesso —, a série amadureceu. A quarta temporada atingiu a marca de 100% de aprovação crítica, um reflexo de como a produção refinou seu ritmo. A claustrofobia urbana é acentuada por uma paleta de cores desaturada, dominada por tons de cinza e azul frio, e uma trilha sonora industrial assinada por Andrew Hall e Brooke Blair que mantém a tensão em um nível quase insuportável.

Diferente do escapismo visual de ‘Yellowstone’, Kingstown é deliberadamente feia. Não há paisagens grandiosas para aliviar o peso do roteiro. É uma televisão de processo, que recompensa o espectador atento às micro-negociações de poder e às consequências de longo prazo de cada escolha moral.

O valor estratégico do catálogo completo na Netflix

A migração para a Netflix em 2026 representa o reconhecimento de que ‘O Dono de Kingstown’ é uma obra para maratona. Os arcos narrativos são densos e interconectados, exigindo uma imersão que o lançamento semanal muitas vezes diluía. Para novos espectadores, a experiência de consumir as cinco temporadas em sequência revela a verdadeira escala do projeto de Sheridan: um estudo sociológico disfarçado de drama policial.

Sheridan prova aqui que sua voz autoral não depende de cavalos ou pradarias. Sua especialidade é o retrato de comunidades à margem, presas em estruturas maiores que elas mesmas. ‘O Dono de Kingstown’ não é uma série confortável, mas é, sem dúvida, um dos retratos mais honestos e brutais da falência institucional já produzidos para a televisão moderna.

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Perguntas Frequentes sobre ‘O Dono de Kingstown’

Onde assistir ‘O Dono de Kingstown’ (Mayor of Kingstown)?

A série está disponível originalmente no Paramount+, mas em 2026 as temporadas completas migraram para o catálogo da Netflix como parte de um acordo de licenciamento.

A série é baseada em uma história real?

Embora a cidade de Kingstown seja fictícia, a série é inspirada nas experiências reais do co-criador Hugh Dillon, que cresceu em Kingston, Ontario, uma cidade conhecida por abrigar diversas prisões de segurança máxima.

Quantas temporadas tem ‘O Dono de Kingstown’?

A série conta com 5 temporadas completas, encerrando o arco narrativo de Mike McLusky de forma conclusiva.

Preciso assistir ‘Yellowstone’ para entender esta série?

Não. Embora ambas sejam criadas por Taylor Sheridan, ‘O Dono de Kingstown’ é uma história totalmente independente, com tom, cenário e personagens distintos do universo de ‘Yellowstone’.

Jeremy Renner continua na série após o acidente?

Sim. Jeremy Renner retornou para as filmagens das temporadas finais após sua recuperação, trazendo uma carga emocional e física ainda mais intensa para o protagonista.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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