Com 100% no Rotten Tomatoes, a 4ª temporada de ‘O Dono de Kingstown’ é o auge da carreira de Taylor Sheridan — e também sua obra menos vista. Analisamos por que esse thriller carcerário brutal merece sua atenção e como ele reinventa tudo que o criador de ‘Yellowstone’ faz de melhor.
Taylor Sheridan construiu um império. Entre ‘Yellowstone’, ‘1923’, ‘Tulsa King’ e ‘Landman’, ele se tornou sinônimo de drama americano de qualidade — aquele tipo de autor que os estúdios amam e os críticos respeitam. Mas existe um paradoxo silencioso na filmografia dele: sua melhor obra é também sua mais ignorada. O Dono de Kingstown temporada 4 chegou com 100% de aprovação no Rotten Tomatoes, algo raríssimo para qualquer série, quanto mais para um thriller carcerário brutal. E praticamente ninguém notou.
Não é exagero dizer que essa temporada representa o auge do que Sheridan sempre tentou fazer: um estudo de personagem imersivo, moralmente complexo, que se recusa a dar respostas fáceis. Se você tem passado anos assistindo as séries dele esperando aquele momento em que tudo se encaixa perfeitamente, essa é a hora.
Como a 4ª temporada reinventou uma série que já era boa
O final da 3ª temporada deixou ‘O Dono de Kingstown’ em um lugar precário. Sem entrar em spoilers, o show basicamente desmontou as certezas que construíra até ali — e o risco pagou. A 4ª temporada não é uma continuação; é uma reconfiguração completa.
O que muda? O foco. Enquanto as temporadas anteriores equilibravam múltiplas tramas, essa aqui aperta o cerne: Mike McLusky (Jeremy Renner) e a cidade-prisão que ele tenta manter à tona. Cada decisão parece pesar. Cada conversa carrega a possibilidade de violência. Sheridan sempre soube construir tensão, mas aqui ele faz isso com uma economia narrativa que lembra os melhores momentos de ‘Sicario’ — aquele filme que, não coincidentemente, ele escreveu.
O resultado é uma temporada que parece mais curta do que é. Não por falta de conteúdo, mas por pura imersão. Você entra em um episódio e, quando percebe, já passaram 50 minutos e os créditos estão rolando. Isso raramente acontece em dramas de streaming hoje em dia, onde alongar se tornou norma.
Jeremy Renner finalmente encontrou seu papel definitivo
Vamos ser honestos: Renner é um ator subestimado. Depois de anos como Gavião Arqueiro no MCU, muita gente esqueceu que ele tem range. ‘O Dono de Kingstown’ é o lembrete brutal de que esse cara carrega peso.
Mike McLusky não é um herói. É um “fixer” — alguém que resolve problemas entre o sistema prisional e o mundo exterior, navegando águas moralmente turvas com um pragmatismo assustador. Renner interpreta isso com um cansaço existencial que fala mais que qualquer monólogo. A forma como ele segura uma sala, calculando saídas e ameaças potenciais antes mesmo de abrir a boca, é marca de um ator que entende que cinema é feito de detalhes.
Em uma cena específica da 4ª temporada, Renner precisa transmitir luto, raiva e determinação simultaneamente, em silêncio, por quase dois minutos de plano-sequência. A câmera permanece fixa em seu rosto, sem cortes, enquanto micro-expressões passam por seus olhos — um piscar mais lento aqui, um apertar de mandíbula ali. É o tipo de momento que define carreiras, e que só funciona porque a direção confia no ator para carregar a cena inteira.
Por que Kingstown é a verdadeira protagonista da série
Co-criada por Hugh Dillon, que cresceu em uma cidade-prisão real em Ontario, a série tem uma autenticidade que nenhum roteiro bem pesquisado consegue fabricar. Kingstown não é apenas um cenário — é um organismo que respira, consome e regurgita seus habitantes.
A fotografia colabora. Tons de cinza e azul gélido dominam a paleta, criando uma sensação de frio que vai além do clima de Michigan. É o frio institucional: o sistema prisional, a política local, as alianças frágeis que sustentam uma cidade inteiramente dependente da indústria carcerária. Quando cores quentes aparecem, elas saltam aos olhos — geralmente associadas a memórias, flashbacks, ou aqueles raros momentos de esperança que a série permite.
Isso não é apenas “atmosfera”. É linguagem visual contando a história de um lugar onde humanidade é moeda desvalorizada.
A violência aqui também funciona diferente de outros shows. Quando ela acontece — e acontece de forma chocante —, tem consequências que reverberam por episódios. Não é espetáculo; é custo. Um assassinato na terceira temporada ainda ecoa nas decisões de personagens na quarta. Essa continuidade de consequência é o que separa drama de exploração.
Por que uma obra-prima tem audiência de nicho?
Aqui está o elefante na sala: ‘O Dono de Kingstown’ foi a menos assistida das séries de Sheridan lançadas no outono de 2025, perdendo para ‘Tulsa King’ temporada 3 e ‘Landman’ temporada 2. E isso diz muito sobre o estado atual do streaming.
Paradoxalmente, o público de Sheridan parece preferir as obras mais “fáceis” dele. ‘Tulsa King’ tem Stallone sendo Stallone — entretenimento puro. ‘Landman’ oferece drama corporativo com petróleo e Texas. Já ‘O Dono de Kingstown’ exige algo diferente: paciência para um ritmo deliberadamente lento, tolerância para um mundo moral onde heróis não existem, e disposição para habitar esse espaço por 40 episódios.
Os números do Rotten Tomatoes contam uma história: 100% da crítica, 87% do público. A discrepância entre aclamação e audiência não é nova — ‘The Wire’ passou por algo similar em sua exibição original. Mas dói ver isso acontecer novamente com uma obra que merece audiência muito maior.
O final prematuro e o que perdemos
Paramount renovou a série para uma 5ª e última temporada, mas com uma redução significativa: 8 episódios ao invés dos 10 habituais. A justificativa oficial nunca foi clara, mas é difícil não ler isso como um sinal de que o estúdio está encerrando uma aposta que nunca pagou em números.
É uma pena. A 4ª temporada funcionou como um refinamento de tudo que a série tentou ser — aquele momento raro em que um show encontra exatamente sua voz. Encerrar logo depois desse pico soa como fechar um restaurante no auge do menu porque o aluguel subiu.
Ainda assim, há algo a ser dito sobre sair no topo. Séries que se estendem além de seu tempo natural sofrem de diluição — basta ver o que aconteceu com ‘The Walking Dead’ ou, em menor escala, a própria ‘Yellowstone’. Talvez ‘O Dono de Kingstown’ escape desse destino por saber exatamente quando parar.
Veredito: vale a pena assistir?
Se você curte dramas que tratam você como adulto intelectual, sim. Absolutamente. ‘O Dono de Kingstown’ exige comprometimento — quatro temporadas de 10 episódios cada — mas recompensa cada hora investida com uma densidade narrativa que a maioria dos dramas de streaming nem tenta alcançar.
A 4ª temporada especificamente funciona como argumento definitivo de que Taylor Sheridan é mais do que o criador de franquias de sucesso. É um autor com algo a dizer sobre América, instituições, e o custo humano de sistemas que preferem eficiência a humanidade. Que ele disse isso em sua obra menos vista diz muito sobre o que valorizamos coletivamente como cultura.
Para quem prefere entretenimento leve, aviso: essa série não é para você. Mas se você está disposto a mergulhar em algo que vai permanecer com você dias depois de terminar, ‘O Dono de Kingstown’ é uma daquelas descobertas que fazem valer a pena ter uma assinatura de streaming.
Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!
Perguntas Frequentes sobre ‘O Dono de Kingstown’
Onde assistir ‘O Dono de Kingstown’?
‘O Dono de Kingstown’ está disponível exclusivamente no Paramount+. Todas as 4 temporadas podem ser assistidas na plataforma.
Quantas temporadas tem ‘O Dono de Kingstown’?
Atualmente, 4 temporadas completas estão disponíveis, cada uma com 10 episódios. A série foi renovada para uma 5ª e última temporada de 8 episódios.
Precisa assistir as temporadas anteriores para entender a 4ª?
Sim. ‘O Dono de Kingstown’ é uma série serializada, onde eventos anteriores impactam diretamente a 4ª temporada. Pular temporadas vai prejudicar sua compreensão dos arcos dos personagens.
‘O Dono de Kingstown’ é baseado em história real?
Não é baseado em eventos específicos, mas é inspirado em realidade: o co-criador Hugh Dillon cresceu em Kingston, Ontario, uma cidade com múltiplas prisões que serviu de inspiração para a série.
Qual a classificação indicativa de ‘O Dono de Kingstown’?
A série é classificada como TV-MA (para maiores de 17 anos) nos EUA, equivalente a 16/18 anos no Brasil. Contém violência gráfica, linguagem forte e temas adultos.

