O ciclo infinito: por que Hollywood insiste em refazer ‘Carrie’ e ‘O Morro dos Ventos Uivantes’

Analisamos 8 clássicos literários que Hollywood readapta infinitamente — de ‘Drácula’ a ‘Adoráveis Mulheres’ — e explicamos por que cada geração precisa “reivindicar” essas histórias para si. Não é falta de criatividade: é uma conversa contínua entre passado e presente.

Hollywood tem um vício que ninguém discute: a obsessão por readaptar os mesmos livros. De ‘Drácula’ a ‘Orgulho e Preconceito’, certas obras parecem condenadas a renascer a cada década, como se a indústria tivesse medo de deixá-las descansar. Mas reduzir isso a “falta de criatividade” é o equivalente intelectual de dizer que todo filme de herói é igual. Existe uma razão mais profunda — e mais interessante — para esse ciclo infinito de adaptações literárias para cinema.

Cada geração precisa “reivindicar” esses clássicos para si. Não basta assistir à versão de 1931 de ‘Frankenstein’ ou ao ‘Carrie’ de Brian De Palma. O público contemporâneo quer ver esses mesmos stories filtrados pela sensibilidade do seu tempo, com atores que reconhece, referências que entende, e — principalmente — com as fissuras e ansiedades do momento cultural atual. É por isso que ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ vai ganhar mais uma versão em 2026, e por que Mike Flanagan está transformando ‘Carrie’ em série para a Amazon. Não é desprezo pelo passado. É uma necessidade de atualizar o passado.

Por que estes 8 clássicos voltam à tela sempre

Por que estes 8 clássicos voltam à tela sempre

A lista é previsível, mas as razões por trás dela não. São obras que, por diferentes motivos, se tornaram “propriedade cultural” — histórias tão arraigadas no imaginário coletivo que pertencem a todo mundo e a ninguém especificamente. Cada nova versão é uma tentativa de responder: “o que essa história diz sobre nós, agora?”

‘O Morro dos Ventos Uivantes’: o romance impossível que todos tentam filmar

Emily Brontë escreveu um livro que, tecnicamente, não deveria funcionar no cinema. O romance é todo interno — os personagens se odeiam, se amam, se destroem em silêncio. Heathcliff é cruel, Cathy é insuportável, e o “romance” deles é mais um estudo de toxicidade do que uma história de amor tradicional. Mas é exatamente isso que atrai diretores.

A versão de 1992 com Ralph Fiennes e Juliette Binoche foi uma das poucas que incluiu o segundo volume do livro — frequentemente ignorado por ser “menos romântico”. Luis Buñuel fez sua interpretação em 1954, obsessivo com o elemento religioso que outros diretores ignoravam. Jacques Rivette também. E agora Emerald Fennell entra na fila com uma versão que, pelos trailers, parece mais interessada em estética luxuosa do que na brutalidade emocional da obra original. Assisti à versão de 1992 pela primeira vez aos 16 anos e não entendi o fascínio. Revi aos 30, depois de um relacionamento tóxico, e finalmente compreendi por que Brontë permanece relevante: ela não romantiza a destruição mútua — ela a descreve com precisão clínica.

‘Drácula’: o vampiro que espelha cada era

'Drácula': o vampiro que espelha cada era

O Livro Guinness dos Recordes confirma: Conde Drácula foi adaptado mais vezes que qualquer outro personagem literário — incluindo Sherlock Holmes. Isso não é coincidência. Bram Stoker criou o arquétipo per perfeito do vampiro, e cada época faz dele um espelho de seus medos. Nos anos 30, Bela Lugosi era o aristocrata sedutor que ameaçava a ordem social — um estrangeiro invadindo a Inglaterra vitoriana. Nos anos 70, Frank Langella transformou-o em símbolo de sexualidade reprimida. Em 1992, Gary Oldman soube explorar o elemento trágico — um homem que perdeu tudo e se tornou monstro por amor.

Até ‘Nosferatu’ — a versão “não oficial” que F.W. Murnau fez em 1922 para escapar dos direitos autorais — já foi refilmada duas vezes. A mais recente, de Robert Eggers, prova que o monstro de Stoker continua relevante. Cada diretor de peso, de Francis Ford Coppola a Terence Fisher, quis deixar sua marca. ‘Drácula: Morto e Feliz’, a paródia de Mel Brooks, é a prova final de que o personagem transcende qualquer versão específica.

‘Os Miseráveis’: o épico que desafia qualquer adaptação

Victor Hugo escreveu um dos romances mais densos da literatura ocidental. Adaptar ‘Os Miseráveis’ para o cinema é um ato de hubris — e a indústria adora hubris. Desde o curta dos irmãos Lumière em 1897, existem dezenas de versões. A de 1934, dirigida por Raymond Bernard, tem quatro horas e meia e ainda assim não cobre tudo. A de 1998, com Liam Neeson, tentou condensar o incondensável. Em 2012, tivemos a adaptação do musical da Broadway — uma adaptação de uma adaptação.

O que fascina Hollywood é a escala. Jean Valjean perseguindo Javert através de décadas é a definição de “arco de personagem”. Cada nova versão tenta resolver o mesmo problema: como traduzir 1.500 páginas de digressões sociais e políticas em algo que caiba numa tela? Nenhuma consegue completamente. Isso não impede ninguém de tentar.

‘Carrie: A Estranha’: quando a perfeição não basta

'Carrie: A Estranha': quando a perfeição não basta

Este é o caso mais curioso da lista. Brian De Palma adaptou o primeiro romance publicado de Stephen King em 1976 e criou o que muitos consideram o filme de terror perfeito. A sequência do sangue de porco no baile, com aquele split-screen hipnótico, é uma das imagens mais icônicas do cinema de horror — uma técnica que De Palma emprestou de filmes de exploração dos anos 60 e elevou à categoria de arte. Não há motivo óbvio para refazer.

Hollywood refaz mesmo assim. Teve a sequência de 1999, o telefilme de 2002, o remake teatral de 2013 com Chloë Grace Moretz. Agora Mike Flanagan vai transformar o romance epistolar de 200 páginas em uma série limitada. Flanagan, que já provou seu valor com ‘The Haunting of Hill House’, provavelmente encontrou algo no material que justifica a existência de mais uma versão. O público vai decidir se ela convence.

‘Orgulho e Preconceito’: o romance que toda geração merece

Jane Austen criou o template do romance de costumes, e Hollywood nunca superou. A primeira adaptação para TV foi em 1938. Depois veio a versão com Jennifer Ehle e Colin Firth — aquela em que Firth emerge do lago de camisa molhada e se torna um símbolo sexual involuntário. A versão cinematográfica de 2005, com Keira Knightley, trouxe uma Elizabeth Bennet mais moderna, mais assertiva. A próxima, com Emma Corrin e Jack Lowden, provavelmente fará o mesmo para uma geração que cresceu vendo Corrin em ‘The Crown’.

O interessante é como as “pseudo-adaptações” proliferam. ‘O Diário de Bridget Jones’ é ‘Orgulho e Preconceito’ com piadas de britadeira. ‘Orgulho e Preconceito e Zumbis’ é… exatamente o que o título promete. A estrutura de Austen é tão sólida que suporta qualquer variação. Cada época encontra sua própria Elizabeth Bennet — e seu próprio Sr. Darcy para se apaixonar.

‘Os Fantasmas de Scrooge’: o Natal que todo estúdio precisa

'Os Fantasmas de Scrooge': o Natal que todo estúdio precisa

Charles Dickens escreveu o conto de Natal definitivo, e a indústria precisa de conteúdo para dezembro. É uma equação simples. Albert Finney fez uma versão musical em 1970. Michael Caine contracenou com os Muppets em 1992 — e sim, ele atua como se estivesse num drama sério, o que torna tudo mais genial. Jim Carrey interpretou todos os papéis numa versão em captura de movimento que habitou o “vale da estranheza” em 2009. Robert Eggers está preparando sua versão.

A estrutura de três fantasmas visitando um velho amargurado é perfeita para o formato de três atos. A redenção final é catártica. O material é domínio público. Para estúdios, ‘Os Fantasmas de Scrooge’ é o presente que continua dando — a cada geração, uma nova versão para vender em Blu-ray e streaming. Mas o que diferencia as boas das ruins é simples: as boas entendem que Scrooge não é vilão — é vítima de si mesmo. As ruins o tratam como caricatura.

‘Frankenstein’: o monstro que criou um gênero

James Whale definiu o cinema de terror em 1931 com ‘Frankenstein’. Boris Karloff criou a imagem definitiva do monstro — aquela testa quadrada, aqueles parafusos no pescoço, aquele andar desajeitado. A Universal aproveitou e construiu a primeira grande franquia de terror: ‘A Noiva de Frankenstein’, ‘O Filho de Frankenstein’, ‘A Mansão de Frankenstein’, até o crossover com Abbott e Costello.

Depois, cada diretor quis reinventar. Kenneth Branagh escalou Robert De Niro como a criatura. Paul McGuigan contou a história pelo ponto de vista de Igor. Guillermo del Toro prepara sua versão — uma interpretação edipiana que promete ser tão pessoal quanto o restante de sua filmografia. Maggie Gyllenhaal vai dirigir ‘A Prometida’, uma variação gótica steampunk. Mary Shelley escreveu um romance sobre um cientista que cria vida e é destruído por ela. Hollywood criou uma indústria e continua sendo consumida por ela.

‘Adoráveis Mulheres’: cada geração tem suas irmãs March

'Adoráveis Mulheres': cada geração tem suas irmãs March

Louisa May Alcott escreveu o romance de amadurecimento definitivo americano, e Hollywood garante que cada geração tenha sua versão das irmãs March. A versão de 1933 tinha Katharine Hepburn como Jo. A de 1949, a primeira em cores, escalou Elizabeth Taylor como Amy. A versão dos anos 90 apostou em Winona Ryder e Christian Bale. A mais recente, de Greta Gerwig, pode ser a melhor de todas — não por ter Florence Pugh, Meryl Streep e Laura Dern no elenco, mas por entender que o verdadeiro amor de Jo March é a escrita, não Laurie nem ninguém.

Gerwig fez algo que nenhuma versão anterior ousou: ela colocou a ambição artística de Jo no centro da narrativa. As adaptações anteriores tratavam o romance de Jo com livros como um hobby fofo. Gerwig entendeu que, para Alcott, aquilo era vida ou morte. É esse tipo de releitura que justifica o ciclo infinito — quando alguém encontra algo no material que todos os outros ignoraram.

O veredito: por que o ciclo não vai parar

Hollywood vai continuar refazendo ‘Carrie’, ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, ‘Drácula’ e todos os outros porque o público continua assistindo. Mas não é preguiça — é uma conversa contínua. Cada versão diz algo diferente sobre o momento em que foi feita. A ‘Adoráveis Mulheres’ de 1949 celebra conformidade doméstica. A de 2019 celebra ambição profissional. O ‘Drácula’ de 1931 é sobre medo do estrangeiro. O de 1992 é sobre AIDS e desejo proibido.

A pergunta relevante não é “por que Hollywood não para de refazer esses livros?”. A pergunta é: “o que a próxima versão vai revelar sobre nós que ainda não percebemos?”. Enquanto a resposta interessar, o ciclo continua. E francamente, eu prefiro ver mais uma adaptação de ‘Frankenstein’ por Guillermo del Toro do que mais uma franquia de brinquedo dos anos 80 transformada em blockbuster genérico. Pelo menos o monstro de Shelley tem algo a dizer.

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Perguntas Frequentes sobre adaptações literárias

Qual o personagem literário mais adaptado para o cinema?

Conde Drácula, criado por Bram Stoker em 1897, é o personagem literário mais adaptado da história segundo o Guinness Book. Incluindo versões não oficiais como ‘Nosferatu’, são mais de 200 produções entre filmes, séries e animações.

Por que Hollywood faz tantos remakes de filmes clássicos?

Cada geração precisa “reivindicar” os clássicos para si, filtrando as histórias pela sensibilidade do seu tempo. Não é apenas falta de criatividade — é uma conversa contínua entre passado e presente, onde cada versão revela algo sobre o momento cultural em que foi feita.

Qual foi a primeira adaptação literária para o cinema?

Os irmãos Lumière adaptaram ‘Os Miseráveis’ de Victor Hugo em um curta-metragem ainda em 1897, poucos anos após a invenção do cinematógrafo. É considerada uma das primeiras adaptações literárias da história do cinema.

Quais livros clássicos estão em domínio público para adaptação?

Obras publicadas antes de 1928 estão em domínio público nos EUA, incluindo ‘Drácula’ (1897), ‘Frankenstein’ (1818), ‘Os Fantasmas de Scrooge’ (1843) e ‘Orgulho e Preconceito’ (1813). Isso significa que qualquer estúdio pode adaptá-los sem pagar direitos autorais.

‘Carrie’ de 1976 é melhor que os remakes?

A versão de Brian De Palma (1976) é amplamente considerada a definitiva, com a icônica sequência do baile em split-screen. Os remakes de 2002 e 2013 foram recebidos com críticas mistas. A série de Mike Flanagan para Amazon ainda está em produção.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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