Com nota 9.0 no IMDb, ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ supera ‘A Casa do Dragão’ e se aproxima do original. Analisamos por que o foco narrativo e a química do elenco funcionam, e como o review bombing tenta (e falha) em manchar o sucesso.
Spin-offs de séries icônicas carregam um peso que poucos projetos suportam. A expectativa mata mais carreiras do que cancelamentos de última hora. Mas às vezes — raramente — algo surge e silencia os céticos. O Cavaleiro dos Sete Reinos está fazendo exatamente isso: começou discreto, cresceu em reputação a cada episódio, e agora acumula uma nota 9.0 no IMDb que o coloca acima de ‘A Casa do Dragão’ (8.3) e atrás apenas do original ‘Game of Thrones’ (9.2). Não é sorte. É mérito.
Confesso que acompanhei o lançamento com cautela. Depois do final desastroso de ‘Game of Thrones’ em 2019 e da recepção mista que ‘A Casa do Dragão’ recebeu — aclamada por uns, criticada por seu ritmo lento por outros — a franquia estava em um momento delicado. Um terceiro spin-off errado poderia consolidar a impressão de que Westeros virou uma máquina de fazer dinheiro sem alma. O que estamos vendo é o oposto.
Como um spin-off “menor” se tornou o maior sucesso recente da HBO
Os números contam uma história, mas não contam tudo. ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ estreou no final de janeiro com 8.4 no IMDb — respeitável, mas não extraordinário. O que aconteceu nas semanas seguintes é o verdadeiro fenômeno: cada episódio novo elevou a média, com os dois mais recentes cravando na casa dos 9 altos. O episódio “In the Name of the Mother” alcançou 9.6, colocando-o no seleto clube de capítulos televisionais que beiram a perfeição segundo o público.
Isso não acontece por acaso. A série fez algo que ‘A Casa do Dragão’ tentou mas nem sempre conseguiu: foco narrativo. Enquanto o predecessor se espalhava entre dezenas de personagens e intrigas palacianas, esta produção centra-se em dois protagonistas — o cavaleiro andante Ser Duncan, o Alto (Peter Claffley) e seu escudeiro Egg (Dexter Sol Ansell) — e constrói uma jornada de personagem que o público consegue acompanhar emocionalmente. A escala é menor. O impacto é maior.
Owen Harris, showrunner que já assinou episódios fundamentais de ‘Black Mirror’ (incluindo o aclamado “San Junipero”), traz uma sensibilidade diferente para Westeros. Menos grandiosidade, mais intimismo. A fotografia de David Franco opta por tons terrosos e luz natural que contrastam com o visual mais saturado de ‘A Casa do Dragão’ — uma escolha que reforça a escala “pequena” da história sem sacrificar beleza visual.
George R.R. Martin, autor dos originais “Tales of Dunk and Egg” nos quais a série se baseia, deu seu selo de aprovação público: chamou-a de “tão fiel quanto um homem razoável poderia esperar”. Para quem conhece a relação conturbada entre criadores e adaptações de suas obras, isso não é detalhe — é validação rara.
A polêmica que ameaça manchar o sucesso: review bombing em cena
Nem tudo são celebrações, porém. O sucesso de ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ coincidiu com uma campanha de review bombing que afetou não apenas a série, mas também um episódio lendário de outra produção: “Ozymandias”, de ‘Breaking Bad’, que mantinha um impecável 10/10 há anos e despencou para 9.7 recentemente. Coincidência? Improvável.
O episódio mais recente do spin-off também sofreu manipulação de notas, caindo de 9.7 para 9.6. A diferença é que, neste caso, o impacto foi mínimo. Mais preocupante: o final da primeira temporada, que ainda não foi ao ar, já aparece com uma nota artificial de 8.0. Alguém está tentando derrubar a média antes mesmo do lançamento.
Review bombing é um problema crescente na cultura pop contemporânea. Fãs insatisfeitos — frequentemente por motivos que nada têm a ver com qualidade artística — organizam-se para bombardear notas de produções que consideram “politicamente incorretas” ou que simplesmente não atendem às suas expectativas pessoais. É uma pena que uma série que está entregando qualidade consistente precise lidar com essa poluição digital. O paradoxo é que a campanha pode ter o efeito oposto: chamar mais atenção para uma produção que merece ser vista por seus méritos.
Por que a série funciona onde outros spin-offs falharam
Assisti a cada episódio com a atenção de quem já consumiu centenas de horas de conteúdo de Westeros — dos livros às séries, dos especiais aos fóruns de discussão. O que distingue ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ é sua clareza de propósito. A premissa é simples: um cavaleiro sem recursos prova seu valor em um mundo que o despreza. Isso soa genérico? Nas mãos erradas, seria. A execução aqui eleva o material.
A química entre Claffley e Ansell é o coração da produção. Sem ela, teríamos apenas mais uma fantasia medieval com orçamento generoso. Com ela, temos uma história sobre honra, lealdade e crescimento pessoal que transcende o gênero. A cena em que Duncan intervém para defender um mestre de marionetes contra o brutal Aerion Targaryen funciona não pelos efeitos visuais, mas porque estabelecemos quem é esse cavaleiro e por que nos importamos com ele. A tensão é construída em silêncios e olhares, não em golpes de espada.
A trilha sonora de David Metzger merece menção especial. Diferente do tema épico de Ramin Djawadi que se tornou sinônimo de Westeros, Metzger opta por uma abordagem mais contida — cordas suaves, flautas medievais, uma sensibilidade de “conto de fadas” que combina com a escala da história. Há respeito pelo legado musical do universo, mas também coragem para não imitar.
Há também uma inteligência na escolha do material-fonte. “A Hedge Knight”, o conto que compõe a primeira temporada, é uma história completa e relativamente compacta. Isso permite uma adaptação sem os alongamentos que prejudicaram temporões de outras séries. A segunda temporada já renovada deve adaptar “The Sworn Sword”, seguindo a mesma estratégia de narrativas fechadas dentro de um universo maior.
O que o sucesso revela sobre o futuro de Westeros na tela
A renovação para segunda temporada, anunciada enquanto a primeira ainda é exibida, sinaliza confiança da HBO. E faz sentido: em um cenário onde franquias lutam para manter relevância, ter um produto que cresce em audiência e crítica a cada semana é valioso. O final da primeira temporada vai ao ar em 22 de fevereiro, e todas as atenções estarão voltadas para ver se a série consegue manter a qualidade até o fechamento.
Para fãs de ‘Game of Thrones’ que se sentiram traídos pelo final de 2019, ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ oferece algo inesperado: redenção parcial do universo. Não apaga os erros do passado, mas demonstra que as histórias de Westeros ainda podem ser contadas com competência, respeito ao material original e — mais importante — sem subestimar a inteligência do público.
A pergunta que fica não é se a série merece sua nota 9.0. Pelos padrões de qualidade demonstrados, sim. A questão real é: a HBO consegue manter esse padrão nas próximas temporadas, ou vamos ver mais uma vez a promessa de grandeza se desfazer no meio do caminho? Por enquanto, há motivos para otimismo. E isso, para quem acompanha o universo de fantasia há décadas, já é uma vitória.
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Perguntas Frequentes sobre ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’
Onde assistir ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’?
A série estreou na HBO em janeiro de 2026 e está disponível na plataforma de streaming Max. Episódios são lançados semanalmente.
Quantos episódios tem a primeira temporada?
A primeira temporada tem 6 episódios, adaptando o conto “A Hedge Knight” de George R.R. Martin. O final vai ao ar em 22 de fevereiro de 2026.
Precisa ter visto ‘Game of Thrones’ para entender?
Não. A história se passa no mesmo universo, mas funciona de forma independente. Conhecer o universo enriquece a experiência, mas não é necessário para acompanhar a trama.
Em que livros a série é baseada?
A série adapta os contos “Tales of Dunk and Egg” de George R.R. Martin, publicados desde 1998. A primeira temporada cobre “A Hedge Knight”, e a segunda deve adaptar “The Sworn Sword”.
‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ já foi renovado?
Sim. A HBO renovou a série para segunda temporada antes mesmo do final da primeira, demonstrando confiança no projeto.

