‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ quebra regra narrativa de ‘Game of Thrones’

Diferente de ‘Game of Thrones’, que evitava saltos temporais, ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ abraça os flashbacks como ferramenta central. Analisamos como essa mudança traduz o monólogo interno dos livros de George R.R. Martin e define o tom de aventura única do novo spinoff.

Quando ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ (A Knight of the Seven Kingdoms) utilizou flashbacks logo em seus primeiros minutos, um silêncio respeitoso tomou conta do fandom. Para o espectador casual, foi apenas um recurso de roteiro; para o veterano de Westeros, foi uma heresia necessária. Quem acompanhou ‘Game of Thrones’ por uma década sabe que a série original tratava o flashback como um tabu narrativo — um recurso evitado com rigor quase religioso, frequentemente substituído por visões místicas ou diálogos expositivos.

A quebra dessa ‘regra de ouro’ no novo spinoff da HBO não é um sinal de preguiça criativa, mas sim a primeira grande evidência de que a emissora finalmente entendeu que nem toda história em Westeros precisa carregar o peso de uma tragédia grega. O uso do passado aqui não é muleta, é a ponte para a humanidade de Dunk.

O trauma logístico de ‘Game of Thrones’

O trauma logístico de 'Game of Thrones'

Para entender por que os flashbacks eram evitados, precisamos olhar para a estrutura de ‘Game of Thrones’. Com dezenas de núcleos e centenas de personagens, David Benioff e D.B. Weiss temiam que saltos temporais quebrassem a imersão em um mundo que já era complexo demais. A regra era clara: o passado deveria ser sentido nas cicatrizes dos personagens, não visto na tela. As raras exceções, como a profecia de Cersei ou a Torre da Alegria, foram enquadradas como visões de Bran ou eventos isolados de abertura de temporada.

Em ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’, essa barreira cai por terra. A série foca na jornada íntima de Dunk (Peter Claffey) e Egg (Dexter Sol Ansell). Com uma escala reduzida, o risco de confusão desaparece. Ver o treinamento de Dunk com o falecido Sor Arlan de Centarvone não é um desvio, é o que dá peso emocional ao seu título de ‘cavaleiro andante’.

A tradução do monólogo interno de George R.R. Martin

Existe uma razão técnica para essa mudança: a natureza do material original. Enquanto ‘As Crônicas de Gelo e Fogo’ são épicos corais, os contos de Dunk e Egg são narrados sob a perspectiva quase exclusiva de Dunk. Os livros são repletos de seus pensamentos, dúvidas e memórias do tempo em que era apenas um escudeiro pobre na Baixada das Pulgas.

Ao adaptar para a TV, o diretor Owen Harris e o roteirista Ira Parker perceberam que, sem o monólogo interno, Dunk poderia parecer apenas um bruto silencioso. Os flashbacks servem para externalizar a consciência do protagonista. Quando vemos o contraste entre a dureza do presente e a tutela paternal de Sor Arlan, entendemos por que Dunk é tão obcecado com a honra — um conceito que parece quase alienígena no clima político cínico de Porto Real.

Westeros em tons de aventura picaresca

Westeros em tons de aventura picaresca

O tom de ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ é deliberadamente mais leve, bebendo da fonte do romance de cavalaria e da aventura picaresca. Essa leveza permite uma gramática cinematográfica mais flexível. Enquanto ‘A Casa do Dragão’ ainda tenta emular a solenidade de ‘GoT’, este spinoff se permite ser mais lúdico.

A fotografia abandona o cinza opressor e o breu das noites de Winterfell para abraçar cores mais quentes e uma luz que remete ao verão eterno antes da Rebelião de Robert. Nesse contexto, o flashback entra de forma orgânica, quase como um conto contado ao redor de uma fogueira. É a diferença entre um tratado de guerra e uma balada de bardo.

O futuro: um universo de estilos, não apenas de nomes

A decisão de quebrar essa regra narrativa sinaliza que a HBO está pronta para diversificar a franquia. Se cada spinoff tentasse replicar exatamente a fórmula de 2011, o público sofreria de fadiga rapidamente. Ao permitir que ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ tenha seu próprio ritmo e suas próprias ferramentas — incluindo o uso livre do passado — o estúdio garante que Westeros continue sendo um lugar de descobertas, não apenas de repetições.

Para quem sentiu falta de ‘Game of Thrones’, mas não aguenta mais a densidade política exaustiva, Dunk e Egg oferecem o frescor necessário. É uma história sobre o que significa ser um herói quando o mundo não está pedindo por um — e, às vezes, para entender esse heroísmo, precisamos olhar para trás.

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Perguntas Frequentes sobre ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’

Em que época se passa ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’?

A série é ambientada cerca de 90 anos antes dos eventos de ‘Game of Thrones’ e aproximadamente 70 anos após o fim de ‘A Casa do Dragão’. É uma era em que a dinastia Targaryen ainda governa, mas os dragões já estão extintos.

Preciso ter assistido ‘Game of Thrones’ para entender o spinoff?

Não. Embora compartilhem o mesmo mundo, a história de Dunk e Egg é independente e foca em uma aventura de escala menor, sem a necessidade de conhecer as complexas linhagens políticas da série original.

A série é baseada em qual livro?

A produção adapta a trilogia de contos de George R.R. Martin, reunidos no livro ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’. A primeira temporada foca no primeiro conto, intitulado ‘O Cavaleiro Andante’.

Onde assistir ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’?

A série é uma produção original da HBO e está disponível exclusivamente no canal HBO e na plataforma de streaming Max.

Quem são os protagonistas Dunk e Egg?

Dunk (Sor Duncan, o Alto) é um cavaleiro andante de origem humilde, interpretado por Peter Claffey. Egg é seu jovem e misterioso escudeiro, vivido por Dexter Sol Ansell, que esconde uma identidade real importante.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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