Novo ‘Harry Potter’ da HBO revela origem de Draco com cenas na Mansão Malfoy

A nova série da HBO quebra a regra sagrada de Harry Potter: mostrar o que o menino que sobreviveu não via. Analisamos como cenas na Mansão Malfoy desde a 1ª temporada podem transformar Draco de vilão cartunesco em tragédia shakespeariana.

Há uma regra não escrita em todas as adaptações de ‘Harry Potter’ até hoje: se Harry não viu, não importa. Dos oito filmes de Warner à peça ‘Harry Potter and the Cursed Child’ na Broadway, a franquia nunca abandonou completamente a perspectiva limitada do menino que sobreviveu. Isso muda agora. A nova série ‘Harry Potter’ da HBO está quebrando esse protocolo de uma forma que pode redefinir como entendemos vilões em histórias juvenis.

A informação veio direto de Lox Pratt, ator escalado para viver o novo Draco. Em entrevista à 1883 Magazine, ele confirmou algo que nenhuma adaptação anterior ousou: veremos cenas na Mansão Malfoy já na primeira temporada. Nos livros e filmes, esse cenário só aparece no final de ‘Harry Potter e as Relíquias da Morte’ — e já transformado em quartel-general de Voldemort, impossibilitando qualquer vislumbre genuíno da dinâmica familiar. A série da HBO, porém, está adotando uma abordagem cirúrgica: mostrar Draco em casa, antes que o peso da guerra distorça tudo.

A quebra da perspectiva Harry: por que ver Draco em casa muda a narrativa

A quebra da perspectiva Harry: por que ver Draco em casa muda a narrativa

A grande sacada narrativa aqui não é apenas expandir o cenário — é desmontar a arquitetura do vilão cartunesco. Nos filmes originais, Draco funciona como um espelho distorcido de Harry: onde Harry é humilde, Draco é arrogante; onde Harry tem amizades verdadeiras, Draco tem seguidores submissos. Funciona como contraste, mas falha como personagem. Como bem notou Pratt, a versão cinematográfica é “basicamente 2D; ele é o vilão sneery”.

Ao nos levar para dentro da Mansão Malfoy enquanto Draco ainda é apenas um menino — antes que o Dark Mark queime em seu braço — a série cria uma oportunidade rara em adaptações literárias: a de entender o porquê antes de julgar o quê. Vamos ver, segundo o próprio ator, “brilhantes cenas em casa onde você começa a ter uma visão de como ele é”. Isso não é filler de produção; é psicologia narrativa.

Pense em como isso opera tecnicamente. Nos livros de J.K. Rowling, a limitação do ponto de vista de Harry justificava nossa ignorância sobre Draco. Na série, com múltiplas linhas narrativas e a liberdade de explorar “todos os professores em suas salas particulares” (como destacou Pratt), Draco deixa de ser um obstáculo para se tornar um estudo de caso sobre herança tóxica.

O fantasma de Tom Felton e a sombra de Lucius

Não dá para falar dessa transformação sem reconhecer a sombra de Tom Felton. Durante uma década, Felton criou uma performance icônica que, apesar de limitada pelo roteiro, carregava nuances de fragilidade — especialmente nas cenas com Jason Isaacs como Lucius. O que a HBO está fazendo, porém, é sistematizar essas “piscadelas” de vulnerabilidade que Felton conseguia espremer entre as linhas.

A presença confirmada de Johnny Flynn como Lucius Malfoy na primeira temporada reforça essa estratégia. Nos livros e filmes originais, Lucius só entra em cena no segundo ano (‘Harry Potter e a Câmara Secreta’). Acelerar essa introdução não é apenas fan service — é estabelecer imediatamente o campo gravitacional que molda Draco. Veremos, em tempo real, como um pai autoritário e preconceituoso programa um filho para ser antagonista, mesmo quando esse filho ainda não tem idade para entender o mal que está sendo ensinado a propagar.

Isso cria uma tragédia shakespeariana disfarçada de fantasia juvenil. Draco não nasce vilão; ele é fabricado em ambiente controlado, como um experimento em laboratório de pureza de sangue.

Fidelidade expandida: o risco de humanizar o vilão cedo demais

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Há um risco real nessa abordagem. Parte do que torna Draco eficaz nos primeiros livros é justamente sua opacidade. Ele é o bully misterioso cuja ameaça reside no que não sabemos sobre sua família. Ao iluminar os cantos escuros da Mansão Malfoy cedo demais, a série pode diluir a tensão. Se entendemos demais o vilão, ele deixa de ser temível e passa a ser apenas… patético?

A comparação que Pratt faz com ‘Lord of the Flies’ (onde também atuará como Jack) é reveladora. Ambas as histórias lidam com crianças em ambientes que corrompem. Mas enquanto ‘Lord of the Flies’ mostra a civilização se desfazendo em tempo real, ‘Harry Potter’ agora mostrará a civilização se mantendo por fios — a aristocracia bruxa se reproduzindo através de gerações. É um comentário social mais sutil, mas potencialmente mais perturbador.

O sucesso dessa empreitada depende de equilíbrio. Se as cenas na Mansão Malfoy forem meramente expositivas — “olhe como os Malfoy são racistas e ricos” — teremos apenas redundância. Mas se mostrarem o custo emocional de crescer sob expectativas genéticas de superioridade, a série terá feito algo que o cinema nunca conseguiu: transformar Draco de caricatura em personagem trágico.

O legado em jogo: Draco como tragédia shakespeariana

Ao decidir que a série mostrará Draco Malfoy em sua intimidade doméstica desde o início, Francesca Gardiner (showrunner) e Mark Mylod estão apostando que a empatia não enfraquece o conflito — o complexifica. É uma aposta ousada em uma era onde vilões tridimensionais (como Loki na Marvel ou Daemon Targaryen em ‘House of the Dragon’) se tornaram o padrão, não a exceção.

A pergunta que fica é: será que queremos entender Draco? Há um conforto moral em vilões simples. Eles nos permitem odiar sem remorso. Ao arrancar Draco da segurança do arquétipo e colocá-lo no ambiente claustrofóbico de uma mansão onde o amor é condicional à obediência ideológica, a HBO está nos convidando a uma leitura mais incômoda — uma onde o antagonista é também vítima, mesmo quando escolhe crueldade.

Se funcionar, teremos finalmente uma adaptação que não apenas repete a magia, mas a questiona. Se falhar, pelo menos teremos tentado ver além do ombro de Harry. E isso, por si só, já é uma mudança na forma como contamos essa história.

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Perguntas Frequentes sobre a Série Harry Potter da HBO

Quando estreia a nova série de Harry Potter da HBO?

A série está prevista para estrear em 2027 na HBO e Max. As gravações começaram em 2025 no Reino Unido, com previsão de várias temporadas cobrindo os sete livros originais.

Quem é Lox Pratt, o ator que vai viver Draco Malfoy?

Lox Pratt é um ator britânico relativamente novo no cinema. Ele foi escalado após processo de audição extenso e também interpretará Jack em ‘Lord of the Flies’, outra produção da Warner Bros.

A série vai mostrar cenas que não estão nos livros originais?

Sim. Diferente dos filmes, a série promete expandir a narrativa com cenas fora da perspectiva de Harry, incluindo momentos na Mansão Malfoy e nas salas particulares dos professores desde a primeira temporada.

Quem vai interpretar Lucius Malfoy na série da HBO?

Johnny Flynn foi confirmado como Lucius Malfoy. Diferente dos filmes originais, onde Jason Isaacs entrou apenas no segundo ano, Flynn aparecerá já na primeira temporada, estabelecendo a dinâmica familiar Draco-Lucius desde o início.

A série será fiel aos livros ou terá histórias originais?

A série seguirá a trama principal dos sete livros de J.K. Rowling, mas com liberdade para expandir cenas secundárias e desenvolver personagens como Draco Malfoy, que eram vistos apenas pela perspectiva limitada de Harry nos livros.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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