Nova série do criador de ‘Família Soprano’ é a versão real de ‘Ruptura’

David Chase, criador de ‘Família Soprano’, retorna à TV após 18 anos com uma série sobre o Projeto MKUltra HBO — o programa real da CIA que inspirou elementos de ‘Ruptura’. Analisamos por que essa é a versão sem ficção científica do terror corporativo da Apple TV+.

David Chase passou 18 anos longe da TV. Dezoito. Tempo suficiente para uma criança nascer, crescer e chegar à maioridade enquanto o criador de ‘Família Soprano’ se recolhia em um silêncio quase deliberado. Agora, aos 80 anos, ele retorna com algo que ninguém esperava: uma série sobre o Projeto MKUltra HBO — o programa secreto da CIA que tentou controlar mentes humanas usando drogas, tortura psicológica e métodos que parecem saídos de um thriller de ficção científica. Mas não são. São história real.

A ironia é deliciosa. Enquanto ‘Ruptura’ domina as conversas sobre televisão com sua premissa de funcionários tendo suas mentes divididas em duas personalidades distintas — uma para o trabalho, outra para a vida pessoal — Chase anuncia um projeto que faz o show de Dan Erickson parecer quase ingênuo. A diferença fundamental? O que a Lumon Industries faz na ficção, a CIA tentou fazer de verdade. E por duas décadas.

Por que 18 anos de silêncio tornam o retorno de Chase um evento

Por que 18 anos de silêncio tornam o retorno de Chase um evento

Não é exagero dizer que ‘Família Soprano’ reinventou a televisão. Antes de Tony Soprano, protagonistas de séries eram heróis claros ou vilões declarados. Chase criou algo mais incômodo: um homem que você torce para ter sucesso enquanto reconhece que ele é, fundamentalmente, uma pessoa terrível. Seis temporadas de ambiguidade moral que prepararam o terreno para tudo de relevante que veio depois — de ‘Breaking Bad’ a ‘Succession’.

O fato de Chase ter esperado 18 anos para criar outra série diz algo sobre seu padrão de qualidade. Ele não precisa de dinheiro. Não precisa de fama. Aos 80 anos, voltou porque encontrou um assunto que o obceca. E considerando que ‘Família Soprano’ foi parcialmente inspirada na vida real do mafioso Vincent Palermo, há razão para acreditar que Chase abordará o MKUltra com a mesma obsessão por verossimilhança que marcou sua obra-prima. Nos anos entre uma série e outra, Chase dirigiu apenas um filme: ‘Not a Pretty Picture’ (2021), um drama sobre os anos de formação de uma feminista — obra menor que sugere que ele guardava sua melhor pólvora para a TV.

O que a CIA fez com cidadãos americanos por 20 anos

Entre 1953 e 1973, a CIA conduziu experimentos em seres humanos sem seu consentimento. O objetivo era desenvolver técnicas de controle mental para uso em interrogatórios, espionagem e — nas palavras da própria agência — “subversão de elementos da população americana”. Os métodos incluíam administração secreta de LSD, eletrochoques, hipnose sob falsos pretextos e privação sensorial prolongada.

Os cobaias? Presidiários, pacientes psiquiátricos, estudantes universitários e viciados atraídos pela promessa de drogas gratuitas. O Senado americano confirmou a ilegalidade do programa em 1977, mas nenhuma pessoa foi processada. Mais perturbador ainda: parte dos experimentos foi baseada em trabalhos de cientistas nazistas de Auschwitz e Dachau, alguns dos quais foram recrutados pela CIA no pós-guerra através da Operação Paperclip.

Um caso encapsula a brutalidade do programa: Frank Olson, cientista do exército americano, foi secretamente dosado com LSD pela CIA em 1953. Uma semana depois, caiu de uma janela do 13º andar. A CIA chamou de suicídio. A família só descobriu a verdade décadas depois. É o tipo de história que Chase sabe transformar em drama — não porque é sensacional, mas porque é humano no seu horror.

Se isso soa como roteiro de filme de terror, é porque a realidade frequentemente supera a ficção. E é aqui que a comparação com ‘Ruptura’ se torna inevitável — e instrutiva.

Por que ‘Ruptura’ é o ponto de comparação perfeito — e imperfeito

Em ‘Ruptura’, a corporação Lumon desenvolveu tecnologia para “separar” a mente de funcionários em duas personalidades: uma que vive apenas dentro do escritório, sem memória da vida exterior, e outra que vive fora, sem conhecimento do que faz durante o trabalho. É horror corporativo elevado a arte, uma metáfora sobre alienação laboral que se tornou mais relevante após a pandemia. A série constrói tensão através de detalhes aparentemente banais — os números MDR que os funcionários organizam, os quartos de descanso assépticos, o elevador que funciona como portal entre duas existências.

O Projeto MKUltra HBO de Chase será, essencialmente, a versão sem ficção científica dessa premissa. A CIA não tinha tecnologia para “separar” mentes, mas tinha drogas e técnicas psicológicas para tentar algo similar: criar personalidades fragmentadas que pudessem ser controladas. Os “protocolos de override” de ‘Ruptura’ teriam sido extremamente úteis para os cientistas do programa real.

A diferença crucial está no tom. ‘Ruptura’ funciona como sátira distópica — a arquitetura estéril da Lumon, o absurdo burocrático, o humor negro. Já o MKUltra real não tinha nenhum desses elementos. Era brutalidade disfarçada de ciência, financiada por dinheiro público, conduzida por profissionais que deveriam proteger cidadãos. Se Chase mantiver sua abordagem de ‘Família Soprano’ — aquele neo-noir sombrio com pitadas de humor ácido — teremos algo que talvez seja mais difícil de assistir do que qualquer episódio de ‘Ruptura’.

Por que 2026 é o ano certo para desenterrar o MKUltra

Não é coincidência que Chase tenha escolhido este tema agora. Vivemos uma era de desconfiança institucional sem precedentes — teorias de conspiração sobre vacinas, vigilância governamental, manipulação de mídia. O MKUltra é o avô de todas essas conspirações, a prova de que às vezes as paranoias são justificadas.

A série também chega em um momento de fascínio popular por histórias sobre controle mental e identidade fragmentada. ‘Ruptura’ não está sozinha: pense em ‘Eternal Sunshine of the Spotless Mind’, em ‘Black Mirror’, na própria ‘Westworld’. Há um apetite cultural genuíno por narrativas que questionam o que significa ter autonomia sobre a própria mente.

Chase, com sua história de explorar a psique de homens que mentem para si mesmos, parece o criador ideal para desenterrar esse capítulo vergonhoso da história americana. Tony Soprano ia à terapia para mentir para seu psiquiatra. Os sujeitos do MKUltra nem tinham essa opção — suas mentes eram invadidas sem que soubessem.

O que esperar — e o que não esperar

Primeiro, vamos ajustar expectativas: o projeto ainda não tem data de estreia, e detalhes do elenco e equipe técnica são escassos. Chase completou 80 anos em 2025, e embora isso não impeça ninguém de criar grandes obras — pense em Clint Eastwood dirigindo ‘American Sniper’ aos 84 — é um fator a considerar.

O que sabemos com certeza: a série será para HBO, o que sugere orçamento robusto e liberdade criativa. A rede que apostou em ‘Família Soprano’ quando ninguém acreditava em dramas de anti-heróis sabe o que tem nas mãos. E considerando o pedigree de Chase, é improvável que recebamos algo que seja apenas “competente”.

Se você ama ‘Ruptura’, vale a pena acompanhar o desenvolvimento deste projeto. Não será a mesma coisa — a ausência de ficção científica significa que não teremos os elementos visuais e narrativos que fazem o show da Apple TV+ tão distinto. Mas teremos algo talvez mais perturbador: a consciência de que o que estamos vendo realmente aconteceu. Que pessoas reais foram drogadas, torturadas e tiveram suas mentes invadidas por um governo que jurava protegê-las.

Chase nunca foi de criar conforto. Em ‘Família Soprano’, ele nos fez torcer por um assassino. Em seu novo projeto, ele pode nos fazer questionar o quanto realmente controlamos nossas próprias mentes — e o quanto instituições poderosas já tentaram tirar esse controle de nós. É o tipo de pergunta que fica com você depois que os créditos rolam. E considerando o estado do mundo em 2026, pode ser exatamente a pergunta que precisamos fazer.

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Perguntas Frequentes sobre a nova série de David Chase

O que é o Projeto MKUltra?

O Projeto MKUltra foi um programa secreto da CIA que operou entre 1953 e 1973, realizando experimentos de controle mental em seres humanos sem consentimento. Os métodos incluíam administração de LSD, eletrochoques, hipnose forçada e privação sensorial. O programa foi exposto em 1977 durante investigações do Senado americano.

Quando a nova série de David Chase estreia?

A série ainda não tem data de estreia confirmada. O projeto foi anunciado em 2025 e está em desenvolvimento na HBO. Considerando o ritmo de produção de Chase, uma estreia provável seria em 2027.

Onde assistir a nova série do criador de ‘Família Soprano’?

A série será exclusiva da HBO/HBO Max. A plataforma foi a mesma que apostou em ‘Família Soprano’ em 1999 e mantém parceria histórica com David Chase.

Qual a relação entre MKUltra e a série ‘Ruptura’?

A série de David Chase sobre o MKUltra é chamada de “versão real” de ‘Ruptura’ porque ambos tratam de controle mental e fragmentação de identidade. A diferença: em ‘Ruptura’ é ficção científica corporativa; no MKUltra, a CIA tentou fazer algo similar com drogas e tortura psicológica por duas décadas.

David Chase criou alguma série depois de ‘Família Soprano’?

Não. ‘Família Soprano’ encerrou em 2007 e Chase passou 18 anos sem criar nova série para TV. Nesse período, dirigiu apenas o filme ‘Not a Pretty Picture’ (2021). Esta será sua primeira série desde o finale controverso que deixou Tony Soprano na tela preta.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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