Em ‘Normal’, Bob Odenkirk revisita a fórmula de ‘Chumbo Grosso’ com tom mais sombrio e menos comédia. Analisamos como o thriller funciona como “sequela espiritual” e por que a premissa peixe-fora-d’água continua eficaz quase duas décadas depois.
Existe um tipo específico de filme que parece nascer de uma conversa de bar entre cineastas: “E se a gente pegasse essa premissa clássica e fizesse algo completamente diferente com ela?” Foi assim que Edgar Wright criou ‘Chumbo Grosso’ em 2007 — uma homenagem ao cinema de ação britânico disfarçada de comédia de policiais pequeno-municipais. Agora, quase duas décadas depois, ‘Normal’ chega com Bob Odenkirk no comando, funcionando como uma resposta americana a essa mesma ideia. A coincidência estrutural é grande demais para ignorar.
O paralelo não é sutil. Em ‘Chumbo Grosso’, Simon Pegg interpreta Nicholas Angel, um policial londrino exemplar transferido para o interior onde, teoricamente, nada acontece. Em ‘Normal’, Odenkirk vive Ulysses, um policial que se muda para uma cidadezinha de Minnesota buscando paz — e encontra exatamente o oposto. A estrutura é quase idêntica: peixe fora d’água, cidade pacata com segredos sombrios, conspiração que envolve toda a população. Mas a execução revela como dois cineastas diferentes abordam o mesmo material.
Onde ‘Normal’ se distancia de ‘Chumbo Grosso’
A diferença mais óbvia está no equilíbrio de gêneros. Wright construiu ‘Chumbo Grosso’ como uma comédia que explode em ação — os primeiros atos são praticamente um pastiche de comédia britânica de costumes, com Angel aprendendo a conviver com a letargia policial rural. Os tiroteios no final funcionam como catarse, mas o filme nunca abandona o humor como elemento central.
‘Normal’ inverte essa equação. Odenkirk, que provou em ‘Nobody’ e em sua jornada como Saul Goodman que sabe carregar tensão sem esforço, entrega um thriller de ação que usa elementos cômicos como tempero, não como prato principal. Há algo mais sombrio na forma como Ulysses descobre a conspiração de Normal — menos pastelão, mais perturbador.
Isto não é crítica nem elogio; é observação sobre intenção. Wright queria fazer rir enquanto homenageava Michael Bay e Michael Mann. O filme de Odenkirk parece mais interessado em explorar o que acontece quando um homem que buscou isolamento se vê forçado a voltar à violência que tentou deixar para trás.
A transição que Simon Pegg abriu caminho
Há uma camada metatextual fascinante aqui. Quando Pegg fez ‘Chumbo Grosso’, ele era conhecido primariamente como comediante — a sitcom ‘Spaced’ e o cult ‘Todo Mundo Quase Morto’ o haviam estabelecido como figura do humor britânico. Ver Pegg manejando armas e saltando por cercas vivia no território do absurdo proposital.
Odenkirk trilha caminho similar, mas com diferença crucial. Sua carreira no comedy writing e no ‘Mr. Show’ estabeleceu credenciais cômicas sólidas, mas foi ‘Better Call Saul’ que demonstrou sua capacidade de carregar drama genuíno. Quando ele pega uma arma em ‘Normal’, o público já viu o que ele pode fazer como ator dramático. A transição funciona de forma diferente — menos surpreendente, talvez, mas mais fundamentada.
Em ambos os filmes, o protagonista usa a mudança para o interior como oportunidade de autoconhecimento. Angel aprende a relaxar, a não ser obsessivo compulsivo com trabalho. Ulysses busca algo parecido — uma vida mais simples, menos definida por conflito. A ironia, nos dois casos, é que essa busca por paz coloca ambos no centro de conspirações violentas. O que você foge, te encontra.
A fórmula que funciona quando bem executada
A premissa “policial urbano vai para cidade pequena e descobre conspiração” não foi inventada por Wright. O que ‘Chumbo Grosso’ fez de eficaz foi reconhecer que essa estrutura permite dois prazeres simultâneos: a descontração do “peixe fora d’água” e a explosão do terceiro ato recheado de ação.
O problema é quando filmes copiam a estrutura sem entender o que a torna eficaz. ‘Normal’ escapa dessa armadilha porque compreende que o contraste entre paz e violência precisa ser construído com paciência. Se o público não acreditar que Ulysses realmente quer uma vida tranquila, a reviravolta perde impacto.
Odenkirk consegue isso com economia de gestos. Na sequência inicial, quando Ulysses atravessa a cidade pela primeira vez, há um cansaço em seus olhos que comunica anos de trabalho policial desgastante. A fotografia acompanha esse tom — cores desbotadas, enquadramentos amplos que enfatizam o isolamento. Não precisamos de flashback expositivo; o ator carrega a história do personagem no corpo.
A “sequela espiritual” que provavelmente nunca teremos oficialmente
Simon Pegg já deixou claro: não há interesse em ‘Chumbo Grosso 2’. Em 2023, ele disse que acha “preguiçoso” o público pedir sequências de filmes que já contaram histórias completas. A posição é compreensível, até admirável em uma indústria obcecada com franquias infinitas.
Mas isso cria um vácuo. A premissa de ‘Chumbo Grosso’ — um policial descobrindo que uma cidade idílica esconde segredos mortais — pede variações. Não uma sequência direta com Nicholas Angel, mas explorações do mesmo conceito em contextos diferentes.
‘Normal’ preenche esse vácuo de forma competente. É o mais próximo que teremos de uma continuação temática, com a diferença crucial: o diretor não é Edgar Wright e o protagonista não é Simon Pegg. Isso significa que perde os “Cornetto-isms” — aqueles cortes rápidos característicos, a edição sincronizada com música, o humor visual denso. Em troca, ganha algo mais americano, mais direto, menos estilizado mas possivelmente mais acessível para públicos que acharam Wright excessivamente “enfeitado”.
Veredito: Para quem é ‘Normal’?
Se você é fã devoto da trilogia Cornetto e considera ‘Chumbo Grosso’ inigualável, ‘Normal’ pode decepcionar pela ausência do estilo Wright. A edição não tem o mesmo virtuosismo, o humor não é tão densamente construído, as referências pop não são tão elaboradas.
Mas se você consegue separar execução de premissa, há valor aqui. Odenkirk carrega o filme com presença física inesperada para alguém de sua formação em comédia. A conspiração, embora siga beats familiares, entrega reviravoltas próprias. E há prazer genuíno em ver uma estrutura que funciona aplicada com competência, mesmo que sem o brilho do original.
‘Normal’ não vai substituir ‘Chumbo Grosso’ no panteão dos grandes thrillers de ação-comédia. Mas funciona como prova de que boas premissas sobrevivem a diferentes intérpretes — e que Bob Odenkirk, aos 60 e poucos anos, está construindo uma fase de carreira de ação mais interessante do que muitos atores metade de sua idade.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Normal’
Onde assistir ‘Normal’ com Bob Odenkirk?
‘Normal’ está disponível em plataformas de streaming. Verifique Amazon Prime Video, Apple TV+ ou serviços de aluguel digital para disponibilidade atual na sua região.
‘Normal’ é uma sequência de ‘Chumbo Grosso’?
Não. ‘Normal’ não tem conexão oficial com ‘Chumbo Grosso’. A comparação existe porque ambos compartilham a mesma premissa estrutural: policial urbano se muda para cidade pequena e descobre uma conspiração. É uma “sequela espiritual”, não uma continuação direta.
Quanto tempo dura ‘Normal’?
‘Normal’ tem aproximadamente 1 hora e 45 minutos de duração. O ritmo é deliberadamente mais lento nos primeiros atos, acelerando no terço final — estrutura similar a ‘Chumbo Grosso’.
Para quem ‘Normal’ é recomendado?
‘Normal’ é recomendado para fãs de Bob Odenkirk em ‘Nobody’ e ‘Better Call Saul’, e para quem aprecia thrillers de conspiração com ritmo paciente. Se você busca comédia no estilo Edgar Wright, pode se decepcionar — o tom aqui é mais sombrio e direto.

