A Netflix enviou carta de cessar e desistir à ByteDance após vídeos gerados por IA de ‘Stranger Things’ e outras séries aparecerem no Seedance 2.0. Analisamos as quatro exigências da streaming e a contradição de Hollywood, que licencia IA para parceiros enquanto processa concorrentes.
A Netflix e ByteDance entraram em rota de colisão. Na última terça-feira (17), a gigante do streaming enviou uma carta de cessar e desistir à dona do TikTok após vídeos gerados por inteligência artificial de suas séries mais valiosas — ‘Stranger Things’, ‘Guerreiras do K-Pop’, ‘Bridgerton’ e ‘Squid Game’ — aparecerem no Seedance 2.0, ferramenta de IA generativa da empresa chinesa que cria vídeos a partir de comandos de texto.
Não é um movimento isolado. Warner Bros., Disney e Paramount enviaram notificações semelhantes. A MPA (Motion Picture Association) e o Sindicato de Atores (SAG-AFTRA) entraram na discussão classificando a prática como “infringimento de copyright flagrante”. O que parece uma notícia de negócios é, na verdade, o desfecho que Hollywood tentou adiar até não poder mais.
Por que a Netflix decidiu agir agora
A carta, assinada pela chefe de litígios Mindy LeMoine, é direta: “A Netflix nunca autorizou a ByteDance a usar nosso conteúdo para gerar estas imagens ou vídeos. As atividades da ByteDance são intencionais e constituem infringimento direto e secundário de direitos autorais.” Em termos práticos: vocês estão usando o que é nosso para construir um produto comercial concorrente, e isso não é “uso justo” — muito menos quando o resultado é uma regurgitação do original.
O detalhe que importa: a Netflix não está apenas pedindo para parar. Ela estabeleceu um prazo de três dias e quatro exigências específicas — implementar barreiras tecnológicas que impeçam a geração de conteúdo com seus personagens e cenários; remover todo material protegido dos datasets de treinamento; apagar todos os vídeos já gerados com IPs da empresa; e fornecer uma contabilidade completa de todas as vezes que o Seedance produziu conteúdo baseado em prompts relacionados às suas séries.
Três dias. Em termos corporativos, isso é um ultimato com temporizador.
O que as greves de 2023 já avisavam sobre essa guerra
Se você acompanhou as greves de roteiristas e atores em 2023 e 2024, isso soa familiar. Uma das pautas centrais do WGA e do SAG-AFTRA era justamente o uso não regulamentado de IA nos processos de produção. Os estúdios, na época, empurravam para integrar cada vez mais inteligência artificial nos fluxos de trabalho — cortando custos, reduzindo talento humano onde fosse possível.
A Disney e Universal foram as primeiras a se mexer contra apps como Midjourney em junho de 2025. Foi o momento em que Hollywood percebeu que a tecnologia que tanto queria domesticar internamente estava sendo usada externamente para canibalizar suas propriedades. A diferença entre “IA como ferramenta de produção” e “IA como máquina de plagiar” está em quem controla o botão.
Disney processa ByteDance mas licencia para OpenAI
Enquanto Disney e Paramount assinam cartas de cessar e desistir contra a ByteDance, a Disney fechou um acordo com a OpenAI, permitindo legalmente que suas IPs sejam usadas pelas ferramentas generativas da empresa. O problema não é IA generativa em si — é quem lucra com ela.
Isso coloca a indústria em uma posição moralmente complicada. Se a tecnologia é suficientemente boa para ser licenciada quando o contrato é vantajoso, por que seria “plágio flagrante” quando usada sem permissão? A resposta legal é clara, mas a questão ética permanece: Hollywood está aprendendo que, uma vez que a tecnologia existe, controlar quem a usa e como é um jogo de poder, não de princípios.
O fim da era de gerar Eleven e Squid Game livremente
A ByteDance, em comunicado anterior sobre ações da Disney e Paramount, disse estar “tomando medidas para fortalecer as salvaguardas atuais enquanto trabalhamos para prevenir o uso não autorizado de propriedade intelectual e semelhanças por usuários.” A resposta padrão de quem foi pego em violação, mas ainda tem advogados para negociar.
O cenário mais provável? Apps de IA começarão a implementar sistemas de detecção de copyright semelhantes aos do YouTube — bloqueando automaticamente prompts que envolvam personagens ou cenários protegidos. Mas isso cria um paradoxo técnico: como a IA “sabe” o que é protegido se não foi treinada com esse material?
Para criadores independentes e consumidores comuns, a batalha entre Netflix e ByteDance é um ensaio do que vem aí. Obras em domínio público permanecerão disponíveis. Mas a era de gerar livremente versões de Eleven de ‘Stranger Things’ ou cenas de ‘Squid Game’ em plataformas de IA está chegando ao fim — pelo menos nas empresas que não fecharam contratos com os donos dos direitos.
O prazo de três dias dado pela Netflix vence nesta semana. O que acontecerá depois — processo judicial ou negociação — definirá o tom dessa conversa por um bom tempo.
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Perguntas Frequentes sobre a disputa Netflix e ByteDance
O que é o Seedance 2.0 da ByteDance?
Seedance 2.0 é uma ferramenta de inteligência artificial generativa desenvolvida pela ByteDance que cria vídeos a partir de comandos de texto. Funciona de forma similar a outras IA de geração de vídeo, permitindo que usuários descrevam cenas e recebam vídeos correspondentes.
Quais séries da Netflix foram usadas sem autorização?
A carta de cessar e desistir menciona ‘Stranger Things’, ‘Guerreiras do K-Pop’ (K-Pop Demon Hunters), ‘Bridgerton’ e ‘Squid Game’ como as propriedades intelectuais que apareceram em vídeos gerados pelo Seedance 2.0.
O que a Netflix exigiu da ByteDance?
A Netflix estabeleceu quatro exigências com prazo de três dias: implementar barreiras tecnológicas contra geração de conteúdo com seus IPs; remover material protegido dos datasets de treinamento; apagar vídeos já gerados com suas propriedades; e fornecer contabilidade completa de todas as vezes que o Seedance produziu conteúdo relacionado às suas séries.
A ByteDance é dona do TikTok?
Sim. A ByteDance é a empresa chinesa proprietária do TikTok e de outras plataformas de conteúdo, incluindo o desenvolvedor da ferramenta de IA Seedance.
O que acontece se a ByteDance não cumprir o prazo?
Se a ByteDance não atender às exigências no prazo, a Netflix pode entrar com processo judicial por violação de direitos autorais. O caso pode resultar em indenizações e liminares obrigando a remoção do conteúdo.

