‘Nerve’: por que este techno-thriller de 2016 merece ser resgatado

Analisamos como ‘Nerve: Um Jogo Sem Regras’ antecipou a cultura de challenges virais e a obsessão por validação digital. O techno-thriller de 2016 envelheceu como profecia — e hoje é mais relevante do que nunca.

Existem filmes que nascem na época errada. Não porque são ruins — mas porque o mundo ainda não estava pronto para a conversa que eles queriam iniciar. ‘Nerve: Um Jogo Sem Regras’ chegou em 2016 como um thriller adolescente com visual neon e premissa de videogame. Parecia mais um produto da máquina de YA (Young Adult) que dominava o início da década. Mas algo diferente aconteceu: ele envelheceu como vinho barato que surpreende no paladar.

Hoje, quase uma década depois, o filme de Henry Joost e Ariel Schulman — os mesmos realizadores de ‘Catfish’, aquele documentário que expôs identidades falsas online antes de virar termo genérico — funciona como um documento involuntário de uma era que mal começava. A cultura de watchers e players, de likes como moeda social, de gente disposta a tudo por validação digital — tudo isso que o filme retrata virou… bem, virou nossa rotina.

A premissa que virou profecia — e hoje parece documentário

A premissa que virou profecia — e hoje parece documentário

O conceito de ‘Nerve: Um Jogo Sem Regras’ é simples e genial: um aplicativo anônimo onde você escolhe ser “jogador” ou “observador”. Jogadores recebem desafios e ganham dinheiro ao completá-los. Observadores pagam para assistir e votam nos próximos desafios. A cada rodada, a aposta sobe. A adrenalina também.

Se isso soa familiar, não é coincidência. O filme antecipou a explosão de streamers fazendo “content houses”, challenges virais no TikTok, pessoas arriscando a vida por views. A diferença? Em 2016, parecia ficção exagerada. Em 2026, parece documentário com orçamento de Hollywood.

A protagonista Vee, interpretada por Emma Roberts, é uma garota tímida que entra no jogo por impulso adolescente — aquela vontade de provar que você é mais do que os outros acham. O primeiro desafio? Beijar um estranho. Ela escolhe Ian (Dave Franco) no bar, e os dois viram uma dupla involuntária no jogo. A química nasce ali, no constrangimento compartilhado, e o filme sabe usar isso com inteligência.

Emma Roberts e Dave Franco: o elenco que salva o roteiro de seus furos

Falar de Emma Roberts é reconhecer que ela tem um dom específico: a capacidade de fazer você torcer por personagens que, na teoria, seriam irritantes. Há algo em sua expressão — uma mistura de vulnerabilidade e teimosia — que funciona perfeitamente para Vee. Ela não é uma heroína de ação, nem uma adolescente rebelde clichê. É uma garota comum tomando decisões ruins por motivos compreensíveis.

Dave Franco, por sua vez, carrega o filme com um carisma que vai além do “namorado bonito”. Ian tem camadas que o roteiro nem sempre explora, mas Franco preenche as lacunas com escolhas de atuação sutis. Quando ele olha para Vee durante os desafios mais perigosos, você vê medo genuíno — não o medo de morrer, mas o medo de arrastar alguém inocente para o abismo.

O elenco de apoio merece mais reconhecimento do que recebeu. Machine Gun Kelly (creditado como Colson Baker) entrega um antagonista que funciona como espelho distorcido do que vilão tradicional. Samira Wiley, vinda de ‘Orange Is the New Black’, traz gravidade para uma subtrama que poderia ser descartável. E Juliette Lewis, como a mãe de Vee, entrega algo raro em thrillers adolescentes: um adulto que não é idiota nem ausente.

Fotografia neon e a sequência de moto que define o filme

Fotografia neon e a sequência de moto que define o filme

Uma das coisas que ‘Nerve: Um Jogo Sem Regras’ faz excepcionalmente bem é criar uma identidade visual própria. A fotografia de Michael Simmonds brinca com neon e escuridão, com a cidade de Nova York servindo como tabuleiro de jogo. Há algo proposital na forma como os ambientes mudam conforme os desafios escalam — começamos em bares e ruas movimentadas, terminamos em prédios abandonados e becos sem saída.

A sequência da moto vendada merece menção específica. Por quase três minutos, a câmera fica presa no rosto de Ian enquanto ele dirige às cegas, com Vee gritando instruções do banco de trás. Não há cortes rápidos, não há truques de edição — apenas tensão pura construída através de uma escolha de direção corajosa. Eu literalmente segurei a respiração. Funciona porque o filme investiu tempo suficiente nos personagens para que você se importe com o resultado.

A trilha sonora também acerta. “Electric Love” do BØRNS toca em um momento específico que transforma uma cena de “dois jovens se conectando” em algo quase etéreo. Não é música de fundo genérica — é parte da narrativa emocional. O uso de “C.R.E.A.M.” do Wu-Tang Clan durante um dos desafios mais tensos cria um contraste irônico que funciona surpreendentemente bem.

Por que envelheceu como profecia digital

Aqui está onde ‘Nerve: Um Jogo Sem Regras’ se destaca do pacote de thrillers esquecidos: ele não tenta ser atemporal. Ele abraça sua era com tanta convicção que acaba se tornando um marco. O visual é inconfundivelmente meados dos 2010 — os filtros de Instagram incorporados à estética, os smartphones como extensão dos corpos, a forma como a interface do app se mistura à diegese do filme.

Muitos críticos na época chamaram isso de datado. Eu discordo completamente. O que eles viram como “produto de seu tempo”, eu vejo como documento honesto. Filmes que tentam ignorar a tecnologia envelhecem mal porque ficam datados de forma acidental. Filmes que encaram a tecnologia de frente envelhecem como registros deliberados de um momento histórico.

Além disso, o filme faz algo que poucos thrillers adolescentes ousam: ele não subestima seu público. A crítica à cultura de vigilância digital, à monetização da intimidade, à forma como observadores anônimos se sentem donos da vida alheia — tudo isso está presente, mas nunca de forma didática ou moralista. O filme confia que você vai conectar os pontos.

Veredito: imperfeito, mas mais relevante hoje do que em 2016

‘Nerve: Um Jogo Sem Regras’ não é perfeito. O terceiro ato acelera demais, algumas reviravoltas são previsíveis, e a resolução final tem um otimismo que parece forçado dado o que veio antes. Mas esses defeitos são menores diante do que o filme acerta: premissa afiada, elenco comprometido, visual distinto, e uma relevância que só cresceu com o tempo.

Para quem gosta de thrillers que funcionam como espelho social, é uma recomendação fácil. Se você curte ‘Black Mirror’ mas prefere algo menos pessimista, esse é seu filme. Se a ideia de “techno-thriller adolescente” te faz revirar os olhos, entendo — mas dê uma chance. Você pode se surpreender com o que encontra por baixo do rótulo.

Eu assisti pela primeira vez em 2016, achando que seria um passatempo esquecível. Reassisti em 2026 e percebi que tinha subestimado algo especial. Às vezes, os filmes que subestimamos são os que mais têm a nos dizer — só precisamos estar prontos para ouvir.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Nerve: Um Jogo Sem Regras’

Onde assistir ‘Nerve: Um Jogo Sem Regras’?

‘Nerve’ está disponível na Netflix em vários territórios, e pode ser alugado ou comprado em plataformas como Amazon Prime Video, Apple TV e Google Play. A disponibilidade varia conforme a região.

Quanto tempo dura ‘Nerve: Um Jogo Sem Regras’?

O filme tem 1 hora e 36 minutos de duração. O ritmo é ágil e não há momentos de preenchimento — cada cena avança a trama ou desenvolve os personagens.

‘Nerve’ é baseado em livro?

Sim, é adaptação do romance homônimo de Jeanne Ryan, publicado em 2012. O filme mantém a premissa central, mas faz mudanças na estrutura e no desfecho.

Qual a classificação indicativa de ‘Nerve’?

No Brasil, o filme recebeu classificação de 14 anos por conter temas intensos, linguagem imprópria, consumo de drogas e situações de perigo. Nos EUA, é PG-13.

‘Nerve’ tem cenas pós-créditos?

Não. O filme tem uma resolução conclusiva e não há cenas durante ou após os créditos finais.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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