‘Naruto’: o vídeo do 20º aniversário prova que um remake seria um erro

O vídeo ‘Road to Naruto’ funciona como teste de laboratório: ao reanimar cenas clássicas com estética digital moderna, demonstra por que um Naruto remake perderia a identidade visual que define os personagens. Análise técnica de como a textura tradicional é parte inseparável da obra.

Em 2022, a Pierrot lançou “Road to Naruto”, um vídeo de quase 10 minutos reanimando cenas icônicas da série com estética digital moderna. A intenção era celebrar duas décadas de uma das obras mais importantes do anime. O resultado, no entanto, foi outro: demonstrou exatamente por que um Naruto remake seria um erro artístico. Não por falta de competência técnica — a animação é fluida, os movimentos são precisos. Mas porque algo essencial se perde quando você aplica linhas finas e cores lavadas em personagens que nasceram da animação tradicional.

O vídeo funciona como um teste de laboratório. Nele, vemos Naruto, Sasuke, Sakura e Kakashi reimaginados com a estética de ‘Boruto: Naruto Next Generations’. Há um momento específico que expõe o problema: a recriação da luta contra Zabuza. Em movimento, durante os clássicos selos de mão e os jutsus de água, o visual impressiona — a fluidez é superior ao original. Mas quando a câmera aproxima do rosto de Naruto, quando precisamos reconhecer aquele garoto que aprendeu a andar em árvores na primeira missão, a sensação é de estranhamento. Não é nostalgia cega falando — é uma constatação técnica de que a identidade visual de uma obra não é apenas “estilo”, é parte fundamental de quem aqueles personagens são.

Por que um remake de Naruto perderia a alma da obra original

Naruto estreou em 2002, num momento de transição na indústria de anime. A animação ainda era fortemente influenciada pela tradição de células desenhados à mão — mesmo quando a produção já começava a migrar para o digital. Isso significa traços mais grossos, cores mais saturadas, uma textura visual que hoje chamamos de “suja”, mas que na verdade era orgânica. Os personagens de Kishimoto foram desenhados pensando nessa linguagem. Naruto não é apenas um garoto loiro de roupas laranjas — é uma construção visual que depende de linhas mais pesadas, sombras mais dramáticas, uma certa aspereza que combina com seu mundo de ninjas.

A estética digital moderna, popularizada por sucessos como ‘Jujutsu Kaisen’ e ‘Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba’, opera com princípios diferentes. Linhas mais finas, paletas de cores mais sutis, contraste mais acentuado. Funciona para obras criadas nessa era — ‘Jujutsu Kaisen’ foi desenhado desde o mangá pensando nessa linguagem. Mas transpor isso para Naruto é como refilmar ‘Cowboy Bebop’ com a linguagem visual de uma série da Netflix — tecnicamente possível, artisticamente questionável. O charme da obra original não é um defeito a ser corrigido. É uma escolha estética que define a experiência.

O experimento involuntário que já provou isso

Não precisamos especular sobre como Naruto ficaria com visual moderno. A Pierrot já fez esse teste — e o resultado foi desconfortável. No arco de viagem no tempo de ‘Boruto’, quando o protagonista encontra a versão jovem de seu pai, vimos Naruto de 13 anos desenhado com a estética da série derivada. O efeito foi bizarro. Aquele não parecia o mesmo personagem que cresceu conosco nos anos 2000 — parecia um cosplayer digital, uma versão esterilizada de algo que já tinha personalidade própria.

Existe uma razão para isso. Quando assistimos a um anime por anos, internalizamos não apenas a história, mas a textura visual. O modo como a luz incide no rosto do personagem, a forma como as linhas definem expressões, até mesmo a “imperfeição” de certos frames — tudo isso constrói nossa conexão emocional. Trocar isso por uma estética mais “refinada” não é upgrade. É uma quebra de contrato com a memória do espectador. E memória, em arte, não é apenas saudade — é parte da obra.

Os 4 episódios novos: um teste de conceito arriscado

Desde 2022, a Pierrot promete quatro episódios inéditos situados na primeira fase de Naruto, com animação moderna. O projeto já foi adiado múltiplas vezes — oficialmente, por questões de “qualidade”. Mas é difícil não suspeitar que o estúdio percebeu o problema: esses episódios correm o risco de ser visualmente dissonantes de tudo o que amamos. A promessa é voltar ao passado, ver missões inéditas do Time 7 original. A realidade pode ser assistir personagens que parecem estranhos em sua própria pele.

O maior risco aqui é imersão. A vantagem de produzir conteúdo ambientado no passado é justamente o apelo nostálgico. Mas nostalgia depende de reconhecimento. Se os personagens parecem diferentes, se o mundo visual não corresponde à nossa memória, o efeito é o oposto: somos lembrados constantemente de que algo mudou. Em vez de mergulhar na história, somos expulsos dela a cada frame. Isso não é preservação de legado — é rebranding de algo que não precisava ser rebrandeado.

O que realmente faria sentido (e não é um remake)

Se a Pierrot quer revitalizar Naruto para novas audiências, existe um caminho melhor: um projeto estilo “Naruto Kai”. Uma versão condensada que elimina os episódios filler e foca exclusivamente nos arcos canônicos, com ritmo acelerado. Esse formato até poderia justificar uma animação modernizada, já que seria predominantemente sequências de ação — onde o visual digital brilha. Mas um remake integral? Isso ignora que Naruto não é ‘ONE PIECE: A Série’, ainda em andamento com audiência massiva. O público para um remake seria nicho: fãs antigos que provavelmente preferem o original, e novos espectadores que poderiam simplesmente… assistir o original.

No fim, o vídeo do 20º aniversário foi um presente honesto. Mostrou o que um remake seria: tecnicamente competente, visualmente polido, emocionalmente oco. Naruto não precisa ser “atualizado” para 2026. Precisa ser preservado como é — uma obra de sua época, com as imperfeições e os encantos que definem sua identidade. Às vezes, a melhor homenagem a um clássico é deixá-lo clássico.

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Perguntas Frequentes sobre Naruto Remake

O vídeo do 20º aniversário de Naruto tem quantos minutos?

“Road to Naruto”, o vídeo do 20º aniversário, tem aproximadamente 10 minutos. Foi lançado em outubro de 2022 pela Pierrot e reanima cenas icônicas de toda a série com estética digital moderna.

Naruto vai ter remake completo?

Não há anúncio oficial de remake completo de Naruto. A Pierrot confirmou apenas quatro episódios inéditos ambientados na primeira fase do anime, com animação moderna, mas o projeto já foi adiado múltiplas vezes desde 2022.

O que são os 4 episódios novos de Naruto prometidos?

Os 4 episódios novos são uma produção da Pierrot que trará missões inéditas do Time 7 original, situadas na primeira fase de Naruto (pré-time skip). A animação será moderna, similar à de ‘Boruto’. A data de lançamento ainda não foi confirmada.

Por que a estética de Boruto é diferente de Naruto?

‘Boruto’ usa estética digital moderna: linhas mais finas, cores mais sutis e maior contraste. Naruto original (2002-2017) foi produzido em transição da animação tradicional para digital, mantendo traços mais grossos e cores saturadas — uma escolha visual que define a identidade dos personagens.

O que é Naruto Kai?

“Naruto Kai” é um projeto de fãs que condensa o anime removendo fillers e focando apenas nos arcos canônicos do mangá. Existe versão feita pela comunidade disponível online. Alguns defendem que a Pierrot deveria adotar esse formato oficialmente em vez de um remake.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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