Das joias ocultas canceladas precocemente aos fenômenos mainstream, mapeamos o gênero cyberpunk na TV — incluindo séries que você nem sabia que eram cyberpunk, como ‘Mr. Robot’ e ‘Batman do Futuro’. Um guia para quem quer explorar o lado sombrio da ficção científica televisiva.
Quando ‘Mr. Robot’ estreou em 2015, muita gente viu apenas um thriller sobre hackers com ritmo imprevisível e um protagonista sociável quanto um gato bravo. Mas os sinais estavam todos lá — a megacorporação onipotente, a tecnologia como ferramenta de opressão, o anti-herói lutando contra um sistema que ele próprio sustenta. ‘Mr. Robot’ é cyberpunk puro, só que vestido com roupas de drama psicológico contemporâneo. E essa é a beleza do gênero: ele se disfarça, se reinventa, e às vezes você nem percebe que está assistindo a uma obra-prima do cyberpunk até reconhecer que o protagonista usa capuz preto e quer derrubar o império corporativo que controla o mundo.
O cyberpunk nasceu na literatura dos anos 80 com uma premissa desconfortável: e se a tecnologia, em vez de nos libertar, criar novas formas de controle social? E se o futuro não for brilhante e metálico, mas sim uma distopia urbana onde megacorporações mandam mais que governos? A resposta do gênero é consistentemente pessimista — e assustadoramente presciente. As melhores séries cyberpunk não são ficção científica escapista; são espelhos deformados do presente, onde nossos medos sobre vigilância, desigualdade e identidade digital ganham carne e osso.
Mr. Robot: o cyberpunk que você já viu sem saber
Vou ser honesto: quando ‘Mr. Robot’ começou, eu estava cético. A ideia de um drama sobre hacking soava como mais uma série que usaria termos técnicos como enfeite — o equivalente televisivo de “reforçar o firewall” em filmes de ação genéricos. Mas Sam Esmail não brincava. Ele construiu uma narrativa onde cada frame respira a estética cyberpunk: a fotografia granulada, os ângulos desconfortáveis que deixam personagens isolados em cantos do enquadramento, a sensação constante de que alguém está observando. E aquele plot twist no final da primeira temporada? Subversivo no melhor sentido possível.
O que torna ‘Mr. Robot’ singular no gênero é sua ambição temática. A série não se contenta em mostrar corporações más e hackers heroicos — ela questiona se a destruição do sistema é possível, ou se cada revolução apenas gera um novo tirano. Elliot Alderson, interpretado por Rami Malek com aqueles olhos arregalados e tiques nervosos que se tornaram marca registrada, é um protagonista que duvida da própria sanidade enquanto tenta salvar o mundo. Essa tensão entre missão heroica e instabilidade mental cria algo raro: um cyberpunk que se importa mais com a psique humana do que com neons brilhantes.
Para fãs do gênero, ‘Mr. Robot’ funciona como uma ponte perfeita. Tem todos os elementos clássicos — a megacorporação E Corp, o grupo anarquista fsociety, a tecnologia como arma — mas apresentados de forma que qualquer espectador de drama consegue engolir. Não é coincidência que a série tenha trazido o cyberpunk para o mainstream sem que a maioria percebesse. É o gênero fazendo o que faz de melhor: infiltrar-se no sistema.
De Max Headroom a Ghost in the Shell: as raízes do gênero na TV
Antes de ‘Mr. Robot’ democratizar o cyberpunk para audiências que nunca leram William Gibson, outras séries já pavimentavam o caminho — algumas com mais sucesso comercial que outras. ‘Max Headroom’, por exemplo, era tão à frente de seu tempo que o público dos anos 80 não sabia o que fazer dela. A série seguia um jornalista em uma distopia controlada por televisão — sim, o streaming já era previsto em 1987 — cuja consciência é transferida para uma IA depois de um acidente. O visual da série, com seu protagonista de aparência artificial criado com maquiagem protética, é perturbador de uma forma que CGI jamais conseguiria replicar.
Há algo poeticamente adequado em ‘Max Headroom’ ter sido cancelada precocemente: uma série sobre controle midiático sendo sufocada pelas mesmas forças que criticava. Mas sua influência permanece. Aquele visual de “futuro dos anos 80” — telas de TV em todo lugar, publicidade agressiva, corporações substituindo governo — estabeleceu o vocabulário visual que cyberpunk usa até hoje. Quando você vê os neons de ‘Blade Runner’ ou a cidade poluída de ‘Cyberpunk 2077’, está vendo netos estéticos de Max Headroom.
No outro extremo do espectro, ‘Ghost in the Shell: Stand Alone Complex’ levou o gênero para seu território natural: o anime. A série expandiu o universo do filme original de 1995, acompanhando uma unidade de elite que investiga crimes cibernéticos em um mundo onde corpos podem ser trocados como roupas e mentes podem ser hackeadas. O que distingue ‘Stand Alone Complex’ é sua disposição em mergulhar fundo nas implicações filosóficas da tecnologia. Cada episódio levanta perguntas que demoram para digerir: o que define identidade quando sua consciência pode ser copiada? Um robô com emoções é menos humano que um humano sem empatia?
As joias ocultas que cancelamentos prematuros enterraram
Se existe um padrão triste nas séries cyberpunk, é o cancelamento precoce de obras que ousavam demais. ‘Dollhouse’, criada por Joss Whedon, é o exemplo canônico. A premissa soa bizarra no papel: uma organização apaga a personalidade de pessoas para “alugar” seus corpos com identidades artificiais para clientes ricos. Quer uma assassina? Uma namorada perfeita? Uma negociadora? A Dollhouse entrega. A série seguiu Echo, uma dessas “bonecas” que começa a reter memórias entre missões, questionando a natureza da autonomia e identidade.
O que ‘Dollhouse’ faz com precisão cirúrgica é transformar uma premissa high-concept em reflexão sobre objetificação. As bonecas são literalmente corpos sem dono — mas e quando começam a desenvolver consciência? A série foi cancelada após duas temporadas, mas ganhou status de cult justamente por abordar temas que a televisão convencional evitava. Hoje, com debates sobre IA, deepfakes e consentimento digital, ‘Dollhouse’ parece menos ficção científica e mais documentário de um futuro próximo.
‘Periféricos’ sofreu destino similar — uma única temporada que deixou cliffhangers irresolutos e fãs revoltados. Baseada no romance de William Gibson, o pai do cyberpunk literário, a série acompanhava uma jovem que descobre que o jogo de realidade virtual em que trabalha é, na verdade, uma conexão com um futuro real setenta anos à frente. A construção de mundo é impecável: dois futuros paralelos, um colapsando e outro utópico, conectados por tecnologia quântica. A cinematografia era cinematográfica no sentido literal — cada frame podia ser um still de filme. E então a Amazon cancelou, provando que megacorporações ruins não existem só na ficção.
Incorporated e Pantheon: realismo perturbador e animação subestimada
‘Incorporated’ merece mais atenção do que recebeu. A premissa é simples: em 2074, o mundo se dividiu entre Zonas Vermelhas — áreas sem lei — e Zonas Verdes, controladas por megacorporações. Um homem da Zona Vermelha se infiltra em uma corporação para resgatar a mulher que ama. O que poderia ser um thriller genérico se destaca pelo realismo assustador. A distopia de ‘Incorporated’ não é exagerada — é uma extensão lógica de tendências atuais. Corporações já têm mais poder que muitos governos; a série apenas acelera o processo.
O detalhe que me pegou desprevenido: os funcionários das Zonas Verdes aceitam sua servidão voluntariamente porque o alternativo é viver na Zona Vermelha. Não há rebeldes heroicos, apenas pessoas tentando sobreviver. Essa nuance moral — onde o mal não é monstro, é sistema — coloca ‘Incorporated’ no mesmo território desconfortável de ‘Black Mirror’ em seus melhores momentos.
‘Pantheon’, por outro lado, prova que animação não é sinônimo de simplificação. A série explora a hipótese da singularidade tecnológica — o momento em que a inteligência artificial supera a humana e se torna incontrolável. Dois gigantes de tecnologia desenvolvem métodos para upload de consciência, e um grupo de rebeldes tenta impedir que a humanidade se torne obsoleta. O visual é estilizado, mas os temas são densos: identidade, mortalidade, o que significa ser humano quando sua mente pode existir sem seu corpo. É uma pena que a série permaneça subterrânea — é um dos melhores sci-fi da década, cyberpunk ou não.
Edgerunners e Humans: quando o cyberpunk conquista o mainstream
‘Cyberpunk: Edgerunners’ fez algo que poucas adaptações conseguem: transcender a fonte original. Baseada no jogo ‘Cyberpunk 2077’, a série de anime acompanha um jovem que se torna mercenário ilegal para sobreviver em uma cidade onde megacorporações drenam a vida dos pobres para alimentar os ricos. O visual é explosivo — literalmente, com cores neon e violência estilizada — mas por baixo da superfície brilhante está uma história desesperada sobre tentar escapar de um sistema que digere pessoas.
O que distingue ‘Edgerunners’ de outros cyberpunk é sua disposição em ser visceralmente emotivo. A maioria do gênero mantém distância emocional — protagonistas cínicos, finais ambíguos, moralidade cinza. ‘Edgerunners’ entrega um protagonista que você torce para vencer, mesmo sabendo que o gênero raramente permite vitórias. O resultado é um dos melhores anime dos últimos anos, e certamente a melhor encarnação do gênero em formato de série.
Do outro lado do espectro tonal, ‘Humans’ oferece cyberpunk silencioso. A série acompanha “synths” — robôs humanoides que servem humanos em tudo, de tarefas domésticas a serviços íntimos. Quando alguns synths começam a demonstrar consciência, a sociedade precisa confrontar a questão: eles têm direitos? Podem ser abusados? São pessoas? ‘Humans’ evita explosões e perseguições de alta tecnologia em favor de drama doméstico que gradualmente se torna perturbador. A pergunta central — em que ponto algo ganha humanidade? — é cyberpunk em sua forma mais pura.
Batman do Futuro: o super-herói que não sabia que era cyberpunk
Discutir ‘Batman do Futuro’ como cyberpunk pode parecer forçado, mas os elementos estão todos presentes. Gotham em 2019 — sim, a série previu o futuro com precisão irônica — é uma cidade controlada por corporações, onde um Bruce Wayne aposentado treina um novo Batman para combater o crime com tecnologia avançada. O traje de Terry McGinnis é literalmente uma interface cibernética que o conecta a sistemas da cidade. Os vilões incluem corporações corruptas e experimentos genéticos descontrolados.
O que ‘Batman do Futuro’ faz de forma notável é traduzir cyberpunk para uma linguagem que crianças absorvem sem perceber a densidade temática. Cada episódio apresenta distopia corporativa, ética tecnológica, identidade fraturada — tudo embrulhado em aventura de super-herói. A série permanece relevante não apesar de ser “só um desenho”, mas exatamente porque prova que complexidade temática não requer classificação etária adulta.
O veredito: por onde começar
Se você nunca explorou o gênero, ‘Mr. Robot’ é o ponto de entrada ideal — acessível, contemporâneo, com produção impecável. Se quer entender as raízes, ‘Ghost in the Shell: Stand Alone Complex’ é obrigatório, mas exija paciência: o ritmo é deliberado e a filosofia, densa. Para algo mais recente e visualmente impactante, ‘Cyberpunk: Edgerunners’ entrega tudo que o gênero promete em dez episódios intensos.
As joias ocultas — ‘Dollhouse’, ‘Incorporated’, ‘Pantheon’, ‘Periféricos’ — exigem disposição para finais interrompidos. O cancelamento precoce é quase uma tradição do gênero, talvez porque cyberpunk, por natureza, questiona os sistemas que financiam sua produção. Há uma ironia deliciosa em séries criticando megacorporações serem canceladas por megacorporações.
Uma advertência: o gênero não é para todos. Se você prefere otimismo tecnológico, finais felizes garantidos ou heróis claramente identificáveis, cyberpunk vai te frustrar. O gênero prospera em ambiguidade moral, em protagonistas que são tão problemáticos quanto os sistemas que combatem. Mas se você está disposto a mergulhar em histórias que questionam o presente através de futuros distópicos, essas séries cyberpunk oferecem algo que a ficção científica otimista não consegue: um espelho honesto de onde podemos estar indo.
E honestamente? Com a velocidade que IA, vigilância corporativa e desigualdade estão avançando, talvez seja hora de assistir menos como ficção e mais como documentário prematuro.
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Perguntas Frequentes sobre séries cyberpunk
‘Mr. Robot’ é considerada uma série cyberpunk?
Sim, embora não pareça à primeira vista. ‘Mr. Robot’ contém todos os elementos clássicos do gênero: megacorporação onipotente (E Corp), tecnologia como ferramenta de opressão, protagonista lutando contra o sistema, e questionamentos sobre identidade e controle. É cyberpunk vestido de drama psicológico contemporâneo.
Qual série cyberpunk devo assistir primeiro?
Se você é iniciante no gênero, ‘Mr. Robot’ é o ponto de entrada ideal — é acessível, contemporâneo e não exige conhecimento prévio de cyberpunk. Para algo mais visual e curto, ‘Cyberpunk: Edgerunners’ (10 episódios) entrega a essência do gênero com produção impecável.
Onde assistir ‘Cyberpunk: Edgerunners’?
‘Cyberpunk: Edgerunners’ está disponível exclusivamente na Netflix. É uma produção original da plataforma, lançada em setembro de 2022, com 10 episódios de cerca de 25 minutos cada.
Por que tantas séries cyberpunk são canceladas precocemente?
Há um padrão irônico: séries que criticam megacorporações tendem a ser canceladas por megacorporações. ‘Dollhouse’, ‘Periféricos’ e ‘Incorporated’ foram todas encerradas antes de suas histórias se completarem. O gênero, por natureza, questiona os sistemas que financiam sua produção — o que pode torná-lo comercialmente arriscado.
‘Humans’ é uma série cyberpunk?
Sim, ‘Humans’ é cyberpunk em sua forma mais silenciosa. A série acompanha robôs humanoides (“synths”) que começam a desenvolver consciência, abordando questões centrais do gênero: identidade, autonomia, e o que define humanidade. Diferente de outros cyberpunks, evita violência e ação em favor de drama doméstico perturbador.

