‘Mob City’: a joia escondida de Jon Bernthal e Frank Darabont que você provavelmente ignorou

Em ‘Mob City’, Frank Darabont reúne-se com Jon Bernthal para um noir de seis episódios que funciona como história completa. Analisamos por que essa série subestimada merece ser redescoberta — e como sua estrutura enxuta evita os problemas típicos de produções canceladas.

Jon Bernthal está em todos os lugares hoje. O Punisher da Marvel, o irmão autodestrutivo de Carmy em O Urso, o Shane que todos amaram odiar em The Walking Dead. Mas existe um projeto na filmografia dele que a maioria das pessoas passou direto — e é justamente um de seus melhores trabalhos. Estou falando de ‘Mob City’, a série que deveria ter sido um evento e terminou como uma curiosidade esquecida.

O culpado pelo esquecimento não foi a qualidade. Foi o timing, a divulgação equivocada e uma emissora que não sabia o que tinha nas mãos. Mas há um lado bom nisso: quem descobre ‘Mob City’ hoje encontra algo que poucas séries oferecem — uma história completa, coesa e visualmente precisa em apenas seis episódios. Sem fillers. Sem temporadas arrastadas esperando renovação. É cinema em formato de série, com direito a nomes pesados na condução criativa.

Frank Darabont e Jon Bernthal: a reunião que deveria ter sido lendária

Frank Darabont e Jon Bernthal: a reunião que deveria ter sido lendária

Se você assistiu às duas primeiras temporadas de The Walking Dead, sabe que Jon Bernthal fez de Shane um dos personagens mais complexos daquela fase inicial. O que muitos não percebem é que muito dessa complexidade veio da direção de Frank Darabont — sim, o mesmo cara de ‘Um Sonho de Liberdade’ e ‘À Espera de um Milagre’. Darabont entende atores de uma forma que poucos diretores entendem. Ele sabe dar espaço para que um performer construa camadas sem sufocar com instruções excessivas.

Quando Darabont foi demitido de The Walking Dead em circunstâncias controversas, ele não ficou chorando em canto. Montou ‘Mob City’ para a TNT e chamou Bernthal para liderar o elenco. Não foi coincidência. Foi um voto de confiança em um ator que ele sabia que carregava nas costas a profundidade necessária para um protagonista moralmente cinzento.

O resultado dessa parceria é evidente em cada frame. Joe Teague, o personagem de Bernthal, é um policial em Los Angeles nos anos 1940, preso entre o dever e a sobrevivência em uma cidade onde a linha entre lei e crime é borrada deliberadamente. Bernthal joga com o corpo todo — os ombros tensos, o olhar que nunca relaxa, a voz que carrega peso mesmo em sussurros. É um desempenho físico e interno ao mesmo tempo, do tipo que atores de método sonham em entregar.

Por que ‘Mob City’ funciona como história completa mesmo sendo “cancelada”

Aqui está o detalhe crucial que diferencia ‘Mob City’ de outras séries canceladas precocemente: Frank Darabont estruturou os seis episódios como uma narrativa fechada. Não é uma primeira temporada que termina em cliffhanger desesperado. É uma história com começo, meio e fim que se sustenta sozinha.

A TNT anunciou a série como um “evento de três semanas” — dois episódios por semana durante três semanas. Isso criou uma expectativa errada desde o início. O público esperava algo grandioso, um acontecimento midiático. O que receberam foi algo mais íntimo e denso, um noir psicológico que exige paciência e atenção. O marketing prometeu explosão; Darabont entregou combustão lenta. O descompasso matou a audiência.

Mas para quem chega sem expectativas fabricadas, a estrutura funciona. Cada episódio adiciona uma camada de complexidade ao mundo e aos personagens. Nada parece enchimento. Quando o último episódio termina, há uma sensação de resolução que raramente se encontra em séries canceladas no meio do caminho. É frustrante pensar no que poderia ter vindo depois, mas não há a sensação de ter sido deixado na mão.

Jeffrey DeMunn, Milo Ventimiglia e o elenco que vive o noir

Jeffrey DeMunn, Milo Ventimiglia e o elenco que vive o noir

Darabont tem uma vantagem que poucos showrunners têm: reputação. Quando seu nome está no projeto, atores querem participar. ‘Mob City’ beneficiou-se disso de forma generosa.

Jeffrey DeMunn, que trabalhou com Darabont em múltiplos projetos e também esteve em The Walking Dead, traz uma presença inquietante — há algo em seus olhos que sugere um homem que sabe demais e carrega esse peso em silêncio, como se cada palavra que ele pronuncia tivesse sido pesada antes. Milo Ventimiglia, anos antes de se tornar o Jack Pearson de ‘This Is Us’, mostra um lado completamente diferente de seu alcance dramático — aqui ele é ambicioso e perigoso, não o pai amoroso que o público conhece.

Robert Knepper, inesquecível como T-Bag em ‘Prison Break’, entrega outro vilão marcante — mas onde T-Bag era fisicamente ameaçador, aqui ele constrói ameaça através de calma e controle, como se a violência fosse uma decisão financeira, não emocional. Neal McDonough completa o time com aquele tipo de performance que ele entrega com facilidade enganosa — charme superficial escondendo algo podre por baixo.

O que impressiona não é apenas o nível individual de cada ator, mas como eles funcionam em conjunto. Há uma química que sugere ensaios extensivos e compreensão profunda do material. Ninguém parece estar “fazendo noir”. Todos parecem viver naquele mundo, respirando aquele ar carregado de fumaça de cigarro e moralidade duvidosa.

Visualmente, é um tributo ao noir que respeita a linguagem original

Film noir não é apenas um filtro escuro no cenário. É uma linguagem visual específica — sombras duras, composições que aprisionam personagens em geometrias opressivas, iluminação que revela tanto quanto esconde. ‘Mob City’ entende isso na veia.

A fotografia não é apenas “bonita” ou “atmosférica”. É funcional. Quando um personagem é dividido pela sombra, metade do rosto iluminada e metade no escuro, não é estética vazia — é a visualização do conflito interno que ele carrega. Há um momento no segundo episódio que exemplifica isso: uma conversa entre Teague e um informante num bar, onde a luz de um abajur divide o rosto de Bernthal ao meio. Enquanto ele ouve, metade de seu rosto permanece na penumbra — e a câmera não se move. Darabont nos força a olhar para essa divisão, a sentir a dualidade do personagem sem que uma palavra seja dita sobre isso.

O som também merece atenção. Há uma economia de trilha que funciona como contraponto ao visual expressionista — quando a música entra, é para pontuar, não para preencher. Os silêncios são tão calculados quanto as sombras, criando um sombreamento auditivo que acompanha o visual.

Darabont sempre teve olho para isso. Em ‘Um Sonho de Liberdade’, a luz dourada que banha certas cenas carrega significado emocional. Aqui, a escuridão faz o mesmo trabalho. A diferença é que enquanto os filmes de prisão de Darabont operam na esperança contra a opressão, ‘Mob City’ trabalha na zona cinza onde esperança é ingenuidade e sobrevivência custa pedaços da alma.

O motivo do esquecimento e por que isso pode mudar

Séries canceladas após uma temporada costumam carregar um estigma. “Se foi cancelada, deve ser ruim.” É um raciocínio preguiçoso que ignora a complexidade do mercado de televisão. ‘Mob City’ foi vítima de uma tempestade perfeita: emissora sem identidade clara com o material, formato de exibição confuso, e um público que naquela altura já começava a se sentir fatigado com a quantidade de séries “imperdíveis” surgindo todo mês.

Mas há algo acontecendo agora que pode reverter esse esquecimento: a estrela de Jon Bernthal continua subindo. Cada novo projeto de destaque dele traz uma nova onda de curiosos dispostos a explorar sua filmografia. Quando alguém descobre que existe uma série completa de Darabont estrelada por Bernthal que passou despercebida, a reação quase universal é: “como eu não sabia disso?”

Essa redescoberta tardia é comum em cinema. ‘Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças’ foi ignorado no lançamento e hoje é referência. ‘Os Donos da Rua’ de Walter Hill demorou décadas para ser reconhecido como obra-prima. ‘Mob City’ parece estar nesse caminho — não por campanhas de marketing, mas por boca a boca genuíno de quem assistiu e ficou impressionado.

Veredito: vale a maratona?

Se você curte noir clássico, atuações que priorizam nuance sobre grandiosidade, e histórias que respeitam seu tempo, a resposta é um sim sem ressalvas. Seis episódios. Cerca de quatro horas e meia no total. Menos tempo do que você gastaria em uma temporada de qualquer série atual com o dobro de episódios e metade do conteúdo real.

Agora, se você espera ação constante, reviravoltas chocantes a cada dez minutos e personagens claramente divididos entre “bons” e “maus”, talvez ‘Mob City’ te deixe impaciente. A série pede o que todo bom noir pede: atenção e disposição para conviver com ambiguidade.

Para mim, valeu cada minuto. E a sensação de ter descoberto algo que a maioria ignora é um bônus que torna a experiência ainda mais gratificante. Às vezes, as melhores joias são as que ninguém percebeu cair.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Mob City’

Onde assistir ‘Mob City’?

A disponibilidade de ‘Mob City’ varia por região. No Brasil, já esteve em Amazon Prime Video e pode ser encontrada em serviços de locação digital como Apple TV e Google Play. Vale conferir as plataformas atuais, pois catálogos mudam frequentemente.

Quantos episódios tem ‘Mob City’?

‘Mob City’ tem exatamente 6 episódios de aproximadamente 45 minutos cada. Totaliza cerca de 4 horas e meia — menos que uma temporada padrão de 10 episódios e comparável a uma maratona de dois filmes longos.

‘Mob City’ termina em cliffhanger?

Não. Frank Darabont estruturou a série como uma narrativa fechada. Há resolução no final, não um gancho desesperado para uma segunda temporada que nunca veio. É uma história completa que se sustenta sozinha.

‘Mob City’ é baseada em fatos reais?

Parcialmente. A série se inspira no livro ‘L.A. Noir’ de John Buntin, que documenta a história real da máfia em Los Angeles nos anos 1940. Figuras como Bugsy Siegel são baseadas em personagens históricos, mas o protagonista Joe Teague é fictício.

Para quem é recomendada ‘Mob City’?

Para fãs de film noir clássico, quem aprecia atuações sutis em vez de grandiosas, e espectadores que preferem histórias fechadas a séries intermináveis. Se você gostou da primeira temporada de ‘True Detective’ ou de filmes como ‘Chinatown’, vale a conferida.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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