Analisamos ‘Million-Follower Detective’, o thriller taiwanês que usa estética de redes sociais como arma de terror. Descubra como a série captura a tensão de ‘Squid Game’ com identidade própria — e onde o roteiro falha.
Há algo perturbador em como o terror contemporâneo aprendeu a sorrir. Se nos anos 2000 o medo vinha com paletas escuras e corredores mal iluminados, hoje ele chega vestido de neon, com filtros de Instagram e emojis. ‘Million-Follower Detective’ entende isso melhor do que a maioria — e usa essa contradição visual como arma.
A série taiwanesa que chegou na Netflix sem alarde tem oito episódios e uma premissa que soa bizarra no papel: uma taróloga online chamada Baba the Witch viraliza ao prever mortes de influenciadores. O detetive Chen Chia-jen precisa descobrir se ela é cúmplice ou apenas a mensageira mais assustadora da internet. Mas o que faz ‘Million-Follower Detective’ merecer sua atenção não é a sinopse — é como ela executa essa ideia com uma estética que lembra, sim, ‘Squid Game’, mas com identidade própria.
A estética do grotesco fofo que ‘Million-Follower Detective’ herdou de ‘Squid Game’
Vamos direto ao ponto: a comparação com ‘Squid Game’ não é marketing vazio. Existe um DNA visual compartilhado entre as duas produções que vai além de coincidência. Ambas constroem seus mundos com uma paleta de cores que parece saída de um jogo infantil — tons pastéis, cenários que remetem a brinquedos, uma limpeza visual quase clínica — e então despejam violência gráfica nesse ambiente.
A máscara da Baba the Witch, com seu sorriso fixo e olhos vazios, funciona no mesmo registro dos uniformes cor-de-rosa dos guardas de ‘Squid Game’. É um design que nasce pronto para cosplay, para viralização, para se tornar ícone. Mas diferente da série coreana, que usava essa estética para comentar desigualdade econômica, a produção taiwanesa mira em outro alvo: a cultura de influenciadores e nossa obsessão coletiva por validação digital.
O resultado é que cada cena de crime carrega uma tensão dupla. Você está olhando para algo visualmente “bonito” — um apartamento de influencer com iluminação perfeita, filtros aplicados em tempo real — enquanto sangue escorre. Esse contraste não é apenas estilístico; é o comentário central da série.
Quando a internet vira cenário de crime
O detetive Chen Chia-jen não é apenas mais um investigador atormentado com um passado doloroso — embora ele seja isso também. O que torna seu arco interessante é como o caso o força a confrontar um mundo que ele claramente não compreende, mas que sua enteada habita diariamente.
A dinâmica entre o investigador old school e o universo de algoritmos e engajamento gera alguns dos momentos mais eficazes da série. Há algo genuinamente perturbador em assistir Baba the Witch fazer suas leituras de tarô em livestream enquanto seguidores comentam com emojis, tratando possíveis mortes reais como entretenimento. A série não precisa exagerar — basta mostrar como já funcionamos.
Lembro de ter visto algo similar no episódio “Nosedive” de ‘Black Mirror’, onde ratings sociais ditavam vidas. Mas enquanto Charlie Brooker foi quase didático em sua crítica, ‘Million-Follower Detective’ prefere o caminho do thriller tradicional: deixa o horror implícito funcionar sozinho.
Onde a série acerta — e onde o roteiro tropeça
A série acerta na atmosfera. A direção de fotografia usa deliberadamente a linguagem visual das redes sociais — closes que imitam selfies, iluminação que parece filtrada, cortes rápidos que mimetizam o scroll infinito. Quando a violência chega, ela parece mais impactante justamente por romper essa “beleza” artificial.
As atuações também sustentam o peso necessário. Ekin Cheng, como Chen, carrega a cansaço de alguém que viu demais sem cair no clichê do detetive depressivo alcoólatra. Há uma fadiga específica nele — a de alguém que precisa entender crimes cometidos em um idioma que ele não fala.
Se há uma falha, está na previsibilidade de certas reviravoltas. A estrutura procedural é competente, mas qualquer fã do gênero vai reconhecer os beats narrativos. O diferencial nunca está no “o quê” acontece, mas no “como” é apresentado — e nisso, a série mantém consistência.
Para quem ‘Million-Follower Detective’ vale o tempo
Com apenas oito episódios, ‘Million-Follower Detective’ é o tipo de maratona que se consome em um fim de semana e fica na cabeça por mais tempo que o esperado. Não é revolucionária, mas não precisa ser. O que ela oferece é algo que produções ocidentais têm dificuldade de capturar: uma crítica à cultura digital que não soa como lição de moral de alguém que não usa internet.
Para fãs de ‘Squid Game’ que sentem falta daquele contraste entre estética pop e horror visceral, esta é a próxima parada natural. Para quem gosta de thrillers que usam o contemporâneo sem ser datado, também vale. E para quem simplesmente quer ver algo diferente no catálogo interminável da Netflix — com a máscara sorridente da Baba te encarando da thumbnail — é uma aposta segura.
Fica a sensação de que produções asiáticas continuam levando vantagem na hora de traduzir ansiedades digitais para a tela. Enquanto Hollywood ainda debate se influenciadores são tema “sério” o suficiente para ficção, Taiwan já fez uma série onde a própria estética viral é parte do terror. Talvez seja isso que nos assusta mais: perceber que o grotesco sempre esteve ali, escondido atrás do filtro.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Million-Follower Detective’
Onde assistir ‘Million-Follower Detective’?
‘Million-Follower Detective’ está disponível exclusivamente na Netflix. É uma produção original da plataforma lançada em 2024.
Quantos episódios tem ‘Million-Follower Detective’?
A primeira temporada tem 8 episódios. É uma maratona que pode ser consumida em um fim de semana.
‘Million-Follower Detective’ tem violência gráfica?
Sim. A série contém cenas de violência explícita — parte do contraste estético entre visual pop e horror gory. Não é recomendada para públicos sensíveis.
‘Million-Follower Detective’ é baseado em história real?
Não. A série é ficção original, mas usa elementos realistas da cultura de influenciadores e redes sociais para construir seu universo.
Para quem ‘Million-Follower Detective’ é recomendado?
Para fãs de thrillers psicológicos, de ‘Squid Game’, e de produções asiáticas que misturam crítica social com entretenimento. Não é indicado para quem busca ação constante ou evita violência gráfica.

