‘Mile End Kicks’: Barbie Ferreira estrela comédia com 94% que define os 20 anos como ‘terror’

Com 94% no Rotten Tomatoes, ‘Mile End Kicks’ subverte o formato de comédia romântica para expor o terror existencial dos 20 anos: a busca desesperada por validação, a ansiedade de não saber quem você é, e o desconforto de se reconhecer em escolhas que você preferiria esquecer.

Há uma piada circulando nas redes sociais sobre ‘Mile End Kicks’ ser ‘o filme de terror mais assustador do SXSW’. Chandler Levack, a diretora, ri disso — mas sabe que há verdade no humor. O que começa como uma comédia sobre uma aspirante a crítica musical se mudando para Montreal revela-se algo mais inquietante: um retrato da ansiedade, insegurança e desespero por validação que define a casa dos 20 anos. Não é terror sobrenatural. É algo mais perturbador — terror existencial disfarçado de rom-com.

O filme estreou no Festival de Toronto de 2025 com 94% de aprovação no Rotten Tomatoes, e agora chega ao SXSW com uma proposta que subverte expectativas. Barbie Ferreira, que muitos conhecem de ‘Euphoria’, vive Grace Pine — uma mulher no início dos 20 anos que quer escrever um livro sobre música e acaba envolvida com dois músicos da mesma banda. Na superfície, parece o enredo padrão de uma comédia romântica indie. Mas Levack constrói algo mais próximo de um estudo sobre a tortura psicológica de tentar descobrir quem você é enquanto implora para que outros vejam valor em você.

Como ‘Mile End Kicks’ transforma a comédia romântica em espelho do nosso pior pesadelo

Como 'Mile End Kicks' transforma a comédia romântica em espelho do nosso pior pesadelo

Levack não esconde suas influências. Ela mesma descreve ‘Mile End Kicks’ como sua ‘história de origem do Joker’ — uma referência meio irônica, meio séria sobre como sua própria experiência como crítica musical inspirou o filme. Aos 15 anos, ela assistiu a ‘Quase Famosos’ de Cameron Crowe e decidiu que viveria dentro daquele filme. Abandonou a universidade aos 19, escreveu para Spin e Village Voice, e se mudou para Montreal aos 24. O verão que passou lá foi, em suas palavras, ‘o mais cinematográfico da minha vida’ — mas não pelo glamour que ‘Quase Famosos’ prometia.

A diferença fundamental entre os dois filmes está na abordagem. Crowe romantizou o mundo da música através dos olhos inocentes de um adolescente em 2000 — uma era pré-redes sociais onde a ‘autenticidade’ ainda era moeda valorizada. Levack olha para trás, com distância e honestidade brutal, para o quão desesperada e confusa ela realmente era. Quando ela diz que queria fazer ‘sua versão de um rom-com construído com os piores tipos de sexo, drogas e rock and roll que uma pessoa no início dos 20 anos poderia ter’, não está exagerando. Há cenas aqui — como beijar alguém no chão de um apartamento que provavelmente tem percevejos — que geram risos, mas também um desconforto visceral. É engraçado porque é verdadeiro, e é perturbador pelo mesmo motivo.

A casa dos 20 anos como gênero de terror psicológico

Elenco e diretora convergem em uma ideia central: os 20 anos são simultaneamente libertadores e devastadores. ‘Você está tentando se encontrar através de como outras pessoas percebem você’, observa Ferreira sobre a jornada de sua personagem. Grace é ‘completamente imperfeita’ — às vezes você torce por ela, às vezes não. Essa ambiguidade é o que torna o filme genuíno. Não há heroína perfeita aqui, nem redenção fácil. Há apenas alguém tropeçando, cometendo erros, e se recusando a parar de correr atrás do que quer, não importa o quanto ela se frustre no processo.

O elemento de ‘terror’ que Levack menciona não é uma metáfora vazia. É sobre a específica ansiedade de uma fase da vida onde você quer desesperadamente ser visto, validado, amado — mas tem medo de admitir qualquer disso. Devon Bostick, que interpreta Archi, um dos músicos do triângulo amoroso, ofereceu um insight que a própria diretora chamou de brilhante: às vezes você conscientemente tenta namorar a pior pessoa imaginável porque não se ama. Isso não é apenas diálogo de filme. É uma verdade psicológica que muitos carregam da casa dos 20 anos sem nunca articular.

O elenco também carrega referências cinematográficas que informam o tom do filme. Ferreira cita a trilha de ‘Betty Blue’ — ‘muito francesa e instrumental’ — e ‘Jackie Brown’. Bostick escolhe ‘Boogie Nights: Prazer Sem Limites’. Levack aponta ‘Afinado no Amor’ como inspiração sonora. Não é coincidência que todos esses filmes compartilhem algo: uma mistura de melancolia e energia, de momentos de alegria explosiva intercalados com tristeza profunda. ‘Mile End Kicks’ entra nessa tradição, mas com uma perspectiva feminina e contemporânea que se sente fresca — e mais honesta sobre as consequências emocionais das escolhas impulsivas.

Barbie Ferreira encontra o papel que seu personagem em ‘Euphoria’ prometia

Barbie Ferreira encontra o papel que seu personagem em 'Euphoria' prometia

Para quem acompanhou Ferreira em ‘Euphoria’, ‘Mile End Kicks’ representa uma evolução natural. Kat, sua personagem na série da HBO, era uma adolescente descobrindo seu poder sexual enquanto lutava com inseguranças profundas. Grace é a próxima fase — alguém um pouco mais velha, mas não necessariamente mais sábia, enfrentando as mesmas questões de identidade e validação em um contexto diferente. A diferença é que aqui Ferreira é protagonista, e o filme lhe dá espaço para explorar as contradições da personagem sem o peso de um elenco enorme.

A construção do triângulo amoroso também merece atenção. Stanley Simons interpreta Chevy, o vocalista da banda Bone Patrol que se descreve como ‘um babaca’ — e Simons claramente se divertiu no papel. ‘Foi muito legal fazer a música, tocar na Bone Patrol, ser vocalista, e só tirar esse ego de mim’, ele brinca. A dinâmica entre Archi (o ‘tranquilo mas completamente neurótico’) e Chevy (o egoísta carismático) cria um espelho interessante para Grace: dois arquétipos masculinos diferentes, ambos imperfeitos, ambos refletindo diferentes aspectos de suas próprias buscas.

Juliette Gariépy, como a DJ Madeline, traz uma perspectiva local — ela mesma é de Montreal. Sua personagem está em um relacionamento não-suportivo enquanto tenta se afirmar criativamente. A química entre ela e Grace oferece outro tipo de conexão: duas mulheres criativas navegando um mundo dominado por homens. ‘DJs deveriam sempre ser mulheres’, Gariépy argumenta. ‘Nós somos as que detonamos na pista de dança, então por que não somos as mentes por trás disso?’ É um momento breve, mas que revela como o filme entrelaça questões de gênero com suas preocupações maiores sobre identidade e poder.

Montreal como cenário de terror existencial

O filme foi rodado no bairro de Mile End, em Montreal, e Levack descreve a produção como ‘uma carta de amor à cidade’. Mas não é a Montreal turística de cartões postais. É a Montreal de shows em lofts apertados com 200 pessoas em salas sem janelas cheias de fumaça de cigarro — onde bandas como Mac DeMarco e Grimes tocavam antes de explodirem. Esse cenário específico, esse momento específico da cena musical de Montreal (por volta de 2011), funciona como o cenário perfeito para o tipo de história que Levack quer contar.

Há algo sobre aquele ambiente — lofts underground, bandas desconhecidas, a promessa de que qualquer um daqueles músicos poderia ser o próximo grande nome — que amplifica tanto a esperança quanto a ansiedade de Grace. Cada pessoa que ela conhece poderia ser sua grande chance ou sua grande decepção. Cada noite poderia ser a história que ela contará pelo resto da vida ou apenas mais um episódio esquecível de um verão confuso. Essa tensão entre potencial e vazio é onde o filme encontra seu poder.

O filme chega aos cinemas em 17 de abril nos EUA e Canadá. Para o público brasileiro, a espera pode ser maior — ainda sem data confirmada. ‘Mile End Kicks’ não é apenas mais uma comédia indie sobre música e romance. É um filme que entende que os 20 anos são, como Levack diz, ‘a parte do mundo da sua vida que você ainda não sabe que é terrível’. É sobre a horror específica de olhar para trás e perceber que você era, simultaneamente, mais jovem e mais velho do que pensava, mais perdido e mais encontrado do que lembrava.

Se você está nos seus 20 anos, pode assistir e se reconhecer com desconforto. Se já passou dessa fase, vai assistir com uma mistura de alívio e nostalgia dolorosa. Em ambos os casos, ‘Mile End Kicks’ entrega algo que a maioria das comédias românticas não ousa: a verdade de que encontrar a si mesmo é frequentemente mais assustador do que qualquer monstro que o cinema de terror possa criar.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Mile End Kicks’

Quando estreia ‘Mile End Kicks’ no Brasil?

O filme estreia em 17 de abril de 2026 nos cinemas dos EUA e Canadá. A data de estreia no Brasil ainda não foi confirmada pela distribuidora.

‘Mile End Kicks’ é baseado em história real?

Não é baseado em fatos reais específicos, mas é inspirado na experiência pessoal da diretora Chandler Levack como crítica de música em Montreal aos 24 anos. Ela descreve o filme como sua ‘história de origem do Joker’ — uma versão ficcionalizada de seu verão mais cinematográfico e confuso.

Para quem é recomendado ‘Mile End Kicks’?

O filme é recomendado para quem gosta de comédias indie com profundidade emocional, especialmente públicos entre 20 e 35 anos. Se você aprecia filmes como ‘Quase Famosos’, ‘Frances Ha’ ou ‘Afinado no Amor’, este é para você. Não é indicado para quem busca uma comédia romântica tradicional leve — o filme tem momentos de desconforto deliberado.

Quem protagoniza ‘Mile End Kicks’?

Barbie Ferreira, conhecida por ‘Euphoria’, é a protagonista como Grace Pine. O elenco inclui ainda Devon Bostick, Stanley Simons e Juliette Gariépy. Chandler Levack assina roteiro e direção.

Por que ‘Mile End Kicks’ é comparado a terror?

A comparação com terror é temática, não literal. O filme usa o formato de comédia romântica para explorar a ansiedade, insegurança e desespero por validação que caracterizam a casa dos 20 anos — um ‘terror existencial’ que muitos consideram mais perturbador que filmes de terror convencionais.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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