‘Michael’: Jaafar Jackson, sobrinho do rei do pop, assume o legado no cinema

Jaafar Jackson assume o papel do tio Michael no filme de Antoine Fuqua, apostando na semelhança genética como atalho para a autenticidade. Analisamos se essa estratégia arriscada cria interpretação ou apenas imitação, e o que está em jogo para o legado Jackson.

Alguns papéis exigem mais que talento — exigem uma espécie de posse. Quando Antoine Fuqua aceitou dirigir ‘Michael’, o desafio não era apenas recriar os movimentos do rei do pop ou remontar os sets dos clipes icônicos. Era encontrar alguém que pudesse carregar o peso de um legado que, décadas após sua morte, continua a gerar fascínio e controvérsia em igual medida. A solução que a Lionsgate encontrou surpreendeu Hollywood: em vez de um astro consagrado ou um desconhecido descoberto em audição global, o estúdio apostou em Jaafar Jackson para viver o protagonista no filme — um jovem de 29 anos cuja única credencial, além do sangue, é a promessa de que a genética faria o trabalho que a técnica não poderia substituir.

Jaafar não é um ator de formação clássica. Até ‘Michael’, seu currículo consistia em aparições em reality shows da família Jackson e uma carreira musical discreta. Ele é filho de Jermaine Jackson, um dos membros originais do Jackson 5 e irmão mais velho de Michael. Essa proximidade genealógica, longe de ser apenas curiosidade de bastidores, tornou-se o argumento central da produção. Quando a busca global por um protagonista chegou a Jaafar, a decisão foi selada não apenas pelos produtores, mas pela própria matriarca Katherine Jackson — mãe de Michael e avó do ator.

A bênção da matriarca e o peso da aprovação familiar

A bênção da matriarca e o peso da aprovação familiar

Katherine Jackson não é apenas uma figura de luto; é a guardiã do legado. Sua declaração pública quando o casting foi anunciado deixa claro que, para a família, este não é mais um biopic qualquer: “Jaafar embodies my son. It’s so wonderful to see him carry on the Jackson legacy of entertainers and performers” (Jaafar encarna meu filho. É maravilhoso vê-lo continuar o legado Jackson de artistas e performers). Em tradução livre, a frase soa como um decreto.

O produtor Graham King, responsável por ‘Bohemian Rhapsody’ e conhecedor dos percalços de biografias musicais, justificou a escolha após dois anos de busca: “I met Jaafar over two years ago and was blown away by the way he organically personifies the spirit and personality of Michael”. A palavra-chave aqui é “organicamente”. Não se trata apenas de maquiagem digital ou efeitos especiais — embora estes existam —, mas de uma semelhança física e gestual que, segundo King, resistiu a testes com atores profissionais de todo o mundo.

Isso levanta uma questão fascinante sobre biopics contemporâneos: estamos testemunhando o limite da atuação como ofício? Quando a personificação depende tanto da arquitetura óssea e da cadência vocal herdadas, o mérito artístico cede espaço para a biologia. Ou, visto por outro ângulo, Jaafar teria uma vantagem insuperável — não apenas parecer com Michael, mas conhecer, desde a infância, os maneirismos, a forma de andar, o humor seco que as câmeras não capturavam?

Entre a imitação e a interpretação: o desafio de Jaafar

O material promocional divulgado até agora — trailers e imagens de divulgação — revela um trabalho assustador de design de produção e coreografia. Jaafar não apenas dança; ele reproduz o ângulo exato do chapéu durante o moonwalk, a tensão nos dedos das mãos durante as poses, o modo como Michael parecia flutuar entre os movimentos. Em certos perfis, a silhueta é quase indistinguível da do tio na era ‘Bad’ ou ‘Dangerous’.

Mas aqui entra o dilema que todo biopic enfrenta: semelhança física não garante profundidade emocional. Rami Malek não era sósia de Freddie Mercury — ganhou o Oscar pela capacidade de transmitir a vulnerabilidade por trás dos dentes proeminentes. Austin Butler, em ‘Elvis’, capturou a essência sem ser cópia exata. Jaafar, por outro lado, parece estar apostando na identidade quase documental. O risco é que o filme vire um tributo de imitação, um cover elaborado, em vez de uma exploração psicológica do homem por trás da luva de lantejoulas.

A produção resolveu parcialmente esse problema dividindo a narrativa. Juliano Krue Valdi interpreta Michael na infância, durante os anos do Jackson 5 — período que exige outro tipo de preciosidade, a inocência forçada a carregar talento adulto. Jaafar assume o protagonismo na fase adulta, quando a complexidade da vida pessoal de Michael — as acusações, a transformação física, a relação com o pai — exige nuances que nenhuma herança genética pode fornecer automaticamente.

O elenco de apoio e a visão de Antoine Fuqua

O elenco de apoio e a visão de Antoine Fuqua

Se Jaafar é o centro gravitacional, Fuqua construiu ao redor dele um time que sugere seriedade dramática. Colman Domingo, indicado ao Oscar e mestre em personagens de camadas complexas, está no elenco — possivelmente como Joe Jackson, o pai controverso e exigente, ou talvez como um mentor musical. Nia Long traz peso emocional, enquanto Miles Teller e Laura Harrier adicionam credibilidade millennial ao projeto.

Fuqua, conhecido por ‘Training Day’ e ‘The Equalizer’, não é o nome óbvio para um musical biográfico. Sua filmografia é de ação visceral e tensão urbana. Mas talvez seja exatamente essa ferocidade visual que ‘Michael’ precise. A carreira de Jackson não foi apenas brilho e coreografias; foi uma batalha constante contra a mídia, contra expectativas familiares, contra o próprio corpo. Fuqua tem a capacidade de filmar conflito físico como poucos — se ele aplicar essa urgência às cenas de estúdio e à dinâmica familiar, podemos ter algo além do hagiografia comum.

A trilha sonora e o dilema da voz

Uma das decisões mais inteligentes da produção — ou talvez a mais controversa — é o uso das masterizações originais de Michael Jackson para as performances musicais. Jaafar fará playback das gravações clássicas, o que garante autenticidade sonora, mas deve ter momentos de canto próprio em cenas de estúdio ou momentos íntimos. Isso cria uma metalinguagem interessante: o ator está interpretando o artista, mas a voz que ouvimos é a do próprio sujeito, transformando o filme em uma espécie de dueto fantasma entre tio e sobrinho através do tempo.

Jaafar, como vocalista, tem timbre similar — não idêntico, mas com a mesma qualidade andrógina e a capacidade de alternar entre suavidade e grito gutural. A questão é se ele conseguirá transmitir a fragilidade que Michael escondia por trás da perfeição vocal. Os clipes de ‘Billie Jean’ ou ‘Smooth Criminal’ são performances de controle total; mas nos making ofs e nas gravações em estúdio, ouvíamos um homem obsessivo, inseguro, perfeccionista até a exaustão. Capturar essa dualidade será o teste de fogo.

O legado como fardo e escudo

Assistir a ‘Michael’ quando chegar aos cinemas em 24 de abril de 2026 será uma experiência estranha. Estaremos vendo um sobrinho homenagear um tio que virou mito, sob a supervisão da avó que viu os dois nascerem. A aprovação familiar, que em outros biopics pode parecer censura (como em ‘Bohemian Rhapsody’, suavizado pela sobrevivência de Brian May), aqui parece ingrediente essencial. A família Jackson não está apenas licenciando músicas; está entregando um membro para ser medium.

Para Jaafar, o filme é uma armadilha de ouro. Se funcionar, ele transcende a condição de parente famoso para se tornar artista em mérito próprio. Se falhar, será mais um Jackson tentando surfar no sobrenome — só que desta vez com o orçamento de blockbuster nas costas. A pressão é incomensurável.

O que podemos dizer, baseado no material disponível e na história do cinema musical, é que ‘Michael’ está apostando em uma estratégia arriscada: a autenticidade biológica como atalho para a autenticidade artística. Funcionou para Zoe Saldaña viver Nina Simone? Não exatamente. Funcionou para Jamie Foxx em ‘Ray’? Sim, mas Foxx era um ator consumado antes de ser Ray Charles. Jaafar entra em território inexplorado.

Se Fuqua conseguir moldar essa matéria-prima genética em performance verdadeira, teremos não apenas um tributo a Michael Jackson, mas um documento único sobre como o talento pulsa através de gerações — e como a família, finalmente, recupera a narrativa do homem que ela perdeu prematuramente. Se não conseguir, teremos o mais caro cover de karaokê da história de Hollywood. A aposta está feita. Os créditos ainda estão longe de rolar.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Michael’ e Jaafar Jackson

Quando estreia o filme ‘Michael’ nos cinemas?

O filme biográfico ‘Michael’ tem estreia prevista para 24 de abril de 2026 nos cinemas brasileiros e norte-americanos.

Quem é Jaafar Jackson e qual sua relação com Michael?

Jaafar Jackson é sobrinho de Michael Jackson. Ele é filho de Jermaine Jackson, irmão mais velho de Michael e membro original do Jackson 5. Jaafar tem 29 anos e até então não tinha carreira consolidada como ator.

Jaafar Jackson canta no filme ou usa playback?

A produção utiliza as masterizações originais de Michael Jackson para as performances musicais principais, com Jaafar fazendo playback. No entanto, ele deve cantar com sua própria voz em cenas de estúdio e momentos íntimos do filme.

O filme ‘Michael’ tem aprovação da família Jackson?

Sim. Katherine Jackson, mãe de Michael e avó de Jaafar, aprovou publicamente o casting, afirmando que o neto “encarna” seu filho. A família está diretamente envolvida na produção, o que diferencia este biopic de outros não autorizados.

Quem dirige o filme ‘Michael’?

O filme é dirigido por Antoine Fuqua, conhecido por ‘Training Day’ e ‘The Equalizer’. É sua primeira incursão no gênero de biopic musical, trazendo uma abordagem visual mais visceral e urbana para a história de Michael Jackson.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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