Analisamos como ‘Medium série’ subverteu os clichês dos anos 2000 com uma protagonista bondosa em meio a anti-heróis. Patricia Arquette criou uma heroína cuja complexidade vinha da humanidade, não da moralidade ambígua — e provou que bondade na TV pode ser tão fascinante quanto cinismo.
Nos anos 2000, a televisão estava obcecada por homens difíceis. Tony Soprano, Dr. House, Don Draper, Walter White — a Era de Ouro da TV construiu-se sobre anti-heróis moralmente ambíguos que nós amávamos assistir, mas provavelmente não queríamos como vizinhos. Foi nesse cenário que Medium série chegou em 2005 com uma aposta aparentemente antiquada: uma protagonista que era, genuinamente, uma boa pessoa. E funcionou.
Patricia Arquette interpretou Allison DuBois por sete temporadas — cinco na NBC, mais duas na CBS — e criou algo que o cinema e a TV raramente tentam: uma heroína sem arestas morais que ainda assim é fascinante de assistir. Não porque ela é perfeita, mas porque sua bondade custa algo. Cada caso que ela resolve, cada visão que tem, cada verdade desconfortável que revela — tudo isso tem um preço emocional que a série nunca deixa barato.
Por que Allison DuBois era um sopro de ar fresco na era dos anti-heróis
O contexto importa. Quando Medium estreou, estávamos no auge do procedural de crimes sombrios. CSI dominava as audiências. Dr. House celebrava a genialidade abusiva. True Detective ainda estava por vir, mas o terreno já estava preparado para detetives atormentados e eticamente flexíveis. Allison DuBois poderia facilmente ter sido escrita como uma versão feminina desse arquétipo — uma médium atormentada, cínica, que bebe para esquecer os mortos que vê.
Mas não foi isso que a série fez. Baseada em uma pessoa real — a médium Allison DuBois, que consultou para o escritório do promotor do Arizona —, o showrunner Glenn Gordon Caron optou por algo mais arriscado: uma protagonista que acreditava no bem, que lutava por justiça, e cujo maior conflito não era com sua própria moralidade, mas com a exaustão de carregar um dom que ela não pediu.
A decisão foi radical exatamente por parecer tão simples. Em um momento em que “complexidade” significava “quantas coisas horríveis este personagem pode fazer e ainda ser amado pelo público”, Allison era complexa por razões diferentes: ela era uma mãe que acordava às 3h da manhã tendo visto um assassinato, tentava fazer café normal para o marido, levava as filhas na escola, e depois ia trabalhar no escritório do promotor de Phoenix para resolver o caso. O horror e o cotidiano coexistindo sem que um anulasse o outro.
O equilíbrio entre família e crimes que poucos procedurals ousam tentar
Aqui está algo que distingue Medium de praticamente qualquer outro procedural de crimes: Allison passa tanto tempo em casa quanto no trabalho. E não no sentido de “cenas domésticas que humanizam o personagem antes de voltarmos ao que importa”. A vida familiar dela é o que importa.
Seu marido Joe, interpretado com uma calma admirável por Jake Weber, não é um obstáculo ou um prêmio — é um parceiro genuíno que acredita nela mesmo quando não entende completamente. As três filhas herdaram variados graus de suas habilidades, criando uma dinâmica única: uma família que compartilha um segredo que os aproxima e, às vezes, aterroriza.
Reassistindo episódios hoje, o que mais impressiona é como a série se recusa a tratar a maternidade de Allison como algo secundário. Quando ela está em perigo — e ela frequentemente está —, o medo do público é amplificado porque conhecemos exatamente o que ela pode perder. Não é abstrato. São as filhas que apareceram na cozinha de manhã pedindo cereal. É o marido que ela ama de forma visível, não declarada.
Isso cria uma tensão que procedurals puramente profissionais não conseguem replicar. Em Law & Order, quando o detetive está em uma situação perigosa, sabemos que ele vai sobreviver porque ele é o protagonista. Em Medium, quando Allison está em perigo, sentimos que ela pode sobreviver, mas algo pode ser quebrado no processo — a confiança das filhas, a estabilidade do casamento, a sanidade dela mesma.
Como Patricia Arquette construiu uma heroína que nunca soa ingênua
O maior risco de escrever uma protagonista “boa” é torná-la entediante ou, pior, santificada. Patricia Arquette evitou isso com uma escolha de interpretação específica: ela nunca deixou Allison parecer segura de si.
Há algo no olhar de Arquette — aquela expressão de quem está vendo algo que você não vê — que comunica incerteza constante. Allison confia em seus instintos, persegue possibilidades que ninguém mais considera, mas há sempre uma hesitação. Uma dúvida. A cena em que ela convence o promotor Lee Scanlon (David Cubitt) a seguir uma pista absurda não é uma cena de poder — é uma cena de persuasão cansada, de alguém que já passou por isso tantas vezes que aprendeu a argumentar sem esperar que acreditem nela.
Arquette também entende algo crucial sobre o tom da série: Medium pode ser assustadora, mas nunca trata os mortos como intrinsecamente aterrorizantes. Há uma ternura na forma como Allison interage com os falecidos — não como um médium de filme de terror, mas como alguém que está prestando um serviço. Ela segura espaço para verdades dolorosas, e Arquette deixa o público sentir o peso disso sem dramatização excessiva.
A entrega de linhas quase monótonas de Arquette, que alguns críticos confundiram com falta de expressividade, é na verdade uma escolha precisa. Allison não é dramática porque seu cotidiano já é sobrenatural. Ver um assassinato em sonhos é terça-feira normal para ela. A falta de histeria torna as cenas de verdadeira tensão — e há várias ao longo das sete temporadas — muito mais impactantes.
Esse trabalho rendeu a Arquette um Emmy em 2005 e estabeleceu-a como força dramática na TV anos antes de seu Oscar por Boyhood (2014). Curiosamente, o reconhecimento cinematográfico tardio eclipsou o que ela construiu em Medium — uma performance que durou 130 episódios e exigiu uma consistência que poucos atores conseguem manter.
Por que Medium série merece ser relembrada hoje
Se você procurar listas de “melhores séries dos anos 2000”, Medium raramente aparece. Foi sucesso de audiência, durou sete temporadas, rendeu prêmios para Arquette, mas não entrou no cânone da Era de Ouro da televisão. Parte disso é compreensível: era um procedural de rede aberta em uma época em que a crítica começava a se obcecar com séries a cabo com narrativas serializadas e orçamentos cinematográficos.
Mas essa exclusão é injusta. Medium fez algo que poucas séries tentam: provou que uma protagonista bondosa pode ser tão interessante quanto um anti-herói. Que uma mãe que resolve crimes pode ter stakes tão reais quanto um detetive atormentado. Que o sobrenatural pode coexistir com o mundano sem que um diminua o outro.
A série também envelheceu bem por razões que seus criadores não poderiam prever. Em 2026, quando protagonistas femininas complexas são mais comuns, Allison DuBois ainda se destaca — não por ser excepcional, mas por ser ordinária de formas que a TV ainda hesita em explorar. Ela não é uma superheroína. Não é uma anti-herói. É uma mulher que acorda, vê mortos, toma café, leva os filhos na escola, e tenta fazer o certo. O fato de isso parecer radical diz mais sobre a televisão do que sobre ela.
Para quem nunca viu, Medium está disponível em streaming e envelhece melhor do que muitos de seus contemporâneos mais celebrados. Para quem já assistiu, vale relembrar: Patricia Arquette criou algo raro na TV americana — uma heroína cujo maior poder não era ver o futuro, mas manter sua humanidade intacta enquanto fazia isso.
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Perguntas Frequentes sobre Medium série
Onde assistir Medium série completa?
‘Medium’ está disponível na Amazon Prime Video no Brasil. Todas as sete temporadas podem ser assistidas na plataforma.
Quantas temporadas tem Medium?
A série tem 7 temporadas, totalizando 130 episódios. As cinco primeiras foram exibidas na NBC (2005-2009) e as duas últimas na CBS (2009-2011), após cancelamento pela primeira emissora.
Medium é baseada em história real?
Sim. A série é inspirada na vida de Allison DuBois, uma médium americana que afirma ter trabalhado como consultora para o escritório do promotor do Arizona. A verdadeira DuBois fazia parte do programa de pesquisa de médios da Universidade do Arizona.
Patricia Arquette ganhou prêmios por Medium?
Sim. Arquette venceu o Emmy de Melhor Atriz em Série Dramática em 2005 pelo papel. Também recebeu indicações ao Golden Globe e ao SAG Awards. Seu trabalho na série é frequentemente citado como um dos mais subestimados da TV americana.
Por que Medium foi cancelada?
A NBC cancelou a série em 2009 após queda de audiência e cortes de orçamento. A CBS resgatou o show para mais duas temporadas, que tiveram audiência estável mas foram encerradas em 2011. Glenn Gordon Caron disse que teve encerramento planejado, não cancelamento abrupto.

