‘Me Conte Mentiras’: O vício destrutivo de Stephen e Lucy na 3ª temporada

Analisamos por que a 3ª temporada de ‘Me Conte Mentiras’ é a mais corajosa até agora ao trocar o romance pelo estudo clínico da codependência. Entenda como Stephen e Lucy se tornaram o espelho destrutivo um do outro e por que a série finalmente parou de romantizar sua toxicidade.

Há uma tensão palpável logo nos primeiros minutos da 3ª temporada de ‘Me Conte Mentiras’ (Tell Me Lies) que define o tom de todo o retorno: Stephen e Lucy se observam não com desejo, mas com o reconhecimento sombrio de quem reencontra um vício antigo. A série do Hulu (lançada no Brasil pelo Disney+) finalmente abandonou qualquer pretensão de ser um romance para se assumir como o que sempre foi: uma autópsia detalhada de uma codependência patológica.

O fim da romantização: O vício acima da química

O fim da romantização: O vício acima da química

Nas temporadas anteriores, a narrativa ainda flertava com a ideia de que a conexão entre Stephen (Jackson White) e Lucy (Grace Van Patten) possuía alguma base de afeto real, por mais distorcido que fosse. No terceiro ano, essa máscara cai. A série utiliza uma fotografia mais crua, com closes desconfortavelmente longos que capturam a micro-expressão de tédio e manipulação de Stephen.

Grace Van Patten foi precisa em uma análise recente ao descrever que os personagens estão presos em um ciclo onde a pergunta não é ‘eu te amo?’, mas ‘quem mais suportaria o que somos?’. Essa abordagem eleva a série de um drama adolescente genérico para um estudo de caso psicológico. A química permanece, mas agora ela é filmada como algo invasivo, quase uma doença física que os personagens não conseguem expelir.

Stephen DeMarco e a anatomia do ‘vácuo emocional’

Reduzir Stephen a um vilão de novela seria o caminho mais fácil para o roteiro, mas Jackson White entrega uma performance mais complexa. Stephen não é um mestre das marionetes operando por prazer; ele opera por necessidade de preencher um vazio. A terceira temporada expande esse ‘efeito colateral’ de sua personalidade ao focar na relação com sua irmã, revelando que o rastro de destruição dele não escolhe alvos — ele apenas consome o que está mais perto.

Diferente de personagens como Joe Goldberg em ‘You’, Stephen não se justifica para o público. Ele é o ‘buraco negro’ da narrativa: tudo o que entra em sua órbita perde a luz. A direção de arte desta temporada reforça isso, usando tons mais frios e ambientes estéreis quando ele está no controle, contrastando com o caos emocional que ele deixa para trás.

O casamento de Bree: O uso da cronologia como tortura

O casamento de Bree: O uso da cronologia como tortura

A estrutura de linhas temporais alternadas, marca registrada de ‘Me Conte Mentiras’, atinge seu ápice dramático aqui. Assistir à felicidade ingênua de Bree no passado, enquanto sabemos que no presente ela descobriu a traição de Evan com Lucy, cria uma experiência de visualização quase masoquista.

A série utiliza o casamento não apenas como um evento, mas como uma bomba-relógio. O fato de Stephen ter guardado o segredo sobre Lucy e Evan como ‘munição’ por anos é o ápice de sua crueldade. Aqui, a série toca em um ponto sensível: a traição da amizade dói mais que a traição romântica. Catherine Missal (Bree) finalmente recebe o espaço que merecia, entregando uma atuação que transita entre o entorpecimento e a fúria contida.

Por que a 3ª temporada é a mais honesta (e difícil de assistir)

A showrunner Meaghan Oppenheimer parou de pedir que o público torça pelo casal central. Ao invés disso, ela nos convida a observar o desastre. Lucy, que começou a série buscando uma fuga de seus traumas familiares, agora é uma arquiteta de suas próprias mentiras. Ela não está mais protegendo Bree ao esconder a verdade; ela está protegendo a própria imagem, uma escolha que a torna tão moralmente ambígua quanto Stephen.

Se você procura resoluções satisfatórias ou personagens que aprendem com seus erros, ‘Me Conte Mentiras’ continuará te frustrando. No entanto, se você busca uma análise técnica e psicológica de como a ansiedade é frequentemente confundida com intensidade romântica, esta temporada é obrigatória. É um drama que incomoda porque, no fundo, todos conhecemos — ou já fomos — alguém que não soube a hora de ir embora.

Veredito: Vale a pena continuar?

A 3ª temporada funciona porque abraça sua natureza tóxica sem pedir desculpas. A produção técnica melhorou, o foco no elenco de apoio (especialmente Pippa e Bree) trouxe fôlego novo e a série finalmente entendeu que Stephen e Lucy são melhores como antagonistas um do outro do que como amantes. É uma televisão difícil, cínica e extremamente viciante.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre ‘Me Conte Mentiras’ (Tell Me Lies)

Onde assistir à 3ª temporada de ‘Me Conte Mentiras’ no Brasil?

A série ‘Me Conte Mentiras’ é baseada em um livro?

Sim, a série é uma adaptação do romance homônimo de Carola Lovering. No entanto, a partir da segunda temporada, a produção expandiu consideravelmente a trama, criando arcos inéditos que não estão presentes no livro original.

Stephen e Lucy terminam juntos na 3ª temporada?

A dinâmica da 3ª temporada foca no ciclo de idas e vindas. Embora a série mostre que eles continuam magneticamente atraídos, o foco agora é nas consequências destrutivas dessa união para as pessoas ao redor, como Bree e Pippa.

Quantos episódios tem a 3ª temporada?

A terceira temporada segue o padrão das anteriores, contando com 10 episódios que exploram tanto o período da faculdade quanto o presente (o período do casamento de Bree).

Haverá uma 4ª temporada de ‘Me Conte Mentiras’?

Até o momento, o Hulu não confirmou oficialmente a renovação. No entanto, a showrunner Meaghan Oppenheimer já expressou interesse em continuar a história, dependendo da audiência e do engajamento dos fãs nesta fase atual.

Mais lidas

Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

Veja também