‘Maigret’: a reinvenção moderna que ocupa o vácuo deixado por ‘Sherlock’

Analisamos como a nova série ‘Maigret’ (2025) subverte o ícone de Simenon para preencher o vácuo de ‘Sherlock’. Descubra por que a exaustão de Benjamin Wainwright e o uso inteligente da tecnologia tornam este o melhor drama policial da temporada.

Existe um vácuo específico na televisão que poucos perceberam, mas todos sentiram. Quando ‘Sherlock’ da BBC encerrou sua trajetória — primeiro com brilhantismo, depois com aquela temporada final que preferimos esquecer —, levou consigo um modelo: o detetive clássico reimaginado para o século XXI. ‘Luther’ e ‘Broadchurch’ tentaram ocupar esse espaço, mas nenhum tinha a ousadia de pegar um personagem literário centenário e transformá-lo em algo genuinamente contemporâneo. Até agora.

A Maigret série 2025, produzida pelo PBS Masterpiece, faz exatamente isso com Jules Maigret, o comissário parisiense criado por Georges Simenon. E faz de um jeito que vai irritar puristas, mas que deve conquistar quem busca um drama policial com substância e menos pirotecnia.

Benjamin Wainwright subverte o Maigret que você conhecia

Benjamin Wainwright subverte o Maigret que você conhecia

Esqueça o cachimbo, o chapéu-coco e a silhueta atarracada que definiu décadas de adaptações, de Jean Gabin a Rowan Atkinson. O Maigret de Wainwright é alto, magro e elegantemente deslocado. É uma escolha que poderia ser desastrosa por fugir da iconografia, mas funciona porque captura o que é essencial: a exaustão existencial.

Seu Maigret é um homem perpetuamente sobrecarregado. Há uma frustração contida em cada cena que ressoa com a modernidade — ele é um funcionário público lutando contra a burocracia tanto quanto contra criminosos. Um detalhe técnico fascinante na atuação de Wainwright é o uso de silêncios; ele observa mais do que fala, permitindo que a câmera de ‘Maigret’ capture as micro-expressões dos suspeitos, algo que remete ao cinema noir clássico, mas com uma lente digital nítida.

A fórmula ‘Sherlock’ aplicada com maturidade

A série claramente estudou o que fez ‘Sherlock’ funcionar antes de se perder em sua própria mitologia. Não se trata apenas de colocar um detetive antigo em um cenário moderno — é sobre fazer a modernidade ser parte orgânica da investigação. Em Maigret série 2025, feeds de redes sociais não são apenas acessórios; eles funcionam como o novo ‘submundo’ de Paris, onde as evidências e os álibis estão escondidos sob camadas de filtros.

A estrutura narrativa também é inteligente: a primeira temporada divide seus seis episódios em três casos de duas partes. Esse ritmo permite uma profundidade que o formato procedural de 45 minutos raramente alcança, sem cair na exaustão de mistérios que se arrastam por dez episódios desnecessários.

A Paris de Budapeste e o dilema do sotaque

A Paris de Budapeste e o dilema do sotaque

Um ponto que merece atenção crítica é a ambientação. Filmada em Budapeste para simular a Paris contemporânea com um orçamento controlado, a série evita a ‘Paris de cartão-postal’. A fotografia usa tons frios e texturas urbanas que dão ao show uma identidade visual sóbria. Entretanto, o eterno problema das produções britânicas persiste: ouvir nomes franceses pronunciados com sotaque de Oxford é um ‘arranhão’ constante para quem tem familiaridade com o idioma original.

Apesar disso, a série compensa com uma montagem que privilegia o clima. As sequências de sonhos surreais de Maigret, que invadem a narrativa sem aviso, dão um toque de realismo mágico que diferencia o show de qualquer outro drama policial atual. É um risco artístico que mostra que os produtores não queriam apenas ‘mais um remake’.

Veredito: Maigret entende o que o público de 2026 deseja

O que esta nova versão entende, e que ‘Sherlock’ eventualmente esqueceu, é que o detetive não precisa ser a pessoa mais inteligente da sala o tempo todo para ser interessante. Wainwright permite que os casos respirem. Nada de deduções impossíveis explicadas em monólogos acelerados; Maigret trabalha, erra e persiste. É menos cinematográfico e muito mais humano.

Se você sente falta de um drama policial com ritmo deliberado e um protagonista que carrega o peso do mundo nos ombros, Maigret série 2025 é a sua melhor aposta. A segunda temporada já está confirmada, e o desafio será manter essa sobriedade antes que a tentação de escalar conflitos mirabolantes tome conta do roteiro.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre a série Maigret (2025)

Onde assistir à nova série ‘Maigret’ de 2025?

A série é uma produção original do PBS Masterpiece e está disponível internacionalmente em plataformas de streaming associadas e canais de TV a cabo que transmitem conteúdo britânico de alta qualidade.

Quem interpreta o comissário Maigret na nova versão?

O protagonista é interpretado pelo ator britânico Benjamin Wainwright, que traz uma abordagem mais jovem, magra e melancólica ao personagem clássico de Georges Simenon.

A série Maigret é baseada em livros?

Sim, a série adapta os casos do comissário Jules Maigret, protagonista de 75 romances e 28 contos escritos pelo autor belga Georges Simenon entre 1931 e 1972.

Quantos episódios tem a primeira temporada de Maigret?

A primeira temporada possui 6 episódios, divididos em três grandes casos contados em duas partes cada, permitindo maior desenvolvimento da trama e dos personagens.

A série Maigret terá uma segunda temporada?

Sim, devido ao sucesso de crítica e audiência, a segunda temporada de ‘Maigret’ já foi confirmada pelos produtores e deve expandir ainda mais o universo moderno do detetive.

Mais lidas

Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

Veja também