Lagarto em ‘Spidey e Seus Amigos Espetaculares’: Marvel aposta no visual clássico

O design do Lagarto em ‘Spidey e Seus Amigos Espetaculares’ resgata o visual clássico dos quadrinhos de Stan Lee e Steve Ditko, com jaleco branco e cores vibrantes. Analisamos por que essa escolha funciona melhor que as versões live-action de 2012 e 2021.

A Marvel tem um problema recorrente com vilões: na tentativa de torná-los “realistas” para o cinema, frequentemente perde o que os tornou icônicos nos quadrinhos. É por isso que o design do Lagarto em ‘Spidey e Seus Amigos Espetaculares’ chama tanto atenção — ele faz o oposto. Em vez de envergonhar-se da fonte original, a animação infantil abraça o visual clássico do personagem com uma confiança que faz você se perguntar por que os filmes live-action tentaram “corrigir” algo que nunca esteve quebrado.

O episódio “Adventures Down the Drain” (“Aventuras nos Esgotos”, no Brasil), exibido em 9 de janeiro como parte da 4ª temporada, traz o Dr. Curt Connors em sua forma reptiliana — e o resultado é um estudo de caso sobre como adaptar vilões de forma respeitosa. Não que a série seja revolucionária; é uma produção voltada para crianças de 4 a 7 anos, com toda a simplicidade narrativa que isso implica. Mas há uma lição aqui que grandes produções de Hollywood poderiam aprender.

O design do Lagarto é aula de adaptação visual

O design do Lagarto é aula de adaptação visual

O Lagarto desta versão é visualmente idêntico ao material de origem criado por Stan Lee e Steve Ditko em 1963, nas páginas de The Amazing Spider-Man #6. Pele verde vibrante. Jaleco branco de laboratório sobre o corpo. Calça e camisa em um roxo quase fluorescente. Cabelo espinhoso e um focinho pronunciado que o torna inconfundivelmente réptil. Não há tentativa de “modernizar” ou “tornar crível” — há apenas fidelidade ao que funcionou por seis décadas.

Isso não é preguiça criativa. É inteligência. Em uma série onde Peter Parker divide tela com Miles Morales (apelido Spin) e Gwen Stacy (Ghost-Spider), o público-alvo não precisa de “verossimilhança sombria”. Precisa de personagens visualmente distintos e memoráveis. O Lagarto com seu jaleco e cores vivas cumpre essa função: qualquer criança reconhece instantaneamente quem é o vilão e qual sua relação com a ciência.

A trama do episódio, envolvendo uma poção de encolhimento que miniaturiza tanto o Lagarto quanto o Homem-Aranha, obriga os dois a cooperarem nos esgotos. É um clássico trope de “inimigos forçados a trabalhar juntos”, executado com competência para o público infantil. Mas o que importa é como o design serve à narrativa: o jaleco branco do Lagarto, mesmo sujo e encolhido, mantém sua identidade de cientista. A aparência não é apenas estética — é temática.

O que as versões live-action erraram

Aqui fica impossível não comparar. Quando Rhys Ifans interpretou o Lagarto em ‘O Espetacular Homem-Aranha’ (2012), a produção optou por uma abordagem completamente diferente: um visual mais feral, sem roupas, com tons de verde escuro e um focinho quase inexistente. O resultado foi um personagem que parecia mais um monstro genérico de filme B do que o Dr. Connors dos quadrinhos.

A versão que retornou em ‘Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa’ (2021) manteve essa estética, provando que o MCU não aprendeu com o erro anterior. Curiosamente, o filme até corrige alguns problemas — dá ao personagem mais personalidade e momentos de humor — mas visualmente continua preso a essa ideia equivocada de que “realismo” significa remover tudo que torna um design único.

O Lagarto de ‘Spidey e Seus Amigos Espetaculares’ expõe o absurdo dessa escolha. Se uma animação para crianças consegue tornar o personagem reconhecível e funcionalmente ameaçador mantendo suas características clássicas, por que produções com orçamentos de centenas de milhões insistem em reinventar a roda?

Fidelidade vs. reinvenção: quando cada abordagem funciona

Fidelidade vs. reinvenção: quando cada abordagem funciona

Não se trata de defender que toda adaptação deva ser literal. Quando Christopher Nolan reimaginou o Coringa em ‘O Cavaleiro das Trevas’, criou algo tão impactante quanto o original. A questão é intenção: Nolan tinha uma visão clara do que queria dizer sobre caos e ordem. Já as versões live-action do Lagarto parecem ter removido o jaleco e as cores vibrantes simplesmente porque “vilões de cinema não usam roupa roxa” — uma regra inventada que ninguém pediu.

A animação infantil opera sob outra filosofia: respeito à iconografia estabelecida. O público jovem não carrega o preconceito de que “quadrinhos são coisa infantil que precisam ser corrigidos”. Para uma criança de seis anos, o Lagarto com jaleco e calça roxa não é “brega” — é simplesmente como o personagem é. E essa aceitação natural deveria ensinar algo aos executivos que aprovam designs de blockbusters.

Há também uma questão prática: o visual clássico é mais versátil narrativamente. O jaleco remete constantemente à humanidade perdida de Connors. As cores permitem que ele se destaque em qualquer cenário. O focinho pronunciado dá ao personagem uma silhueta única. Remover esses elementos não “eleva” o material — o empobrece.

Veredito: uma lição de fidelidade criativa

O Lagarto de ‘Spidey e Seus Amigos Espetaculares’ não vai ganhar prêmios de inovação visual. Não precisa. Seu mérito está em demonstrar que, às vezes, a melhor adaptação é aquela que confia no material original. Em um cenário onde produções adultas frequentemente confundem “maturidade” com “remover cores e personalidade”, esta animação para crianças entrega algo mais honesto.

Para fãs de longa data do personagem, é um alívio ver uma versão que reconhece o que funciona. Para o público infantil, é uma introdução adequada a um dos vilões mais interessantes da galeria do Homem-Aranha — um cientista cuja transformação em monstro é trágica, não apenas assustadora. O jaleco branco e a calça roxa podem parecer detalhes superficiais, mas carregam o peso de décadas de história.

Se você é pai ou responsável procurando conteúdo de qualidade para crianças, vale a pena conferir — a série está disponível no Disney+ e Disney Junior. Se é um fã adulto frustrado com adaptações que “corrigem” o que não precisa de correção, esta versão serve como um lembrete de que a iconografia clássica ainda tem seu lugar — mesmo que o cinema mainstream insista em ignorá-la.

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Perguntas Frequentes sobre o Lagarto em ‘Spidey e Seus Amigos Espetaculares’

Onde assistir ‘Spidey e Seus Amigos Espetaculares’?

A série está disponível no Disney+ e no canal Disney Junior. Novos episódios da 4ª temporada estreiam às segundas-feiras.

Qual a classificação indicativa de ‘Spidey e Seus Amigos Espetaculares’?

A série é classificada como livre (L), sendo voltada para crianças de 4 a 7 anos. O conteúdo é apropriado para toda a família.

Quando o episódio com o Lagarto foi exibido?

O episódio “Adventures Down the Drain” (“Aventuras nos Esgotos”) foi exibido em 9 de janeiro de 2026, como parte da 4ª temporada da série.

Quem criou o Lagarto nos quadrinhos?

O Lagarto (Dr. Curt Connors) foi criado por Stan Lee e Steve Ditko, aparecendo pela primeira vez em The Amazing Spider-Man #6, publicado em novembro de 1963.

Por que o Lagarto usa jaleco nos quadrinhos?

O jaleco branco remete à identidade do personagem como Dr. Curt Connors, um cientista que perdeu o braço em guerra e tentou regenerá-lo usando DNA de lagarto. A roupa mantém a conexão com sua humanidade, mesmo após a transformação.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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