‘Kohrra’: a minissérie indiana de crime com 100% no RT que passou despercebida

Kohrra Netflix é um policial indiano de 6 episódios que usa o crime como raio‑X social — e explica por que a série mantém 100% no Rotten Tomatoes. Analisamos a atmosfera, o ritmo sem “gordura” e por que a 2ª temporada (2026) merece entrar no seu radar.

Algumas das melhores séries da década passam batido não por falta de qualidade, mas por falta de empurrão do algoritmo. ‘Kohrra’ é um desses casos: um policial indiano (Punjab) que estreou em 2023 e segue com 100% no Rotten Tomatoes — raridade até para “prestige TV” anglófona. Com a segunda temporada lançada em 11 de fevereiro de 2026, a pergunta vira outra: como isso ficou tão invisível por tanto tempo?

O que diferencia Kohrra Netflix não é a premissa “crime + detetives”, e sim o jeito como a série trata o mistério como isca. A investigação existe, mas o centro dramático está no que o crime expõe: masculinidade ferida, arranjos familiares, hierarquias de classe e uma comunidade tentando parecer moderna enquanto preserva velhos pactos. Se você devora ‘True Detective’ pelo clima e pela corrosão moral (não pelos twists), há grandes chances de ‘Kohrra’ virar obsessão.

Por que ‘Kohrra’ não é “só mais um policial”: o crime como raio-X social

Em termos de estrutura, ‘Kohrra’ joga com o familiar: uma dupla de policiais desmontando um caso que parece simples e só piora. Na primeira temporada, um noivo aparece morto dias antes do casamento; na segunda, uma jovem é encontrada morta em um celeiro. A série, porém, evita o vício do procedural que “marca checklist” de suspeitos. Ela prefere o desconforto: cada depoimento revela menos sobre “quem matou” e mais sobre o que as pessoas escondem para continuar vivendo em paz — ou para manter status.

O roteiro é econômico sem ser apressado. Os seis episódios funcionam como um funil: cenas curtas, conversas que soam banais mas deixam farpas, e uma sensação constante de que a verdade está em microgestos. Há um tipo específico de crueldade aqui (no bom sentido): a série confia que você vai captar o que não é dito. Quem assiste distraído perde a metade mais interessante — a moral, não a mecânica.

O que sustenta a nota alta: atmosfera, montagem “sem gordura” e performance contida

O 100% no RT faz sentido quando você percebe a precisão do conjunto. A direção trabalha a atmosfera como narrativa: paisagens rurais e periferias urbanas surgem menos como “cartão-postal” e mais como espaços de pressão, onde todo mundo se conhece e ninguém é realmente íntimo. A fotografia encontra beleza em lugares cansados — e, ao fazer isso, torna o cenário cúmplice do crime em vez de mero pano de fundo.

Na montagem, ‘Kohrra’ não estica cena para “encher minutagem”. Quando repete uma situação (um retorno ao local, uma nova conversa com a família, uma visita que parecia dispensável), é para deslocar o sentido do que já vimos. E as atuações seguem a mesma lógica: contenção, desgaste, reação tardia. A série muitas vezes deixa o peso cair depois da fala — no silêncio, no olhar que evita o outro, na pausa que denuncia culpa ou medo.

Não por acaso, a crítica internacional comprou o pacote cedo. O Decider definiu bem o efeito ao notar que o mistério é terreno conhecido, mas a série “preenche esse mundo com pessoas interessantes e complicadas”. “Pessoas”, não “tipos”. É esse realismo sem glamour que costuma separar o policial descartável do policial que fica.

Segunda temporada (2026): mesma dupla, outro tipo de ferida

Segunda temporada (2026): mesma dupla, outro tipo de ferida

O hiato de quase três anos poderia ter esfriado qualquer conversa, mas aqui funciona como maturação. ‘Kohrra’ não depende de cliffhanger; depende de atmosfera e de consequências. A decisão de manter os dois protagonistas policiais na segunda temporada é crucial: em vez de reiniciar do zero com um “caso da semana” turbinado, a série deixa que o trabalho corroa (ou endureça) relações, crenças e limites.

O crime do celeiro é o gatilho para um tema que atravessa tudo: violência de gênero e a forma como estruturas familiares tradicionais tentam se proteger mesmo quando são parte do problema. É uma temporada pesada, sim, mas cuidadosa com o que mostra e por que mostra. A exploração não está na violência; está no atrito entre o discurso público (“família”, “honra”, “respeito”) e o que acontece quando ninguém está olhando.

O paradoxo da “qualidade invisível”: por que ‘Kohrra’ passou despercebida

Mesmo com 100% de aprovação crítica, 83% do público no RT e nota sólida no IMDb, ‘Kohrra’ segue relativamente fora do radar global. Parte é algoritmo: a Netflix privilegia o que já performa em massa, e conteúdo anglófono continua tendo vantagem de circulação (clipes, memes, entrevistas, marketing). Parte é miopia cultural: muita gente só considera “universal” o que já vem embalado como Ocidente.

Comparar com ‘True Detective’ ajuda, desde que a comparação seja concreta: ‘Kohrra’ compartilha o pessimismo existencial, a investigação como espelho de decadência e o uso de paisagem como comentário moral. A diferença é que, em vez de Louisiana e estrelas em pôster, estamos em Punjab, com um elenco que atua num registro menos performático e mais vivido. O resultado não é “menor”: é só menos traduzido pelo hype.

Veredito: para quem ‘Kohrra’ funciona (e para quem não funciona)

‘Kohrra’ é para quem gosta de policial com subtexto — e para quem entende que ritmo não é velocidade, é tensão. Se você procura tiroteio, reviravolta por episódio e resoluções reconfortantes, provavelmente vai achar “lento”. Agora, se você quer uma série que respeita sua inteligência, que faz o crime doer por razões humanas e que usa seis episódios para chegar onde outras precisariam de doze, vale a maratona.

Com duas temporadas curtas (seis episódios cada), é uma experiência intensa e relativamente rara no catálogo: um thriller que não se vende por espetáculo, mas por consequência. Se o algoritmo não colocou ‘Kohrra’ no seu caminho, aqui está uma correção que realmente melhora o seu feed.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Kohrra’

Quantos episódios tem ‘Kohrra’?

Cada temporada tem 6 episódios. Com duas temporadas, são 12 episódios no total.

Onde assistir ‘Kohrra’?

‘Kohrra’ está disponível na Netflix. Procure por “Kohrra” no catálogo do serviço no Brasil.

Preciso assistir a 1ª temporada para entender a 2ª?

Ajuda, porque a série mantém a dupla de investigadores e aprofunda dinâmicas pessoais. Mas os casos são diferentes por temporada, então dá para acompanhar o novo mistério mesmo sem lembrar de todos os detalhes da 1ª.

‘Kohrra’ é baseada em história real?

Não é divulgada como adaptação direta de um caso real específico. A série trabalha com ficção criminal e comentário social, usando situações plausíveis para retratar tensões contemporâneas no Punjab.

‘Kohrra’ tem cenas pós-créditos?

Não. A narrativa não depende de cenas extras após os créditos para concluir o caso ou criar gancho.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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