‘Karate Kid: Lendas’ joga seguro e perde para a ousadia de ‘Cobra Kai’

A comparação entre ‘Cobra Kai’ e ‘Karate Kid: Lendas’ revela como a série ousou com complexidade moral enquanto o filme recuou para a fórmula segura de 1984. Explicamos por que Johnny Lawrence como anti-herói funcionou e por que reunir Jackie Chan e Ralph Macchio não foi suficiente.

Quando ‘Cobra Kai’ foi anunciada em 2018, a ideia soava como piada. Uma série sequência de um filme de kung-fu dos anos 80? Com o vilão como protagonista? Três criadores com coragem — e a visão de que Johnny Lawrence merecia mais do que ser eternamente o garoto rico que perdeu o torneio. Seis temporadas depois, a série fez algo que poucos spinoffs conseguem: reescreveu o legado da franquia original sem desrespeitá-lo. ‘Karatê Kid: Lendas’, o filme de 2025 que une Ralph Macchio e Jackie Chan, tenta surfar essa onda de sucesso. Mas ao ignorar justamente o que fez ‘Cobra Kai’ funcionar, ele se torna um exemplo claro de como Cobra Kai vs Karate Kid Lendas revela dois caminhos opostos para o mesmo universo — um ousado, o outro acomodado.

Como ‘Cobra Kai’ transformou um antagonista em anti-herói trágico

Como 'Cobra Kai' transformou um antagonista em anti-herói trágico

A primeira temporada de ‘Cobra Kai’ abre com Johnny Lawrence aos 50 e poucos anos. Bêbado, desempregado, morando em um apartamento imundo. O garoto popular do colégio virou um perdedor que nunca superou a derrota de 1984. Essa escolha narrativa — começar pelo fundo do poço do “vilão” — é um ato de subversão que o filme de 2025 não ousou replicar. Johnny não era apenas um antagonista com mais camadas; ele era um espelho de todos que já se sentiram deixados para trás pela vida enquanto o “garoto certo” ganhava tudo.

O que ‘Cobra Kai’ entendeu e ‘Karatê Kid: Lendas’ ignorou é que o público de 2026 não quer heróis unidimensionais. A série pegou um personagem que o filme original tratava como obstáculo — o rico, o valentão, o “inimigo” — e perguntou: “Como ele ficou assim?” A resposta envolvia um sensei abusivo, uma pressão familiar sufocante, e uma derrota pública que definiu sua vida inteira. Johnny Lawrence não era mau; ele era quebrado. E ver um homem quebrado tentar se reconstruir, errando constantemente, era infinitamente mais interessante do que assistir mais uma jornada de underdog.

A série também complicou Daniel LaRusso. O herói original, em ‘Cobra Kai’, desenvolveu um ego proporcional ao seu sucesso. Dono de uma concessionária próspera, ele tratava Johnny com desdém, convencido de sua superioridade moral. A série não poupou ninguém: Daniel podia ser o “bom”, mas suas atitudes às vezes eram tão mesquinhas quanto as de Johnny. Essa zona cinzenta — onde ninguém é totalmente herói ou vilão — é o terreno onde ‘Cobra Kai’ floresceu. É também o terreno que ‘Karatê Kid: Lendas’ evitou completamente.

Por que o filme escolheu o caminho seguro — e perdeu

‘Karatê Kid: Lendas’ é um blockbuster de verão com 58% no Rotten Tomatoes. Fez $117 milhões com orçamento de $45 milhões. Números respeitáveis para um filme que ninguém pediu. Mas o sucesso financeiro mascara o erro criativo: o filme recua para a fórmula que a franquia já tinha superado. Herói jovem, mentores sábios, vilões óbvios, torneio final. Funcionou em 1984. Funcionou menos em 2010. Em 2025, soa como relíquia.

A diferença crucial está no formato e na ambição. Uma série de TV tem horas para desenvolver nuances. Um filme de duas horas precisa ser mais direto. Mas isso não justifica a falta de coragem. ‘Karatê Kid: Lendas’ poderia ter se passado no mesmo universo moralmente complexo de ‘Cobra Kai’. Poderia ter mostrado Daniel ainda lidando com as cicatrizes de sua rivalidade com Johnny, ou Mr. Han confrontando falhas de seu próprio passado. Em vez disso, ambos são mentores perfeitos guiando um aluno perfeitamente simpático contra adversários perfeitamente antipáticos. É kung-fu fast food: você come, esquece, e passa fome de novo.

Há um momento sintomático: a cena em que Ben Wang derrota seu rival no torneio final. A coreografia de luta é competente, a fotografia caprichada. Mas o adversário é tão obviamente cruel, com sorriso de vilão de desenho animado, que qualquer tensão desaparece. Você sabe o resultado antes do primeiro soco. Em ‘Cobra Kai’, quando Miguel enfrenta Hawk ou quando Robbie luta contra Tori, o público genuinely não sabe quem torcer — porque ambos têm razões, ambos têm feridas. Essa incerteza é o que cria envolvimento. O filme optou pela certeza, e pagou o preço.

O que a franquia precisa aprender para sobreviver

O contraste entre os dois projetos expõe uma verdade desconfortável para Hollywood: o público evoluiu mais rápido que os estúdios. Quando ‘Cobra Kai’ estreou, parecia um risco calculado. Na verdade, foi um salto no escuro que funcionou porque seus criadores entenderam que a nostalgia sozinha não sustenta uma história. Você precisa de uma perspectiva nova. Johnny Lawrence como protagonista não era apenas uma reviravolta; era uma rejeição completa da moralidade simplista dos filmes originais.

‘Karatê Kid: Lendas’ representa o oposto: a aceitação passiva dessa moralidade. O filme assume que trazer Jackie Chan e Ralph Macchio juntos é suficiente. Não é. A presença de ícones é gancho, não história. E quando a história é tão previsível quanto a de 1984, a presença dos ícones se torna até um pouco triste — como ver lendas do esporte jogando em times medíocres no final da carreira.

O futuro da franquia depende de aprender a lição certa. Não se trata de fazer mais séries focadas em vilões, ou de continuar ‘Cobra Kai’ indefinidamente. Trata-se de arriscar novamente. ‘Cobra Kai’ funcionou porque partiu de uma pergunta que ninguém estava fazendo: “E o perdedor do torneio, como ele viveu?” ‘Karatê Kid: Lendas’ falhou porque partiu de uma afirmação que todo mundo já conhece: “O bom vence o mau.” A franquia precisa de mais perguntas e menos afirmações.

No fim, ‘Karatê Kid: Lendas’ é um filme competente que será esquecido em meses. ‘Cobra Kai’ é uma série que redefiniu o que um spinoff pode ser. A diferença? Uma teve a coragem de dizer que o vilão merecia ser ouvido. A outra decidiu que heróis e vilões não precisam de complicação. Em 2026, essa simplificação não é apenas artística — é um insulto ao público que a própria franquia ajudou a amadurecer.

Para quem é: Fãs de ‘Cobra Kai’ que querem ver Ralph Macchio em ação — mas preparem-se para decepção. Se você buscava a complexidade moral da série, este não é seu filme. Para novos públicos sem bagagem da franquia, funciona como entretenimento de domingo à tarde: passatempo esquecível.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre Cobra Kai vs Karate Kid Lendas

‘Karate Kid: Lendas’ tem conexão com ‘Cobra Kai’?

Não diretamente. O filme existe no mesmo universo conceitual, mas ignora os eventos e desenvolvimentos de personagens da série. Daniel LaRusso aparece, mas sem referências à sua jornada em ‘Cobra Kai’.

Preciso assistir ‘Cobra Kai’ antes de ver ‘Karate Kid: Lendas’?

Não. O filme funciona isoladamente como uma história de origem tradicional. Porém, quem viu ‘Cobra Kai’ pode sentir falta da complexidade moral que a série estabeleceu.

Onde assistir ‘Karate Kid: Lendas’?

O filme está disponível em plataformas de VOD (aluguel digital) como Amazon Prime Video, Apple TV e Google Play. Ainda não entrou em streaming por assinatura.

Qual é a classificação indicativa de ‘Karate Kid: Lendas’?

O filme recebeu classificação livre nos EUA (PG) e 10 anos no Brasil. É mais voltado para famílias do que ‘Cobra Kai’, que tem classificação 14 anos por temas mais maduros.

Jackie Chan e Ralph Macchio já atuaram juntos antes?

Não. ‘Karate Kid: Lendas’ marca a primeira vez que os dois atuam no mesmo filme. Chan protagonizou o reboot de 2010, enquanto Macchio é o Daniel LaRusso original desde 1984.

Mais lidas

Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

Veja também