‘Jurassic World Rebirth’ resgata o horror natural que a franquia havia perdido

Jurassic World Rebirth acerta onde a trilogia anterior errou: dinossauros voltam a agir por instinto, não por maldade. Mas essa correção não basta para salvar um filme derivativo que se contenta em repetir a linguagem visual de 1993 sem ousar inovar.

Há uma ironia curiosa em Jurassic World Rebirth: ele acerta exatamente o que a trilogia anterior errou grotescamente, e ainda assim não consegue ser um bom filme. É como se um chef finalmente acertasse o ponto do tempero, mas servisse o prato num prato de isopor rachado.

A franquia Jurassic sempre viveu de um medo primordial: o de descobrir que você não está no topo da cadeia alimentar. Steven Spielberg entendeu isso em 1993. Os dinossauros do filme original não eram maus — eram animais. Grandes, imprevisíveis e famintos. Você não os odiava; você só queria estar longe deles quando decidissem comer.

O que a trilogia Jurassic World errou sobre o medo

O que a trilogia Jurassic World errou sobre o medo

A trilogia liderada por Chris Pratt cometeu um erro fundamental: transformou dinossauros em vilões de slasher. O Indominus rex, o Indoraptor, o Giganotosaurus — todos perseguiam protagonistas com uma malícia que beirava o cartoon. Eram quase gênios do mal, planejando emboscadas e brincando com as vítimas.

Isso mata o terror. Quando um dinossauro persegue alguém especificamente, sem nem se interessar em comer a pessoa, ele deixa de ser um animal e vira um Jason Voorhees escamoso. Você pode trocar o Giganotosaurus por um cara com faca e a cena funcionaria igual. O horror natural — aquele medo de estar no lugar errado na hora errada — evaporou completamente.

Reconheço que cresci vendo os filmes originais no VHS, e algo sempre me incomodou nos filmes do Pratt. Não era só a qualidade inferior; era essa sensação de que os dinossauros haviam perdido sua natureza. Eram personagens com motivações, não forças da natureza.

Jurassic World Rebirth finalmente lembra que dinossauros são animais

Foi uma surpresa genuína ver como Jurassic World Rebirth lida com suas criaturas. Até o Distortus rex — o dinossauro geneticamente modificado que poderia facilmente cair no mesmo erro dos filmes anteriores — se comporta como um animal. Ele não persegue ninguém por vingança ou maldade. Ele avalia a situação e decide se vale a pena o esforço de caçar.

Há uma cena específica que ilustra isso perfeitamente: um personagem se esconde enquanto um dinossauro passa perto. No filme de 2015, aquela criatura teria farejado deliberadamente, talvez até dado um sorriso predador (sim, o Indoraptor faz isso). Em Rebirth, o animal simplesmente segue seu caminho porque não detectou nada interessante. É uma diferença sutil que muda completamente o tom.

O horror retorna porque os personagens se sentem insignificantemente pequenos. Eles não são perseguidos; são apenas… comestíveis. Estão no caminho de algo que decide que está na hora do almoço. Essa impessoalidade é aterrorizante de uma forma que perseguições cinematográficas nunca conseguem ser.

Por que acertar os dinossauros não foi suficiente

Aqui está o problema: Jurassic World Rebirth faz uma coisa muito bem, mas tudo o mais é funcional no melhor dos casos. Com 50% no Rotten Tomatoes, o filme não chega nem perto de resgatar a franquia do buraco que ela mesma cavou.

O diretor claramente estudou os filmes do Spielberg — talvez estudado demais. Cada frame parece um tributo ao original, desde os ângulos de câmera até a forma como a tensão é construída. A fotografia usa a mesma paleta de cores saturadas, e a montagem replica o ritmo de revelação gradual do clássico de 1993. Funciona para os dinossauros, mas resulta num filme que nunca estabelece sua própria identidade. É um cover bem executado de uma música que você já conhece de cor.

Depois de três filmes medíocres, a franquia precisava de algo excepcional. Não de um filme que apenas corrige erros básicos. Precisava de um filme que dissesse “esqueça tudo que você viu, aqui está algo novo”. Rebirth não tem essa coragem. Ele é conservador quando ousadia era a única saída.

Um passo na direção certa, mas só um passo

Se você é fã da franquia como eu, vai apreciar o que Jurassic World Rebirth faz com os dinossauros. É um alívio ver criaturas que agem por instinto novamente, que representam o desconhecido em vez de representar o mal. O horror natural voltou, e isso tem valor.

Mas não dá para ignorar que o filme é derivativo, seguro e pouco ambicioso. Ele corrige um sintoma sem tratar a doença. A franquia Jurassic Park foi revolucionária em 1993 porque inventou uma linguagem visual para dinossauros que ninguém havia visto. Trinta e três anos depois, Rebirth se contenta em repetir essa linguagem com competência mediana.

Se isso é suficiente para garantir mais um filme na série, não sei. O público votou com sua bilheteria, e os números foram modestos. Talvez seja hora de a franquia fazer o que seus dinossauros finalmente aprenderam: parar de fingir ter motivações complexas e aceitar sua natureza. Às vezes, um filme sobre monstros grandes precisa apenas ser sobre monstros — e ser bom nisso.

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Perguntas Frequentes sobre Jurassic World Rebirth

Onde assistir Jurassic World Rebirth?

Jurassic World Rebirth está em cartaz nos cinemas desde sua estreia em 2025. Após a janela theatrical, deve chegar às plataformas de streaming — Universal costuma liberar seus títulos no Peacock após alguns meses.

Jurassic World Rebirth é melhor que Jurassic World: Dominion?

Em termos de abordagem dos dinossauros, sim. Rebirth corrige o erro de transformar os animais em vilões cartoonescos. Mas ambos compartilham o mesmo problema: são filmes derivativos que não ousam inovar na franquia.

Precisa ver os filmes anteriores para entender Jurassic World Rebirth?

Não necessariamente. Rebirth funciona como um standalone que não depende pesadamente de continuidade. Conhecer os filmes anteriores ajuda a entender as referências, mas não é obrigatório.

Jurassic World Rebirth tem cenas pós-créditos?

Não. O filme não possui cenas durante ou após os créditos finais. Você pode sair do cinema assim que a tela escurecer.

O que é o Distortus rex em Jurassic World Rebirth?

Distortus rex é o novo dinossauro geneticamente modificado do filme. Diferente do Indominus rex e Indoraptor, ele foi criado para agir como um animal real, não como um vilão consciente — uma correção deliberada dos erros da trilogia anterior.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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