‘Jogos Vorazes’: o que a bilheteria de cada filme diz sobre a saga

Analisamos a bilheteria de cada filme de ‘Jogos Vorazes’ para entender por que ‘Em Chamas’ foi o ápice, como a divisão do final gerou dinheiro mas erodiu entusiasmo, e o que o prequel revela sobre o futuro da franquia sem Jennifer Lawrence.

Os números de bilheteria de uma franquia contam histórias que vão muito além do sucesso comercial. Quando você olha para a bilheteria Jogos Vorazes como um todo, surge um retrato fascinante: não é apenas uma curva de popularidade ascendente e descendente — é um documento sobre como Hollywood aprendeu (e às vezes desaprendeu) a explorar suas propriedades intelectuais. Cada filme revela algo sobre o momento cultural em que foi lançado, as decisões criativas dos estúdios e a relação do público com uma saga que definiu uma geração.

O que importa aqui não é o fato de a franquia ter arrecadado mais de US$ 3 bilhões mundialmente. Isso era esperado. O que realmente interessa é o padrão: o segundo filme foi o ápice, a divisão do final gerou mais dinheiro mas menos entusiasmo, e o prequel trouxe números modestos que dizem muito sobre o estado atual do cinema de estúdio.

Quando ‘Em Chamas’ provou que sequências podem superar o original

Quando 'Em Chamas' provou que sequências podem superar o original

O dado mais revelador de toda a franquia está em 2013: ‘Jogos Vorazes: Em Chamas’ arrecadou US$ 865 milhões — o maior número da série e, para muitos, o melhor filme. Isso não é coincidência. Francis Lawrence assumiu a direção e elevou tudo que funcionou no primeiro filme: a arena mais complexa, o elenco expandido com veteranos como Philip Seymour Hoffman, e uma tensão política que o filme de Gary Ross apenas ensaiava.

O salto de US$ 695 milhões do primeiro para US$ 865 milhões do segundo representa algo raro em franquias: crescimento orgânico. Normalmente, o primeiro filme estabelece o teto, e os subsequentes flertam com ele. Aqui, o público voltou porque o primeiro entregou a promessa — e a máquina de marketing da Lionsgate sabia exatamente como capitalizar isso. O filme arrecadou US$ 161.1 milhões só no fim de semana de estreia nos EUA, recorde para o mês de novembro que só foi quebrado em 2023.

Há também um fator que números puros não capturam: ‘Em Chamas’ chegou num momento em que o público não-leitor de livros tinha descoberto a saga. O primeiro filme criou conversa; o segundo colheu o fruto dessa conversa. Ver Katniss e Peeta fazendo o tour dos vencedores enquanto a revolução fervia nos distritos funcionou como cinema político disfarçado de blockbuster adolescente — algo que ‘Divergente’ tentou replicar com sua sistema de facções e nunca alcançou.

A divisão de ‘A Esperança’: decisão financeira que deixou cicatrizes criativas

Aqui está onde a bilheteria conta uma história complicada. ‘Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1’ fez US$ 758.8 milhões em 2014. ‘O Final’ fez US$ 664.9 milhões em 2015. Juntos, somam mais de US$ 1.4 bilhão — quase o dobro do que um filme único provavelmente teria arrecadado. Financeiramente, a divisão foi um acerto inquestionável.

Mas os números também revelam fadiga. ‘Parte 1’ teve a maior abertura de 2014, mas o boca a boca foi morno. O problema estrutural era óbvio para quem leu o livro: ‘A Esperança’ não tem material suficiente para dois filmes. O resultado foi uma primeira parte com ritmo arrastado, muita política e pouca ação — uma decisão que funcionou para ‘Harry Potter e as Relíquias da Morte’ porque aquele livro tem mais de 600 páginas e múltiplas tramas que precisavam de resolução. ‘A Esperança’ tem 390 páginas.

O declínio de ‘O Final’ em relação à ‘Parte 1’ — quase US$ 100 milhões a menos — sugere que parte do público sentiu-se enganada. Paguei por um filme completo e recebi uma introdução de duas horas. A queda também reflete algo que analistas de bilheteria conhecem bem: filmes divididos artificialmente tendem a ter retornos decrescentes. ‘Crepúsculo’ cometeu o mesmo erro com ‘Amanhecer’, e o público respondeu de forma similar.

Isso não significa que ‘O Final’ seja ruim — pelo contrário. A invasão do Capitólio, com suas armadilhas e mortes chocantes, funciona como um filme de guerra disfarçado de YA. Jennifer Lawrence entregou uma Katniss devastadora, e o final ambíguo sobre o custo emocional da vitória foi corajoso para um blockbuster mainstream. Mas os números não mentem: a divisão diluiu o impacto cultural que um filme único e bem editado poderia ter tido.

2012: como Jennifer Lawrence legitimou uma franquia adolescente

2012: como Jennifer Lawrence legitimou uma franquia adolescente

Quando ‘Jogos Vorazes’ chegou em março de 2012, poucos previam que se tornaria uma das maiores franquias da história. Os US$ 695.2 milhões iniciais foram um sinal claro: algo diferente estava acontecendo. O elenco foi crucial — Jennifer Lawrence vinha de uma indicação ao Oscar por ‘Winter’s Bone’ (2010) e trazia legitimidade dramática para um papel que poderia ter sido apenas mais uma heroína de ação genérica. Ela tinha 21 anos e carregava o peso de uma franquia multimilionária nos ombros.

O contexto também ajudava. Estávamos no auge da era YA (Young Adult), com ‘Crepúsculo’ provando que adolescentes moviam bilheteria, e ‘As Vantagens de Ser Invisível’ mostrando que histórias de formação podiam ter profundidade emocional. ‘Maze Runner: Correr ou Morrer’ e ‘Divergente’ surgiram na esteira, mas nenhum capturou o zeitgeist como ‘Jogos Vorazes’.

O que diferenciou este primeiro filme foi a forma como traduziu a violência implícita do livro para a tela sem alienar o público jovem. A morte de Rue, por exemplo, foi tratada com gravidade que surpreendeu críticos acostumados a descartar adaptações YA como produto descartável. A arena não era apenas um cenário — era um comentário sobre espetáculo e crueldade que o público reconheceu como relevante.

‘A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes’: US$ 361 milhões e o caso dos prequels subestimados

Oito anos após o suposto final da saga, ‘Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes’ trouxe US$ 361.7 milhões — o menor número da franquia. À primeira vista, parece um fracasso. Mas analisar prequels pela mesma lente de sequências diretas é um erro.

Primeiro, o contexto: o filme custou US$ 100 milhões, metade do orçamento de ‘O Final’. Lançou uma nova geração de fãs para uma saga que eles talvez não tivessem descoberto de outra forma. Rachel Zegler como Lucy Gray Baird e Tom Blyth como jovem Snow foram escolhas de elenco que funcionaram criticamente, mesmo que o público não tenha comparecido em massa. O romance de Collins é considerado por muitos — eu incluído — como o melhor livro da série, e a adaptação respeitou essa complexidade.

Segundo, os números fazem sentido para um filme sem Jennifer Lawrence, sem Katniss, e com um protagonista que é, essencialmente, o vilão da saga original. Contar a origem do Presidente Snow foi um risco narrativo que poucas franquias teriam coragem de assumir. Que tenha funcionado bem o suficiente para justificar um sexto filme (‘Sunrise on the Reaping’, com lançamento prevista para 2026) sugere que a Lionsgate entendeu algo importante: a marca ‘Jogos Vorazes’ tem resiliência que transcende personagens específicos.

O legado: quando o público recompensa qualidade e pune ganância

Se eu tivesse que resumir o que a bilheteria de ‘Jogos Vorazes’ ensina, seria isso: o público recompensa qualidade e pune ganância óbvia. ‘Em Chamas’ foi o ápice porque foi o filme mais confiante e bem realizado. A divisão de ‘A Esperança’ gerou dinheiro, mas erodiu entusiasmo. O prequel trouxe números modestos, mas estabeleceu que a franquia pode sobreviver sem sua estrela principal.

Comparando com outras adaptações YA do período, ‘Jogos Vorazes’ sai vitoriosa por uma razão simples: sempre levou sua premissa a sério. Enquanto ‘Divergente’ descambou para o absurdo e ‘Maze Runner’ perdeu fôlego após o primeiro filme, a saga de Katniss manteve coerência temática — poder, mídia, sacrifício — mesmo quando as decisões de estúdio foram questionáveis.

Para fãs da saga, os números confirmam o que já sabíamos: o melhor filme (‘Em Chamas’) também foi o mais bem-sucedido, uma raridade em Hollywood. Para estúdios, há uma lição sobre divisões artificiais de finais — funciona para o caixa, mas deixa cicatrizes na reputação. E para o cinema como um todo, ‘Jogos Vorazes’ permanece como prova de que blockbusters adolescentes podem ter substância, política e consequências reais.

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Perguntas Frequentes sobre a Bilheteria de Jogos Vorazes

Qual foi o filme mais rentável da franquia Jogos Vorazes?

‘Jogos Vorazes: Em Chamas’ (2013) é o filme mais rentável da franquia, com US$ 865 milhões arrecadados mundialmente. É também considerado por muitos críticos e fãs como o melhor filme da série.

Qual é o total da bilheteria de todos os filmes de Jogos Vorazes?

A franquia ‘Jogos Vorazes’ arrecadou aproximadamente US$ 3.3 bilhões mundialmente com seus cinco filmes lançados entre 2012 e 2023. Isso a coloca entre as 20 maiores franquias de cinema da história.

Por que o último filme foi dividido em duas partes?

A divisão de ‘A Esperança’ em dois filmes seguiu uma tendência de Hollywood iniciada por ‘Harry Potter e as Relíquias da Morte’. Financeiramente foi lucrativo (os dois filmes somaram US$ 1.4 bilhão), mas criativamente foi criticada por diluir o impacto da história.

‘A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes’ foi um fracasso de bilheteria?

Não. Com US$ 361.7 milhões contra um orçamento de US$ 100 milhões, o prequel foi lucrativo. Teve o menor número da franquia, mas isso era esperado: não tinha Jennifer Lawrence, não tinha Katniss, e tinha um protagonista vilão. O desempenho foi suficiente para aprovar um sexto filme.

Vai ter mais filmes de Jogos Vorazes?

Sim. ‘Sunrise on the Reaping’, adaptação do romance de Suzanne Collins lançado em 2025, está previsto para chegar aos cinemas em 2026. O filme vai explorar os 50º Jogos Vorazes, conhecidos como o Segundo Massacre Quaternário.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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