‘Joe e a Viagem de Carro’: por que a franquia Madea ignora críticos e domina a Netflix

Analisamos o fenômeno Tyler Perry Madea: como ‘Joe e a Viagem de Carro’ chegou ao topo da Netflix ignorando críticos, e por que US$ 520 milhões em bilheteria provam que existe um público que a crítica especializada insiste em não entender.

Existe um fenômeno no cinema americano que desafia tudo o que aprendemos sobre “qualidade” e “sucesso”. Enquanto críticos especializados torcem o nariz, milhões de espectadores fazem fila — virtualmente falando — para assistir. A franquia Tyler Perry Madea é talvez o exemplo mais fascinante dessa desconexão entre o establishment crítico e o público real. E ‘Joe e a Viagem de Carro’, lançado na Netflix em 2026, é apenas o capítulo mais recente de uma história que dura mais de duas décadas.

O filme estreou diretamente no topo da parada da plataforma e lá permaneceu por semanas. Para os padrões de Perry, é rotina. O longa superou produções como ‘Guerreiras do K-Pop’, o remake de ‘Como Treinar o Seu Dragão’ e o terror aclamado ‘O Telefone Preto’. Sem estrelas de primeira grandeza no elenco. Sem campanha massiva de marketing. Apenas Tyler Perry e seus personagens excêntricos fazendo o que fazem melhor: conectar com um público que a crítica insiste em ignorar.

O fenômeno que os números revelam (e a crítica se recusa a aceitar)

Desde sua estreia em 2005 com ‘Diário de uma Louca’, a personagem Madea apareceu em 14 filmes. O resultado? Mais de US$ 520 milhões em bilheteria. Para contexto: isso é mais do que muitas franquias “prestigiadas” conseguiram com orçamentos três vezes maiores e campanhas globais de marketing. Perry construiu um império praticamente sozinho, escrevendo, dirigindo e frequentemente protagonizando suas próprias produções.

Os scores no Rotten Tomatoes para a franquia variam de 10% a 40% entre críticos. Alguns filmes têm aprovação de apenas 10% da crítica especializada. Já o público? As piores avaliações mal descem de 60%. ‘Madea’s Family Reunion’, por exemplo, tem 26% dos críticos a favor — e 93% do público. Essa lacuna não é anomalia; é a assinatura da carreira de Perry.

Como alguém que estuda cinema há anos, leio esses números como evidência de uma audiência gigantesca sendo servida por um tipo de entretenimento que a crítica não consegue avaliar com as ferramentas tradicionais. Não é questão de “gosto errado” ou “baixo padrão”. Os critérios de avaliação cinematográfica foram construídos por uma elite cultural específica — e essa elite não inclui o público de Perry.

Joe: o herdeiro do trono de Madea

‘Joe e a Viagem de Carro’ funciona como uma extensão natural do universo que Perry construiu. O personagem Joe — irmão de Madea — carrega a mesma energia caótica, a mesma língua afiada, o mesmo prazer em subverter expectativas de “respeitabilidade”. O enredo é simples: uma viagem de carro acompanhando o neto BJ (Jermaine Harris) na jornada até a faculdade. O que poderia ser uma road comedy genérica se transforma, nas mãos de Perry, em algo que seu público reconhece instantaneamente.

Joe é aquele tipo de personagem que fala o que ninguém tem coragem de falar, que quebra regras sociais com um sorriso, que representa uma forma de liberdade que comunidades negras americanas reconhecem profundamente. É o tio sem filtro, a tia que não liga para convenções, o parente que todo mundo tem — mas que raramente aparece no cinema “prestigiado”. O humor de Perry funciona porque é específico: gírias regionais, referências culturais, situações familiares que atravessam gerações.

O que impressiona é a consistência. Perry sabe exatamente o que está fazendo. Cada piada, cada situação absurda, cada momento de caos calculado serve a um propósito: dar ao seu público exatamente o que ele quer. Não é preguiça criativa; é precisão comercial e conhecimento profundo de audiência.

Por que a Netflix funciona melhor para Perry do que o cinema tradicional

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Curiosamente, os filmes anteriores de Perry — especialmente aqueles baseados em suas peças teatrais — tentavam equilibrar as loucuras de Madea com storylines mais sérias. ‘I Can Do Bad All By Myself’ (2009) e o próprio ‘Diário de uma Louca’ tinham dramas familiares pesados correndo paralelos às comédias. A crítica continuou negativa. O público amou.

Com a migração para a Netflix, algo mudou. Perry parece ter abandonado qualquer pretensão de “equilibrar” comédia e drama. ‘Boo! O Halloween de Madea’ é puro delírio cômico. ‘Joe e a Viagem de Carro’ segue o mesmo caminho: uma road movie novelesca que cita ‘Caindo na Estrada’ (2000) e ‘Are We There Yet’ (2005), mas com a assinatura inconfundível de Perry. A recepção crítica piorou proporcionalmente ao aumento do sucesso de audiência.

A plataforma permite que filmes como os de Perry encontrem seu público sem a barreira inicial da crítica especializada. ‘Joe e a Viagem de Carro’ chegou ao topo sem reviews profissionais no Rotten Tomatoes. Isso não é acidente — é o modelo de negócio da Netflix funcionando para um criador que sempre dependeu mais de boca a boca do que de validação institucional.

O legado que a crítica não consegue engolir

Existem paralelos históricos interessantes. Nos anos 90, filmes de ação de Steven Seagal e Jean-Claude Van Damme dominavam videolocadoras enquanto críticos reviravam os olhos. Nos anos 2000, comédias românticas com Jennifer Lopez e Matthew McConaughey eram massacradas — e faziam milhões. A diferença com Perry? Ele construiu um universo coerente, personagens recorrentes, uma mitologia própria. E o fez como homem negro, para uma audiência predominantemente negra, sem pedir permissão para Hollywood.

As ferramentas tradicionais de avaliação falham com Perry. Suas películas não aspiram a “grande arte” no sentido que Cannes ou a Film Comment entendem. Elas aspiram a conexão. Entretenimento. Representação. E nisso, Perry é mestre. Questionar sua “qualidade” usando métricas de cinema de autor é como avaliar um jogo de basquete com regras de tênis.

‘Joe e a Viagem de Carro’ não vai converter quem já decidiu que odeia Perry. Se você entra esperando cinema “prestigiado”, vai sair frustrado. Mas se você entende o que Perry está fazendo — e para quem ele está fazendo — o filme funciona como relógio suíço. É engraçado no momento certo, caótico na medida certa, emocionante onde precisa ser.

O legado da franquia Tyler Perry Madea já está escrito: US$ 520 milhões em bilheteria, 14 filmes, duas décadas de relevância cultural. A crítica pode continuar torcendo o nariz. A Netflix vai continuar dando espaço. E o público vai continuar assistindo. Porque Perry criou algo que poucos diretores conseguem: um cinema que pertence genuinamente ao seu público — raro em uma indústria que costuma falar sobre audiências, raramente com elas.

Se você curte comédias caóticas com coração e não liga para validação crítica, ‘Joe e a Viagem de Carro’ é exatamente o que procura. Se prefere cinema “prestigiado”, talvez seja hora de se perguntar: prestigiado por quem? E para quem?

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Perguntas Frequentes sobre Tyler Perry e Madea

Quantos filmes tem a franquia Madea?

A franquia Madea tem 14 filmes, começando com ‘Diário de uma Louca’ em 2005 e incluindo ‘Joe e a Viagem de Carro’ (2026). O total acumula mais de US$ 520 milhões em bilheteria mundial.

Onde assistir os filmes de Madea?

Os filmes mais recentes de Madea, incluindo ‘Joe e a Viagem de Carro’, estão disponíveis na Netflix. Os títulos anteriores podem ser encontrados em plataformas de aluguel digital como Amazon Prime Video, Apple TV e Google Play.

Tyler Perry sempre interpretou Madea?

Sim. Tyler Perry criou e interpretou Madea em todos os 14 filmes da franquia, além de peças teatrais desde os anos 90. Ele também interpreta Joe, irmão de Madea, em filmes como ‘Joe e a Viagem de Carro’.

Por que os filmes de Madea têm notas baixas de críticos?

Críticos geralmente avaliam os filmes de Perry com métricas de cinema de autor — profundidade psicológica, inovação formal, complexidade narrativa. Perry faz comédia popular com foco em conexão emocional e representação cultural, objetivos que essas ferramentas não medem adequadamente.

‘Joe e a Viagem de Carro’ tem a personagem Madea?

Não. ‘Joe e a Viagem de Carro’ foca no personagem Joe, irmão de Madea, também interpretado por Tyler Perry. É um spin-off que expande o universo sem a presença da protagonista principal.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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