‘Isso Vai Doer’: a série médica mais honesta (e dolorosa) do streaming

Analisamos por que ‘Isso Vai Doer’ série é o retrato mais visceral e honesto do colapso da saúde pública já produzido. Entenda como o humor ácido de Adam Kay e a atuação brilhante de Ben Whishaw expõem o custo humano de um sistema quebrado, superando o glamour das produções médicas tradicionais.

Esqueça o glamour estéril de ‘Grey’s Anatomy’ ou os diagnósticos impossíveis de ‘House’. ‘Isso Vai Doer’ série (This Is Going to Hurt) não está interessada em heróis de jaleco branco salvando o dia com trilhas sonoras épicas. O que a minissérie da BBC entrega é algo muito mais raro e desconfortável: o cheiro de antisséptico misturado ao cansaço crônico de quem opera no limite da sanidade.

Baseada nos diários reais de Adam Kay, a produção é um soco no estômago que utiliza o humor ácido como única defesa possível contra um sistema em colapso. Com 96% de aprovação no Rotten Tomatoes, ela é a prova de que a honestidade brutal ainda é a melhor ferramenta narrativa para falar sobre saúde pública.

O realismo sujo que falta nas séries médicas

O realismo sujo que falta nas séries médicas

A primeira coisa que você nota em ‘Isso Vai Doer’ é a estética. Diferente das luzes vibrantes de Hollywood, aqui temos uma paleta de cores lavada, quase clínica, capturada por uma câmera que se move de forma frenética pelos corredores do NHS (o sistema de saúde britânico). A sensação é de claustrofobia constante.

Uma cena específica define o tom: Adam (Ben Whishaw) tentando remover o sangue de sua camisa no estacionamento do hospital, apenas para perceber que o turno seguinte começa em minutos. Não há tempo para o luto, para o asseio ou para o descanso. A série foca no processo — a burocracia burra, a falta de leitos e a decisão de vida ou morte tomada por alguém que não dorme há 24 horas.

Ben Whishaw e a desconstrução do médico carismático

Ben Whishaw entrega aqui a melhor atuação de sua carreira. Seu Adam Kay é, muitas vezes, detestável. Ele é arrogante com os residentes, sarcástico com as pacientes e emocionalmente indisponível para o parceiro. Mas o roteiro, escrito pelo próprio Kay, não pede desculpas por isso.

A quebra da quarta parede — quando Adam olha para a câmera para destilar seu veneno — não serve para nos tornar cúmplices de suas piadas, mas para nos puxar para dentro de sua exaustão. Entendemos que o cinismo não é um traço de personalidade, mas uma armadura de sobrevivência. Quando essa armadura racha, como na sequência devastadora envolvendo uma pré-eclâmpsia não detectada, o impacto é físico para o espectador.

A tragédia silenciosa de Shruti Acharya

A tragédia silenciosa de Shruti Acharya

Se Adam é o veterano cínico, Shruti (Ambika Mod) é o coração da série — e é ela quem carrega o peso do arco mais doloroso. Acompanhar sua evolução de uma residente dedicada a uma profissional esgotada, que estuda para exames de especialização enquanto faz triagens infinitas, é assistir a uma tragédia em câmera lenta.

A série faz uma crítica feroz ao modo como os sistemas de saúde tratam seus iniciantes. Shruti não é vítima de um vilão específico, mas de uma engrenagem que espera perfeição divina de seres humanos falíveis. A atuação de Mod é contida, baseada em olhares perdidos e silêncios que dizem muito mais do que os diálogos afiados de Adam.

Por que comparar com ‘The Pitt’?

Com o sucesso recente de ‘The Pitt’ na Max, a comparação é inevitável. Ambas compartilham o desejo de desmistificar a medicina. No entanto, enquanto ‘The Pitt’ foca na dinâmica de grupo e na adrenalina do pronto-socorro, ‘Isso Vai Doer’ é um estudo de personagem mais íntimo e melancólico. É menos sobre a ‘ação’ de salvar vidas e mais sobre o ‘custo’ de tentar salvá-las sem os recursos necessários.

Veredito: Você deve assistir?

Não é uma série para ‘relaxar’. É uma obra que exige disponibilidade emocional e estômago para lidar com a realidade de partos complicados e erros médicos fatais. Mas, num mar de conteúdos procedurais genéricos, ‘Isso Vai Doer’ série se destaca como um documento humano essencial.

Ela nos lembra que, por trás de cada estatística de hospital, existe alguém que abriu mão da própria vida para tentar manter a de outra pessoa. É doloroso, sim. Mas é, acima de tudo, profundamente verdadeiro.

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Perguntas Frequentes sobre a série ‘Isso Vai Doer’

Onde posso assistir à série ‘Isso Vai Doer’?

No Brasil, ‘Isso Vai Doer’ (This Is Going to Hurt) está disponível no catálogo da Max (antiga HBO Max) e também pode ser encontrada para compra ou aluguel em plataformas digitais como Apple TV+.

A série é baseada em uma história real?

Sim. A série é adaptada do livro de memórias ‘This Is Going to Hurt: Secret Diaries of a Junior Doctor’, escrito por Adam Kay, que trabalhou como médico residente no sistema público de saúde do Reino Unido (NHS) antes de se tornar roteirista.

‘Isso Vai Doer’ terá uma 2ª temporada?

Não. A produção foi concebida como uma minissérie de 7 episódios e cobre o arco completo do livro original. Até o momento, não há planos para uma continuação.

Qual é a classificação indicativa da série?

A série tem classificação indicativa para maiores de 16 anos, devido a cenas realistas de procedimentos médicos, linguagem forte e temas sensíveis como depressão e suicídio.

Quem interpreta o protagonista Adam Kay?

O protagonista é interpretado pelo premiado ator britânico Ben Whishaw, conhecido por seus papéis em ‘007 – Skyfall’ (como Q) e ‘Paddington’.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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