‘Halloween Ends’: por que Michael Myers deveria ter morrido no início

Defendemos a tese de que ‘Halloween Ends’ desperdiçou seu potencial ao trazer Michael de volta no terceiro ato. Michael deveria estar morto desde o início, com Corey como o novo ‘Shape’ — um final que honraria a mitologia do mal como entidade que muda de forma, em vez do confronto genérico que já vimos.

Vou dizer algo que vai contrariar a maioria dos fãs de terror: ‘Halloween Ends’ estava a uma decisão de roteiro de ser um final genial para a trilogia. Não estou sendo provocador por provocar — estou falando sério. O filme tinha todos os elementos para subverter expectativas de forma significativa, mas jogou tudo fora no último ato por medo de entregar o que prometeu.

O problema central não é Corey Cunningham. Nem é a ausência de Michael Myers na maior parte do filme. O problema é que David Gordon Green construiu uma premissa sobre o mal como uma entidade que transcende corpos — ‘The Shape’, como John Carpenter sempre chamou — e no momento crucial decidiu que era melhor um confronto genérico do que honrar essa ideia. Michael Myers deveria estar morto desde a primeira cena. E vou explicar exatamente por quê.

A premissa que ‘Halloween Ends’ estabeleceu e depois abandonou

A premissa que 'Halloween Ends' estabeleceu e depois abandonou

Desde o original de 1978, a franquia ‘Halloween – A Noite do Terror’ opera sob uma ideia simples mas poderosa: o mal não morre, apenas muda de forma. Michael Myers não é um homem — é ‘The Shape’, uma encarnação do puro mal que assume forma física. Isso não é metáfora. É a mitologia que Carpenter estabeleceu desde o primeiro filme, quando o psicólogo Sam Loomis descreve Michael como alguém com ‘olhos negros, os olhos do diabo’.

A trilogia de David Gordon Green entendeu isso melhor que qualquer outra sequência. ‘Halloween Kills: O Terror Continua’ foi explícito: não existe explicação para Michael, não há trauma de infância, não há razão psicológica. Ele simplesmente é. O filme inteiro constrói a ideia de que Haddonfield projeta seu medo coletivo nele, e isso o torna mais forte. É uma leitura quase sobrenatural do personagem — irônica, considerando que Green declarou em entrevistas que seu Michael é ‘apenas humano’.

‘Halloween Ends’ começa com uma premissa perfeita para concluir essa ideia: passaram-se cinco anos, Michael desapareceu, Haddonfield está tentando seguir em frente. E então surge Corey Cunningham — um jovem que acidentalmente matou uma criança anos atrás e foi transformado em pária pela cidade. O paralelo com Michael é óbvio desde o primeiro frame: outro homem jovem marcado por um ato de violência, outra vida destruída por um momento. A diferença? Corey não escolheu ser o que se tornou. Ou escolheu?

Corey como o verdadeiro ‘Shape’: o desenvolvimento que funciona

A primeira metade de ‘Halloween Ends’ é, surpreendentemente, a parte mais interessante do filme. Rohan Campbell constrói Corey como alguém que está sendo corrompido gradualmente — não por demônios sobrenaturais, mas pelo ódio que a cidade projeta nele. Cada olhar de desprezo, cada sussurro nas costas, cada porta fechada empurra ele mais perto do abismo. É uma leitura sociológica do mal: Haddonfield criou seu próximo monstro do mesmo jeito que contribuiu para criar o primeiro.

A cena em que Corey encontra Michael no esgoto é onde o filme brilha — e também onde começa a falhar. Até aquele momento, você pode ler a sequência de duas formas: Michael está vivo e ‘passa o legado’ para Corey, ou Michael já está morto e o que Corey encontra é… algo mais. O filme nunca deixa isso claro de propósito, e é exatamente aí que reside a genialidade desperdiçada.

Corey começa a agir como Michael. Ele aprende os métodos. Ele some completamente quando coloca a máscara — nos últimos 40 minutos, não há mais Corey, apenas uma silhueta branca cometendo assassinatos com a mesma brutalidade que conhecemos. O filme está dizendo explicitamente: o mal encontrou um novo hospedeiro. ‘The Shape’ mudou de forma. Isso não é subtexto — é o texto literal do filme.

O erro fatal: Michael Myers retorna e destrói a tese

O erro fatal: Michael Myers retorna e destrói a tese

E então, no terceiro ato, ‘Halloween Ends’ faz exatamente o que toda franquia de terror faz quando perde coragem: traz o vilão clássico de volta para um confronto final. Michael mata Corey. Laurie enfrenta Michael. Eles lutam. Ela vence. Fim.

É funcional. É competente. É exatamente o que você esperaria de qualquer filme de terror mainstream. E é por isso que é uma traição à premissa que o próprio filme estabeleceu.

Pense comigo: se o tema central da trilogia é que o mal é uma entidade que transcende indivíduos, que ‘The Shape’ pode assumir qualquer forma, então o final perfeito seria Laurie descobrir que Michael já estava morto. Imagine ela arrancando a máscara no confronto final e encontrar Corey — não como uma surpresa barata, mas como uma revelação temática devastadora. Todo esse tempo, ela perseguiu um homem que já estava morto, enquanto o verdadeiro mal crescia bem na frente dela, em forma de um jovem que ela até começou a aceitar como namorado da neta.

Isso completaria a jornada de Laurie de forma muito mais poderosa. Os dois primeiros filmes a mostram obcecada por Michael, incapaz de viver uma vida normal porque precisa destruir esse mal. Descobrir que Michael morreu sozinho em um esgoto, esquecido, enquanto o mal simplesmente… mudou de forma? Isso seria um soco no estômago narrativo. Isso seria a conclusão que a trilogia merecia.

Por que Michael Myers morto seria a reviravolta perfeita

David Gordon Green insistiu que seu Michael Myers é humano. Não é sobrenatural. Não é imortal. É um homem. A maioria dos fãs achou isso inconsistente com o que aparece na tela — o cara sobrevive a tiros, facadas, incêndios, espancamentos coletivos. Mas e se essa insistência fosse a preparação para uma revelação que nunca veio?

Imagine: Corey desce ao esgoto e encontra o corpo de Michael Myers. Morto. Podre. Talvez apenas um esqueleto com a máscara. O ‘Michael’ que ele seguiu, de quem ele aprendeu, não era o homem — era ‘The Shape’, a entidade do mal que o próprio Green disse existir separadamente. Corey então se torna o novo hospedeiro. A corrupção acontece não por escolha, mas por contágio.

Essa reviravolta resolveria três problemas de uma vez: validaria a afirmação de que Michael é humano (ele morreu como qualquer outro morreria), honraria a mitologia de ‘The Shape’ como entidade que muda de forma, e daria a Laurie um final tematicamente rico — ela teria que aceitar que destruir Michael nunca foi a solução, porque o mal não é uma pessoa, é uma força que sempre encontrará novos hospedeiros.

A cena final com a cidade toda se reunindo para destruir o corpo de Michael? Funcionaria muito melhor com o corpo de Corey. A mensagem seria clara: Haddonfield finalmente entende que o monstro não é um homem específico, mas o ciclo de violência que a própria cidade alimenta. Eles destroem o hospedeiro atual, mas a mensagem implícita é sombria — outro virá. O mal sempre encontra nova forma.

Uma trilogia quase genial

‘Halloween Ends’ não é um filme ruim. Tem cenas de tensão bem construídas, atuações sólidas — Jamie Lee Curtis continua entregando tudo que Laurie Strode merece — e uma fotografia que captura o horror pequeno e pessoal que Carpenter estabeleceu. O problema é que ele é medro demais. Escolheu o final que satisfaz o público que quer ver Laurie vs. Michael uma última vez, em vez do final que satisfaz a história que a própria trilogia contou.

Fica a sensação de que David Gordon Green teve a ideia certa, mas não teve coragem de ir até o fim. Franquias de terror raramente matam seus ícones de verdade — Jason volta, Freddy volta, Michael volta. Mas ‘Halloween Ends’ se chamava ‘Ends’. Prometia um final. E o final que entregou é o mesmo que já vimos dezenas de vezes: a heroína vence, o monstro morre (até o próximo reboot).

O final que proponho seria mais sombrio, mais desafiador, menos satisfatório no sentido tradicional. Mas seria honesto com a premissa. Seria ousado. Seria algo que nenhuma franquia de terror mainstream teve coragem de fazer: admitir que o mal não pode ser derrotado com facas e armas, porque ele não vive em corpos — vive em comunidades, em medos coletivos, em ciclos de ódio que se perpetuam.

Se você assistiu ‘Halloween Ends’ e saiu frustrado, talvez seja porque seu instinto percebeu algo que o filme quase disse: Michael Myers morreu anos antes da câmera ligar. O que você viu na tela era apenas a sombra de uma ideia — uma ideia que o filme teve, desenvolveu, e então abandonou quando ficou assustado demais para se comprometer. E isso, para mim, é mais assustador que qualquer coisa que a máscara branca já produziu.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Halloween Ends’

Onde assistir ‘Halloween Ends’?

‘Halloween Ends’ está disponível na Amazon Prime Video no Brasil. O filme chegou simultaneamente nos cinemas e na plataforma em outubro de 2022.

‘Halloween Ends’ é o último filme da franquia?

É o último filme desta trilogia de David Gordon Green e o encerramento do contrato da Blumhouse com a franquia. Porém, a Universal já anunciou planos para reiniciar a série com novos filmes futuros.

Por que Michael Myers aparece tão pouco em ‘Halloween Ends’?

Michael Myers tem cerca de 10 minutos de tela em ‘Halloween Ends’. A escolha foi deliberada: o filme foca em Corey Cunningham para explorar a ideia de que o mal pode mudar de hospedeiro — conceito que o artigo analisa em detalhes.

Precisa ver os filmes anteriores para entender ‘Halloween Ends’?

Sim. ‘Halloween Ends’ é o terceiro filme de uma trilogia que começou em 2018. Recomenda-se assistir pelo menos ‘Halloween (2018)’ e ‘Halloween Kills’ antes, pois o filme assume conhecimento do arco de Laurie Strode e da mitologia estabelecida.

Quem é Corey Cunningham em ‘Halloween Ends’?

Corey Cunningham, interpretado por Rohan Campbell, é um jovem que acidentalmente matou uma criança enquanto fazia babá anos antes. O filme o apresenta como um novo ‘Shape’ potencial — alguém corrompido pelo ódio que Haddonfield projeta nele, funcionando como espelho de Michael Myers.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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