‘Guerra Mundial Z’: 13 anos depois, ainda é o maior blockbuster de zumbis

Treze anos depois, ‘Guerra Mundial Z’ continua no topo dos streamings não por ser perfeito, mas por ser honesto: um blockbuster de zumbis com escala épica que entrega exatamente o que promete. Analisamos por que a produção conturbada resultou em um frankenstein que funciona, e o que aconteceu com a sequência de David Fincher.

Em uma era onde blockbusters de 2023 já parecem datados antes de chegarem ao streaming, existe algo quase surreal em ver ‘Guerra Mundial Z’ disputando audiência com lançamentos fresquinhos de 2026. Treze anos depois de sua estreia, o filme de Marc Forster não apenas resistiu ao tempo como se tornou uma espécie de padrão-ouro involuntário: o maior — e mais puro — blockbuster de zumbis já feito pelo Hollywood moderno.

A persistência do filme nos rankings da Paramount+ (onde atualmente ocupa o terceiro lugar, atrás apenas de novidades como ‘Missão: Impossível – Acerto Final’) não é coincidência. Enquanto a maioria dos filmes de ação envelhece mal, ‘Guerra Mundial Z’ continua a exercer um fascínio específico, aquele que nasce da tensão entre suas ambições descomunais e suas limitações óbvias. É um filme problemático, sim, mas honesto sobre o que entrega: escala pura, sem pretensões de ser algo mais que entretenimento visceral.

De Romero a Bond: como o filme subverteu o zumbi intimista

De Romero a Bond: como o filme subverteu o zumbi intimista

Desde ‘A Noite dos Mortos-Vivos’ (1968), a tradição de George A. Romero estabeleceu uma gramática clara para o gênero: grupos pequenos de sobreviventes, locais isolados, tensão psicológica construída pelo confinamento. O horror vinha da claustrofobia, não da amplitude. ‘Guerra Mundial Z’ inverte completamente essa lógica.

Aqui, não há casa de campo ou shopping center para se esconder. O apocalipse é literalmente global, e o protagonista Gerry Lane (Brad Pitt) não é um pai desesperado protegendo o quintal — é um investigador da ONU atravessando continentes em missão quase impossível. A transformação é total: o filme abandona o terror de sobrevivência para abraçar a estrutura de um thriller de espionagem, algo entre ‘007’ e ‘Corra Que a Polícia Vem Aí!’, só que com hordas de infectados em vez de vilões humanos.

Essa mudança de escala é o que define a identidade do filme. Quando vemos zumbis escalando muralhas de Jerusalém formando uma pirâmide humana de carnificina — cena filmada com câmeras IMAX 70mm que capturam milhares de figurantes em movimento simultâneo —, ou a sequência claustrofóbica dentro de um avião transatlântico onde um único infectado se multiplica em segundos, estamos vendo algo que nenhum outro filme do gênero tentou antes em termos de dimensão física. É cinema como espetáculo de massa, não como meditação existencial.

A beleza dos problemas: por que os defeitos funcionam

Vou ser direto: o roteiro de ‘Guerra Mundial Z’ é um frankenstein. A produção foi notoriamente conturbada, com reescritas infinitas lideradas por Damon Lindelof e Drew Goddard, refilmagens massivas (incluindo o terceiro ato inteiro, que originalmente envolvia uma batalha em Moscou) e um orçamento que disparou de $125 milhões para cerca de $190 milhões. O resultado é uma narrativa episódica, onde cada país visitado (Coreia do Sul, Israel, País de Gales) funciona quase como um capítulo independente, com pouca coesão dramática entre eles.

Mas aqui está o insight que separa críticos de curadoria algorítmica: essa fragmentação, que seria fatal em um drama character-driven, torna-se virtude no contexto de ação global. O filme não tenta ser ‘The Walking Dead’ (que estava no auge exatamente quando ‘Guerra Mundial Z’ saiu). Ele aceita sua natureza de montagem de set-pieces e executa cada um deles com precisão cirúrgica. A cena do avião, em particular, é um masterclass de edição rítmica — você sente o peso da claustrofobia mesmo dentro de um blockbuster que, minutos antes, mostrava helicópteros sobre o Muro das Lamentações.

Brad Pitt, aliás, entende exatamente o filme que está fazendo. Não é uma performance de nuances psicológicas (como em ‘O Árvore da Vida’ ou ‘Ad Astra’), mas de presença física e urgência. Ele serve como âncora humana em meio ao caos, e isso é suficiente. Seu cabelo desgrenhado e jaqueta de couro tornaram-se icônicos justamente por representarem um tipo de herói de ação dos anos 90 transplantado para um apocalipse contemporâneo.

O livro que não virou filme (e por que isso não importa)

O livro que não virou filme (e por que isso não importa)

Para fãs do material original de Max Brooks, ‘Guerra Mundial Z’ permanece uma traição. O livro ‘Guerra Mundial Z: Uma História Oral da Guerra Zumbi’ é uma narrativa pós-moderna, um pastiche documental inspirado em ‘The Good War’ de Studs Terkel, onde diferentes vozes relatam a pandemia de perspectivas distintas. É político, antropológico, estruturalmente inadaptável para uma narrativa linear de três atos.

O filme abandonou tudo isso em favor de uma trama de busca por uma cura, transformando a obra em um mashup de ‘Resident Evil’ e ‘Extermínio’. E sabe o que? Funciona. A adaptação literal do livro seria uma minissérie de dez episódios na HBO, não um evento cinematográfico de verão. O cinema de Forster escolheu ser ‘O Dia Depois de Amanhã’ com zumbis, e essa honestidade de gênero é refrescante em tempos onde todo blockbuster tenta ser “importante” demais.

A sequência que David Fincher quase fez (e o que perdemos)

Aqui entra o capítulo mais fascinante da história: o que poderia ter sido. Após o sucesso de bilheteria (maior de um filme de zumbis na história, com $540 milhões mundial), a Paramount planejava uma trilogia que misturaria o realismo visceral de Bourne com a densidade de ‘The Walking Dead’. J.A. Bayona (‘O Orfanato’) foi anunciado, depois saiu. Steven Knight (‘Peaky Blinders’) escreveu roteiros que ninguém leu.

Mas o verdadeiro sonho dos cinéfilos surgiu em 2017: David Fincher entrou para dirigir ‘Guerra Mundial Z 2’. Seria a quarta colaboração entre o mestre do thriller psicológico e Pitt, após ‘Seven’, ‘Clube da Luta’ e ‘O Curioso Caso de Benjamin Button’. As expectativas eram absurdas: Fincher queria transformar a franquia em algo íntimo, character-driven, focando na relação entre Gerry e seu filho, em uma trama comparável ao que posteriormente veríamos em ‘The Last of Us’ da HBO.

Fincher passou meses em pré-produção, desenvolvendo uma abordagem que misturaria a ação do primeiro filme com a densidade psicológica de ‘Zodiac’. O projeto estava tão avançado que chegou a ter data de lançamento (junho de 2019), antes que o diretor comprometesse-se com ‘MINDHUNTER’ para a Netflix. Em fevereiro de 2019, o estúdio puxou o tapete. Cancelado. Definitivamente. O motivo oficial foi orçamento; o real, provavelmente, a relação conturbada entre Fincher e a Paramount durante ‘Benjamin Button’.

A pergunta que não quer calar: teria sido melhor? Provavelmente, sim. Mas talvez ‘Guerra Mundial Z’ como existente seja mais interessante justamente por sua natureza única, acidental e irrepetível. Uma sequência de Fincher teria legitimado o filme original como primeiro capítulo de uma saga épica. Assim, permanece como um monumento solitário: o dia em que Hollywood resolveu fazer um filme de zumbis com o orçamento de ‘Avatar’ e a velocidade de ‘Corra Que a Polícia Vem Aí!’.

O veredito: para quem é (e para quem não é)

Treze anos depois, ‘Guerra Mundial Z’ permanece no topo não porque seja uma obra-prima, mas porque cumpre uma promessa rara: entregar exatamente o que o trailer vende. Em tempos de CGI descartável e universos cinematográficos que exigem dever de casa, há algo quase revolucionário em um filme que você pode assistir sem contexto algum, entender perfeitamente, e sair com a adrenalina alta.

Se você procura terror psicológico profundo, metáforas sociais complexas ou desenvolvimento de personagens que rivalizem com ‘The Last of Us’, passe longe. Mas se você quer ver zumbis correndo mais rápido que o metrô de Nova York, escalar muros de quinze metros de altura e transformar um avião comercial em um caixão voador de duzentos corpos, este é o seu filme. E aparentemente, continuará sendo por mais uma década.

Reassisti recentemente em uma tela menor (longe do IMAX de 2013) e confirmo: a economia narrativa brutal do filme — aquela capacidade de ir do silêncio ao caos absoluto em segundos — não envelheceu. A fotografia de Ben Seresin, apesar de digital, mantém uma textura granulada que esconde bem os efeitos. Enquanto isso, sigo esperando que algum dia alguém tente fazer algo equivalente em escala. Até lá, ‘Guerra Mundial Z’ permanece sozinho no topo.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Guerra Mundial Z’

Onde assistir ‘Guerra Mundial Z’ em 2026?

O filme está disponível no Paramount+ no Brasil, onde atualmente ocupa o terceiro lugar no ranking de audiência da plataforma. Também pode ser alugado ou comprado digitalmente na Amazon Prime Video, Apple TV e Google Play.

Por que a sequência com David Fincher foi cancelada?

A Paramount cancelou ‘Guerra Mundial Z 2’ em fevereiro de 2019, meses antes do início das filmagens. Embora o estúdio cite orçamento, a decisão teve relação com desentendimentos anteriores com Fincher durante ‘O Curioso Caso de Benjamin Button’ e a preferência do diretor por focar na série ‘MINDHUNTER’ para a Netflix.

O filme é fiel ao livro de Max Brooks?

Não. O livro é uma narrativa pós-moderna em formato de história oral com múltiplas perspectivas. O filme adaptou apenas o conceito de pandemia global, transformando-o em um thriller de ação linear focado em um único protagonista. Para fãs do livro, é considerada uma adaptação livre (ou traição, dependendo do ponto de vista).

Qual a duração e classificação indicativa de ‘Guerra Mundial Z’?

O filme tem 1 hora e 56 minutos de duração. No Brasil, é classificado como 14 anos, contendo cenas de violência intensa, tensão sustentada e mortes gráficas (embora sem sangue excessivo, característica dos zumbis “corredores” do filme).

Por que ‘Guerra Mundial Z’ continua popular nos streamings depois de 13 anos?

O filme permanece relevante por ser um dos poucos blockbusters de zumbis com escala verdadeiramente global (orçamento de $190 milhões) que não exige conhecimento prévio de universos cinematográficos. Sua economia narrativa — ir do silêncio ao caos em segundos — envelheceu melhor que efeitos visuais mais datados de filmes similares.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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