‘Golpe Duplo’: a química entre Margot Robbie e Will Smith que conquista a Netflix

A química entre Margot Robbie e Will Smith é o verdadeiro protagonista de ‘Golpe Duplo’. Analisamos por que essa dinâmica fez o filme ressurgir na Netflix quase uma década após a estreia — e onde o thriller falha.

Existem filmes que dependem de twist final. Outros, de sequências de ação caras. ‘Golpe Duplo’ pertence a uma categoria mais rara: aquele cujo maior trunfo é a dinâmica entre dois atores no auge do seu carisma. Não é coincidência que, quase uma década após a estreia, ‘Golpe Duplo’ Margot Robbie e Will Smith estejam no topo da Netflix — com 5,4 milhões de visualizações em uma única semana. O público sabe o que alguns críticos ignoraram: essa química vale o ingresso.

O filme chegou aos cinemas em 2015 carregando expectativas moderadas. Arrecadou mais de 150 milhões de dólares, números respeitáveis para um thriller de vigaristas com orçamento intermediário. Mas o que explica esse ressurgimento no streaming? Por que espectadores em 2024 ainda se deixam conquistar por essa dupla?

A química que não se ensina — e não se fabrica

A química que não se ensina — e não se fabrica

Will Smith interpreta Nicky, um golpista experiente que vê em Jess (Margot Robbie) uma aprendiz promissora. O roteiro poderia ter seguido o caminho fácil: mentor apaixonado por pupila, romance convencional, conflito previsível. Em vez disso, os dois atores criam algo mais interessante — uma relação construída em camadas de confiança e desconfiança simultâneas.

Repare na cena do restaurante em Nova Orleans, quando Nicky ensina Jess a observar detalhes imperceptíveis. A câmera de Xavier Pérez Grobet, diretor de fotografia, os mantém em plano médio, sem cortes excessivos, obrigando o espectador a acompanhar cada microexpressão. Smith está relaxado, quase brincalhão; Robbie contrapõe com intensidade controlada. É aula de acting sem parecer aula — você acredita naquele momento porque eles acreditam.

A direção de Glenn Ficarra e John Requa acerta ao não forçar o romance. Quando acontece, parece consequência natural de duas pessoas que passam semanas compartilhando espaço, risco e adrenalina. O filme entende algo que muitas produções românticas esquecem: atração não se declara, se demonstra.

Por que Margot Robbie brilha mesmo em material desigual

Em 2015, Robbie ainda era conhecida principalmente por ‘O Lobo de Wall Street’ — aquele papel que poderia tê-la condenado a “a loira de Scorsese”. ‘Golpe Duplo’ chegou para provar que ela tinha alcance. Jess não é apenas interesse romântico; é personagem com arco próprio, passando de novata desesperada a profissional calculista.

A transição acontece gradualmente, e Robbie a executa com precisão. Observe como ela segura o olhar nas cenas de apostas — primeiro com ansiedade, depois com confiança fria. A atriz compreende que o filme pede leveza, mas nunca permite que Jess se torne caricatura de “golpista sexy”. Há inteligência ali, e determinação, e algo vagamente melancólico que o roteiro não explicita mas ela insinua.

Não é à toa que, anos depois, Robbie se tornaria uma das produtoras mais influentes de Hollywood. Você vê sementes disso aqui: ela entende o que cada cena precisa, e entrega exatamente isso — nem mais, nem menos.

Will Smith no doce momento entre o blockbuster e o personagem

Will Smith no doce momento entre o blockbuster e o personagem

Este filme ocupa um lugar curioso na filmografia de Smith. Pós-‘Homens de Preto 3’, pré-‘Esquadrão Suicida’ (onde contracenaria novamente com Robbie). É um Will Smith descontraído, confiante, sem a pressão de carregar uma franquia nas costas.

Nicky é um anti-herói simpático — ladrão, mentiroso, manipulador, mas com código de honra distorcido. Smith encontra o tom certo: charme suficiente para você torcer por ele, arestas suficientes para você não confiar completamente. A decisão de abandonar Jess no aeroporto, depois de desenvolver sentimentos genuínos, é cruel — e Smith a executa sem pedir desculpas ao público.

A reação de Nicky ao reencontrar Jess três anos depois revela o que o filme entende sobre vulnerabilidade masculina. Ele não diz “senti sua falta”. Ele demonstra desconcerto, irritação, medo de perder controle. Smith joga nas entrelinhas o que o roteiro não ousa escrever.

Onde o filme falha — e por que isso importa menos

Se a química entre os protagonistas é o coração de ‘Golpe Duplo’, o terceiro ato é seu calcanhar de Aquiles. A sequência final em Buenos Aires, com perseguições de carro e reviravoltas duplas, parece pertencer a outro filme — mais genérico, mais Hollywood padrão.

O problema não é a ambição, é a execução. O filme construiu tensão psicológica por duas horas; resolver tudo com ação física parece concessão comercial. Você sente os roteiristas pensando: “precisamos de um clímax espetacular”. Nem sempre espetáculo serve à história.

Adrian Martinez, como o golpista obcecado por estatísticas, oferece alívio cômico que às vezes rompe o tom. Não é falha do ator — o personagem foi escrito para ser exagerado. Mas em filme que funciona melhor quando mantém pé no realismo, certas caricaturas deslocam.

Por que 5,4 milhões de espectadores redescobriram esse thriller

Por que 5,4 milhões de espectadores redescobriram esse thriller

Nove anos após a estreia, ‘Golpe Duplo’ encontrou nova audiência. Os 5,4 milhões de visualizações na semana de 11 de novembro de 2024 não são acidente. Eles revelam algo sobre o que o público busca em streaming: entretenimento competente, sem pretensões exageradas, com estrelas que entregam o que prometem.

Comparado a produções recentes mais ambiciosas e problemáticas — como a adaptação de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ de Emerald Fennell, criticada por alterações fundamentais no material original — ‘Golpe Duplo’ parece um refresco honesto. O filme não tenta reinventar nada. Sabe exatamente o que é: veículo para duas estrelas com química improvável.

Para fãs de Robbie que chegaram através de ‘Barbie’ ou produções da sua empresa LuckyChap, descobrir esse filme na filmografia é como encontrar uma foto antiga de amigo querido: você reconhece a essência, mas vê uma versão mais jovem, mais crua.

Veredito: vale assistir em 2026?

Se você busca cinema profundo que transforma sua visão de mundo, passe longe. ‘Golpe Duplo’ não é isso — e nunca pretendeu ser.

Mas se você quer 1 hora e 45 minutos bem gastos com um thriller leve, diálogos afiados e a satisfação de ver profissionais fazendo seu trabalho com competência, aqui está sua opção. A química entre Margot Robbie e Will Smith não é detalhe do filme — é o filme. Tudo mais orbita ao redor dela.

Recomendo especialmente para quem aprecia o gênero “golpe a golpe” mas cansou de produções que confundem complexidade com confusão. Aqui, a estrutura é clara, o ritmo funciona, e você sai com a sensação de ter visto algo menor mas completo — o que é mais raro do que parece.

Para quem já viu: vale reassistir prestando atenção em como Robbie constrói a transição de Jess ao longo do filme. Há camadas ali que passam despercebidas na primeira vez, quando você está focado no enredo. Na segunda, você percebe que a atriz estava fazendo um trabalho mais sofisticado do que o material pedia.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Golpe Duplo’

Onde assistir ‘Golpe Duplo’?

‘Golpe Duplo’ está disponível na Netflix. O filme retornou ao catálogo e chegou ao topo da plataforma em novembro de 2024.

Quanto tempo dura ‘Golpe Duplo’?

O filme tem 1 hora e 45 minutos de duração. O ritmo é ágil, especialmente nas duas primeiras horas — o terceiro ato é mais lento.

Margot Robbie e Will Smith trabalharam juntos em outros filmes?

Sim. Após ‘Golpe Duplo’ (2015), os dois contracenaram em ‘Esquadrão Suicida’ (2016), onde Robbie interpretou Arlequina e Smith foi o Pistoleiro.

‘Golpe Duplo’ é baseado em história real?

Não. O filme é uma história original dos roteiristas Glenn Ficarra e John Requa, que também assinam a direção.

Para quem é recomendado ‘Golpe Duplo’?

Fãs de thrillers de vigaristas (“golpe a golpe”), de Will Smith ou Margot Robbie, e de filmes leves com boa química entre protagonistas. Não é para quem busca ação frenética ou profundidade filosófica.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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