Analisamos como ‘Godless’ antecipou o fenômeno de ‘Yellowstone’ ao misturar subversão narrativa com um rigor técnico raro na TV. Descubra por que esta minissérie da Netflix, com Jeff Daniels e Michelle Dockery, continua sendo o ponto mais alto do western moderno.
Antes de Taylor Sheridan transformar o rancho de ‘Yellowstone’ no epicentro da cultura pop e de ‘1883’ ou ‘1923’ provarem que o público estava sedento por poeira e vingança, existiu um projeto que pavimentou esse caminho com muito mais elegância e menos melodrama de novela. Estamos falando de ‘Godless’ na Netflix, a minissérie de 2017 que, vista hoje, parece um presságio sofisticado de tudo o que o gênero viria a se tornar na televisão moderna.
Lançada em um momento em que o western ainda era considerado um risco calculado — basta lembrar o desempenho morno de ‘Sete Homens e Um Destino’ nos cinemas um ano antes — a obra criada por Scott Frank não apenas desafiou o ceticismo da indústria, mas entregou uma das narrativas mais visualmente impactantes da década. Se você chegou agora ao gênero através dos olhos de Kevin Costner, precisa entender que ‘Godless’ operava em uma frequência diferente: a da subversão silenciosa e da precisão técnica.
La Belle: Onde a fotografia de Steven Meizler conta a história
A premissa é um exercício de criatividade narrativa: após um acidente de mineração catastrófico dizimar quase toda a população masculina de La Belle, no Novo México, as mulheres assumem as rédeas da cidade. É um ponto de partida que flerta com o revisionismo histórico, mas sem nunca perder o pé no barro e no sangue. Quando Roy Goode (Jack O’Connell), um fora da lei ferido, chega à fazenda da viúva Alice Fletcher (Michelle Dockery), o palco está montado para um confronto existencial.
O que fascina em ‘Godless’ é o uso do espaço. O diretor de fotografia Steven Meizler utiliza lentes anamórficas para capturar a vastidão do deserto, fazendo com que a pequena cidade de La Belle pareça ao mesmo tempo um refúgio e uma prisão. Há uma cena específica no segundo episódio em que a câmera paira sobre a rua principal deserta; o silêncio é interrompido apenas pelo ranger da madeira e pelo vento, transformando o cenário em um personagem vivo. Enquanto ‘Yellowstone’ foca na preservação de um império, esta minissérie foca na reconstrução de um mundo partido.
Jeff Daniels e a desconstrução do vilão messiânico
Muito antes de Jack O’Connell ser anunciado como o protagonista de ‘Pecadores’, ele já demonstrava aqui uma maturidade rara. Seu Roy Goode é o arquétipo do pistoleiro de poucas palavras, mas com uma vulnerabilidade que raramente vemos em personagens de Taylor Sheridan. Ele não é um herói; é um homem fugindo de um pai substituto monstruoso.
E por falar em monstro, Jeff Daniels como Frank Griffin é uma aula de atuação. Daniels, geralmente associado a papéis amáveis, transforma Griffin em um profeta apocalíptico com um braço a menos e uma retórica aterrorizante. A forma como ele usa a religião para justificar sua carnificina é puro terror psicológico. A trilha sonora de Carlos Rafael Rivera, com violões melancólicos que escalam para uma tensão orquestral, amplifica cada entrada de Griffin em cena. Quando ele entra em uma igreja, a tensão não vem da ação, mas da ameaça latente.
O mérito de ser uma minissérie fechada
Muitos espectadores se perguntam por que uma obra com tamanha aprovação crítica terminou após apenas sete episódios. A resposta é integridade artística. Formatada como minissérie, ‘Godless’ nasceu para ter começo, meio e fim. Ao contrário das expansões infinitas do universo Sheridan, aqui há um senso de encerramento que respeita a inteligência do espectador.
A Netflix daquela época ainda tateava o terreno do gênero. Tentativas posteriores de capturar o mesmo impacto, como ‘America Primeval’, mostram que o streaming ainda busca aquele equilíbrio perfeito entre o épico e o íntimo que ‘Godless’ alcançou sem esforço aparente. A série chegou um pouco cedo demais para surfar na onda do renascimento do western, mas é exatamente por isso que ela se mantém tão pura e potente.
Veredito: Por que ‘Godless’ ainda é essencial
Se você busca a adrenalina constante e os conflitos geracionais de ‘Yellowstone’, talvez estranhe o ritmo contemplativo de La Belle. Mas se você valoriza a gramática cinematográfica — o uso de luz âmbar nos flashbacks e um design de som que torna cada disparo de espingarda um evento traumático — esta obra é obrigatória.
‘Godless’ não é apenas um “faroeste de mulheres”. É um estudo sobre legado e a brutalidade necessária para forjar uma civilização do nada. Em um mar de produções que tentam ser o próximo grande hit, ela permanece como um monumento solitário e imponente no horizonte da Netflix. Vale cada minuto, especialmente para quem deseja entender as raízes da atual obsessão da TV pelo Velho Oeste.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Godless’ na Netflix
‘Godless’ terá uma segunda temporada?
Não. ‘Godless’ foi concebida e produzida como uma minissérie de história fechada. O criador Scott Frank confirmou que a narrativa foi concluída nos sete episódios originais.
A cidade de La Belle existiu de verdade?
Embora a trama seja fictícia, a premissa de cidades habitadas quase inteiramente por mulheres após desastres em minas é baseada em relatos históricos reais do Velho Oeste, como o desastre de 1884 em uma mina no Novo México.
Qual a classificação indicativa de ‘Godless’?
A série tem classificação indicativa de 18 anos devido a cenas de violência gráfica, nudez e linguagem forte, seguindo o realismo brutal do gênero western.
Quem é o vilão de ‘Godless’?
O vilão principal é Frank Griffin, interpretado por Jeff Daniels. Ele é um líder de gangue implacável que persegue seu antigo protegido, Roy Goode, por todo o território do Novo México.

