Gen V supera ‘The Boys’ ao focar em drama humano ao invés de escala. Analisamos como a série usa poderes como metáfora para traumas e por que a construção de personagens faz do spinoff a referência narrativa do universo.
Existe uma regra não escrita em Hollywood: spinoffs servem para capitalizar o sucesso de uma franquia, raramente para igualá-la — e jamais para superá-la. Gen V quebra essa regra com violência proposital. Não porque é mais bombástico que ‘The Boys’, mas porque faz algo que a série mãe esqueceu como fazer: se importar genuinamente com seus personagens.
A primeira temporada de ‘The Boys’ foi um soco no estômago em 2019. Sátira política ferina, crítica ao capitalismo de super-heróis, violência gráfica com propósito narrativo. Mas conforme as temporadas avançaram, a série tornou-se vítima do próprio sucesso. Os choques ficaram previsíveis, a sátira perdeu o fio da meada, e personagens passaram a orbitar em círculos. A quarta temporada manteve a competência técnica, mas perdeu a urgência narrativa.
Foco narrativo: a escolha que faz toda diferença
Enquanto ‘The Boys’ tenta ser simultaneamente sátira política, thriller corporativo, ação blockbuster e drama de personagens, Gen V faz uma escolha mais inteligente: foca. A ação se passa na Godolkin University, uma espécie de Hogwarts distópica para jovens supes, e esse enquadramento permite intimidade — algo que a série mãe perdeu quando expandiu para conspirações globais.
Os personagens aqui não são peças em um tabuleiro geopolítico. São estudantes universitários com inseguranças reconhecíveis: medo de não ser bom o suficiente, pressão para corresponder a expectativas, rivalidades que nascem da insegurança e não da maldade pura. Marie Morehouse, a protagonista com poderes de manipulação de sangue, carrega um trauma que a série explora com paciência — algo raro em um universo obcecado por choque imediato.
Poderes como extensão de traumas
O que torna Gen V brilhante é como os poderes funcionam como extensão metafórica de feridas psicológicas. Emma Meyer pode encolher até o tamanho de um inseto, mas precisa vomitar para ativá-lo — uma representação física de transtorno alimentar e dismorfia corporal, abordados sem sensacionalismo barato. Andre Anderson manipula objetos metálicos, e sua habilidade de “puxar” coisas espelha a incapacidade de se conectar emocionalmente. As habilidades de leitura mental de Cate Dunlap tornam-se o centro de uma das reviravoltas mais bem construídas da temporada.
A direção de episódios como o piloto, assinada por Evan Goldberg e Dan Trachtenberg, entende que o horror está no íntimo. A fotografia de Dan Stolberg usa closes apertados e composições que claustrofobizam — o oposto da escala cinematográfica que ‘The Boys’ adotou nas temporadas recentes.
O antagonista que The Boys deveria estudar
A segunda temporada de Gen V eleva a aposta com um novo antagonista interpretado por Hamish Linklater. Sem spoilers: o personagem representa algo que ‘The Boys’ sempre teve dificuldade — um vilão cuja ameaça é pessoal, não apenas ideológica. A corrupção da Godolkin University é exposta camada por camada, revelando um sistema que trata jovens supes como produtos descartáveis.
Compare com a quarta temporada de ‘The Boys’, onde Homelander permanece uma força da natureza, mas suas ações sentem o peso da repetição. O fascínio inicial — um Super-Homem sociopata — diminuiu conforme a série se recusou a evoluí-lo além de “monstro que faz coisas monstruosas”. Gen V entende que a ameaça mais assustadora não é a mais poderosa, mas a mais próxima.
O momento que define a série
Há uma sequência no final da primeira temporada que encapsula tudo o que Gen V faz melhor. Após o massacre no Woods, Homelander aparece não como deus ex machina, mas como consequência lógica da narrativa. Ele pousa, sorri para a câmera, e o sangue de seus “filhos” está nas mãos de Marie. O frame final — ela olhando diretamente para a lente, em choque, enquanto ele sorri para o público — é a síntese do universo: a violência é espetáculo, e nós somos cúmplices.
Diferentemente do fanservice vazio que plaga séries de super-heróis, o momento funciona organicamente. Eleva as apostas sem subordinar a narrativa a ele. A história de Marie, Emma, Andre e Cate pertence a eles.
Um futuro incerto
Uma terceira temporada de Gen V ainda não foi confirmada. Com ‘The Boys’ encerrando na quinta temporada (prevista para abril de 2026), os personagens principais retornarão no desfecho da série mãe — o que garante sobrevivência narrativa, mas deixa uma pergunta: uma série que encontrou voz única merece ser absorvida por outra?
O final da segunda temporada gerou mais expectativa para o desfecho de ‘The Boys’ do que a própria quarta temporada da série original. Isso diz algo sobre a qualidade comparativa.
Veredito: quando o spinoff se torna referência
Dizer que Gen V supera ‘The Boys’ não é clickbait — é constatação narrativa. A série mãe permanece importante por ter aberto as portas para conteúdo adulto de super-heróis. Mas em construção de personagem, coesão temática e urgência dramática, o spinoff assumiu a liderança.
Se você abandonou ‘The Boys’ achando que perdeu o rumo, Gen V merece uma chance. Não é complemento — é evolução. Se nunca assistiu nada desse universo, pode começar aqui. O contexto ajuda, mas a história se sustenta sozinha.
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Perguntas Frequentes sobre Gen V
Onde assistir Gen V?
Gen V está disponível exclusivamente no Amazon Prime Video. É uma produção original da plataforma, assim como ‘The Boys’.
Precisa assistir The Boys antes de Gen V?
Não é obrigatório. Gen V funciona como história independente. Porém, ver ‘The Boys’ ajuda a entender referências e o contexto do universo, especialmente a dinâmica de Vought International.
Quantas temporadas tem Gen V?
Atualmente, Gen V tem 2 temporadas disponíveis no Prime Video. Uma terceira temporada ainda não foi confirmada pela Amazon.
Qual a classificação indicativa de Gen V?
Gen V tem classificação 18 anos (ou TV-MA nos EUA). Contém violência gráfica, linguagem forte, conteúdo sexual e uso de drogas — mesma linha de ‘The Boys’.
Gen V tem conexão direta com The Boys?
Sim. Os eventos de Gen V acontecem paralelamente a ‘The Boys’. Personagens como Homelander, Ashley Barrett e Adam Bourke aparecem em ambas. O final da 2ª temporada de Gen V conecta diretamente com a 5ª temporada de ‘The Boys’.

