‘From’ na 4ª temporada: como a série que Stephen King elogia evita os erros de ‘Lost’

Antes da From 4 temporada, analisamos por que ‘From’ funciona como mystery box sem repetir as promessas vazias de ‘Lost’. O elogio de Stephen King faz sentido: a série avança por regras e consequências, não por mistério acumulado.

Algumas feridas do universo dos seriados nunca cicatrizam completamente. O finale de ‘Lost’ — após seis temporadas alimentando mistérios sobre polar bears, números amaldiçoados e uma ilha que parecia ter vontade própria — virou o pesadelo recorrente de qualquer showrunner que ouse vender uma “mystery box”. A raiva (legítima) de milhões de fãs que passaram anos montando teorias para receberem… bem, aquilo… criou um novo pacto: hoje o público exige que o mistério tenha regras, progresso e consequências.

É por isso que, quando Stephen King — alguém que vive de entender como o medo gruda na gente — aponta ‘From’ como uma das poucas séries do gênero que “valem o tempo”, a conversa muda de nível. A chegada da From 4 temporada não é só mais um retorno de horror: é um teste de resistência. A série vai conseguir expandir sem repetir a inflação de perguntas que corroeu ‘Lost’ por dentro?

A premissa de ‘From’ é enganosamente simples: pessoas entram numa cidade sem saída onde a estrada sempre devolve ao mesmo ponto, e criaturas noturnas — capazes de imitar gente conhecida — caçam quem estiver do lado de fora depois que escurece. No papel, parece a receita perfeita para frustração (o gatilho inicial de ‘Lost’ também era simples). Na execução, a diferença aparece cedo: ‘From’ não coleciona enigmas como troféus. Ela usa o mistério como pressão psicológica. As árvores, os símbolos, as vozes e as “regras” do lugar não são decoração; são mecanismos que empurram decisões humanas até o limite.

King, ‘From’ e o que ele realmente está elogiando

Quando King citou ‘From’ e ‘Silo’ como exemplos de “mystery box” que ainda compensam, a comparação não foi só marketing de fã famoso. ‘Silo’ opera como ficção científica social: perguntas grandes, respostas geralmente estruturais (sobre poder, controle e informação). ‘From’ é horror existencial: perguntas pequenas que doem, respostas que custam caro.

E é aqui que a série se distancia do trauma de ‘Lost’: ela constrói tensão por revelações, não por adiamento. As criaturas, por exemplo, não são apenas “ameaça misteriosa”. A série estabelece rapidamente um conjunto de regras reconhecíveis (como a lógica de “convidar” e a forma como elas manipulam afeto e memória), e o medo nasce do atrito entre regra e desespero. Você não fica preso só no “o que é isso?”; você fica no “o que isso faz com as pessoas?”

A cena que explica por que ‘From’ funciona (e ‘Lost’ cansava)

Se existe um momento que resume a diferença, é quando a série usa a imitação como arma emocional: não é “um monstro batendo na porta” — é uma voz conhecida pedindo para entrar, com o timbre e a paciência de alguém que te ama. A encenação costuma ser seca (pouco histrionismo), e a tensão vem do detalhe cruel: a criatura não precisa arrombar nada. Ela só precisa que você ceda um centímetro.

Esse tipo de set-piece não serve apenas para assustar. Serve para dar tema. ‘From’ repete variações desse dilema (confiança, luto, culpa, fé) como um laboratório de comportamento. Já ‘Lost’, especialmente no meio do caminho, muitas vezes desviava a energia do mistério para pistas que pareciam profundas… até virarem fumaça. Em ‘From’, a “pista” quase sempre volta como consequência dramática em pouco tempo, nem que seja para piorar a vida de alguém.

Harold Perrineau: a redenção de quem viveu o pior da mystery box

Há uma ironia bonita (e um pouco cruel) em ver Harold Perrineau, o Michael de ‘Lost’, liderar ‘From’ como Boyd Stevens. Em ‘Lost’, ele frequentemente era engolido por decisões de roteiro que pareciam empurrá-lo para a frustração. Aqui, Perrineau vira o centro moral de um sistema quebrado: o tipo de liderança que precisa manter ordem quando a ordem é uma performance.

O trabalho dele é físico e interno ao mesmo tempo. Boyd carrega uma autoridade de sobrevivente, mas a série deixa claro o preço: cada “solução” deixa marcas e abre outra ferida. Quando o personagem descobre maneiras de ferir (ou “marcar”) o inimigo, o texto não trata isso como power-up; trata como troca — e horror bom vive de troca. Essa é a diferença entre “mitologia” e “drama”: a mitologia explica, o drama cobra.

Como ‘From’ evita a armadilha que destruiu ‘Lost’

O erro fatal de ‘Lost’ não foi ter mistérios; foi depender demais de uma promessa totalizante — a sensação de que uma resposta final daria sentido a tudo, reescrevendo retroativamente cada pista. Quando a série precisou escolher uma saída, parte do público sentiu que o texto tinha mudado o contrato: pistas com aparência de explicação “concreta” viraram metáfora em cima da hora. Isso não é “ambiguidade sofisticada”; é percepção de trapaça.

‘From’, criada por John Griffin, joga outro jogo. Ela não posiciona um enigma único como chave-mestra. Existem perguntas grandes, sim, mas o roteiro evita transformá-las em chantagem (“fique até o final para entender tudo”). O que sustenta a série é o microprogresso: regras que se confirmam ou se quebram com custo, descobertas que mudam comportamento, relações que se deterioram sob pressão real. Mesmo quando o mistério se expande, ele expande com função, não com ornamentação.

O que a 4ª temporada precisa provar (e o risco real de crescer)

O que a 4ª temporada precisa provar (e o risco real de crescer)

A From 4 temporada entra numa fase perigosa: a fase em que toda série de “lugar fechado” tenta abrir o mapa. Trailer e material promocional apontam para expansão de território e para personagens tentando forçar uma saída com mais método — o que pode ser ótimo, desde que não transforme o desconhecido em catálogo de novas perguntas sem lastro.

O risco não é “explicar demais”. O risco é explicar mal — ou explicar sem dramaticidade. Se o mundo além da cidade aparecer, ele precisa ser mais do que lore; precisa mexer com o que conhecemos: quem manda, quem mente, o que os personagens aceitam sacrificar para parar de ouvir batidas na porta à noite.

O lado bom: até aqui, ‘From’ costuma amarrar suas “novidades” a consequências imediatas. Quando um personagem tenta racionalizar o lugar, o roteiro responde com punição narrativa: a cidade não é um quebra-cabeça neutro; é um predador. Isso mantém o horror vivo mesmo quando surgem pistas novas.

O que ‘From’ faz melhor em linguagem: som, textura e claustrofobia

Em horror seriado, a diferença entre “tenso” e “genérico” quase sempre está no artesanato. ‘From’ trabalha bem a ideia de isolamento com uma fotografia de tons frios e sujos, verdes e cinzas que deixam a cidade com cara de lugar gasto — como se o espaço estivesse cansado de existir. A direção privilegia a espera: planos que seguram um pouco além do confortável, como se o quadro estivesse pedindo para algo aparecer na borda.

O som é parte do truque. O silêncio antes das batidas, a cadência da voz imitada, o modo como certas cenas deixam a noite “respirar” sem música insistente: tudo isso dá ao medo uma materialidade que ‘Lost’ raramente buscava, porque operava mais no suspense de revelação do que na sensação de ameaça imediata.

Vale começar agora? Para quem ‘From’ funciona (e para quem não)

Se você quer uma série que respeita sua atenção, mas não transforma cada episódio num enigma para Reddit, ‘From’ é uma escolha sólida. Ela é para quem gosta de horror psicológico com regras claras e para quem aceita que nem todo mistério precisa virar TED Talk no final.

Por outro lado, se seu prazer está em explicações rápidas e em mitologias fechadas com manual, talvez a experiência pareça “lenta” — porque a série prefere o desgaste emocional ao infodump.

Para os fãs de ‘Lost’ que saíram feridos: ‘From’ funciona quase como terapia, mas não por ser “parecida”. Funciona por fazer o oposto do que te frustrou: ela dá passos. Pequenos, às vezes cruéis, mas passos. Se a quarta temporada mantiver esse pacto — progresso com consequência, mistério com função —, a série tem tudo para continuar como a rareza que King identificou: uma mystery box que não trata o espectador como refém.

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Perguntas Frequentes sobre ‘From’ (4ª temporada)

Quando estreia a From 4 temporada?

Até 10 de fevereiro de 2026, a 4ª temporada de ‘From’ ainda não tinha data oficial de estreia amplamente confirmada. A recomendação é checar os canais do MGM+ e perfis oficiais da série para o anúncio de calendário por região.

Onde assistir ‘From’ no Brasil?

A disponibilidade de ‘From’ pode variar por contrato e período. Em geral, a série é associada ao MGM+; no Brasil, verifique no seu aplicativo de streaming (busca por título) e em agregadores como JustWatch para ver em qual plataforma está no momento.

Preciso assistir às temporadas anteriores antes da 4ª temporada?

Sim. ‘From’ é serializada e a 4ª temporada continua mistérios, regras e relações estabelecidas antes. Você até entende a premissa rápido, mas perde impacto emocional e pistas importantes se começar do meio.

‘From’ é baseada em livro ou história real?

Não. ‘From’ é uma série original criada por John Griffin, sem base direta em fatos reais ou adaptação de um livro específico.

‘From’ tem cenas pós-créditos?

Não é uma série conhecida por cenas pós-créditos como padrão. Ainda assim, vale assistir até o fim do episódio por causa de prévias (“next on”) e ganchos na última cena.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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