O remake de ‘Faces da Morte’ estreou com 60% de aprovação, superando os 25% do original de 1978. Analisamos como Daniel Goldhaber transforma um filme famoso por ser ‘lixo cult’ em meta-horror reflexivo — e o que isso revela sobre a evolução do gênero em quase 50 anos.
Existe uma ironia deliciosa no mundo do cinema que só o horror proporciona: um filme famoso por ser considerado ‘lixo cult’ — aquele tipo de produção que você assiste para ver como é ruim, não apesar de ser ruim — acaba tendo seu remake recebido melhor pela crítica. É o caso de ‘Faces da Morte’ remake, lançamento da Shudder que estreou com 60% de aprovação no Rotten Tomatoes. O número por si só não impressiona. O que impressiona é que o original de 1978 tem apenas 25%.
Os números que contam uma história sobre evolução do horror
Antes de mergulhar no significado disso, os fatos: a nova versão de ‘Faces da Morte’ chegou com 10 avaliações contabilizadas até o momento, oscilando entre notas generosas como 4 de 5 estrelas e outras mais mornas como 5 de 10. O ScreenRant definiu o filme como ‘um thriller de terror bem dirigido com muita coisa na cabeça’ — elogio e crítica ao mesmo tempo, típico de quem reconhece ambição mas vê excessos.
O filme estreia nos cinemas nesta sexta-feira, 10 de abril. Só então teremos uma noção real de como o público responde. Mas o fato de ter conseguido lançamento theatrical já é vitória para uma franquia que viveu décadas no limbo do straight-to-video.
Por que o original era tão mal visto (e amado por isso)
Para entender a ironia, preciso contextualizar o que era ‘Faces da Morte’ em 1978. O filme se insere no subgênero ‘mondo’ — pseudodocumentários que misturavam cenas reais de morte com material encenado, vendendo tudo como ‘verdade’. Surgiu na Itália dos anos 60 com ‘Mondo Cane’, mas ‘Faces da Morte’ levou o conceito ao extremo: era essencialmente um tour guiado pelo morbo, com um narrador pseudocientífico apresentando ‘filmagens reais’ de pessoas morrendo.
O problema? Boa parte era falsa. E o que era real era exploratório no sentido mais grotesco da palavra. Críticos odiaram. Governos proibiram. E uma geração inteira de adolescentes o assistiu escondido, em VHS piratas passados de mão em mão, exatamente porque era proibido e ruim. Virou cult não pela qualidade, mas pela transgressão.
As sequências que se seguiram — três oficiais, duas não oficiais, mais um documentário em 1999 chamado ‘Faces da Morte: Fato ou Ficção?’ — só aumentaram a mitologia. Mas nenhuma foi bem recebida. A franquia era sinônimo de trash cinema, o tipo de coisa que você confessa ter assistido em roda de amigos, não algo que você defende como arte.
O que o remake faz diferente: de espetáculo mórbido para reflexão
O diretor Daniel Goldhaber, responsável pelo aclamado ‘How to Blow Up a Pipeline’ (2022), assume o comando desta refilmagem com uma abordagem que diverge radicalmente do original. Em vez de pseudodocumentário com cenas de morte ‘reais’, temos uma narrativa ficcional: uma moderadora de conteúdo de site (Barbie Ferreira, de ‘Euphoria’) encontra vídeos que reproduzem cenas de morte de filmes. É meta-horror, não exploração pura.
A escolha de Goldhaber revela intenções claras: a câmera não voyeurística do original dá lugar a enquadramentos que colocam o espectador na posição de quem consome esse conteúdo. Quando a protagonista navega por vídeos grotescos, somos forçados a reconhecer que fazemos o mesmo — em algoritmos de redes sociais, em true crime, em documentários de serial killers. O filme vira espelho.
O elenco confirma a ambição: além de Ferreira, temos Dacre Montgomery, Josie Totah, Charli XCX, Jermaine Fowler e Aaron Holliday. Não é elenco de filme trash — é elenco de produção que quer ser levada a sério. E a abordagem também muda: em vez de apenas chocar com imagens gráficas, o filme parece interessado em interrogar nossa própria fascinação por esse tipo de conteúdo.
É a diferença entre mostrar alguém morrendo e perguntar por que diabos você está assistindo alguém morrer. O original fazia a primeira coisa e se recusava a fazer a segunda. O remake inverte.
O que 60% vs 25% realmente significa
Não vou fingir que 60% no Rotten Tomatoes é nota excelente. É ‘fresca’ mas não é consenso. Significa que mais da metade dos críticos achou que o filme tem méritos, não que todos concordam que é bom. Mas comparado aos 25% do original? É abismo.
E isso revela algo sobre como o horror evoluiu em quase 50 anos. O público de 1978 que buscava ‘Faces da Morte’ queria ser chocado, ver algo proibido. O público de 2026 tem acesso a qualquer tipo de conteúdo gráfico na internet — o choque per se não funciona mais. O que funciona é interrogar essa dessensibilização, transformar o horror em reflexão.
Claro, o filme pode muito bem fracassar com o público. A nota do Popcornmeter ainda não saiu. E sucesso de crítica não garante bilheteria — especialmente em gênero onde o público frequentemente discorda dos críticos. Mas o sinal é claro: tentar algo mais inteligente rende mais respeito do que tentar apenas ser mais extremo.
A ironia final: remake de ‘lixo cult’ pode gerar franquia respeitável
O artigo de referência menciona que uma recepção positiva abre portas para a Shudder explorar uma franquia. E aqui está a ironia máxima: o original gerou sete sequências ninguém respeita. O remake pode gerar uma franquia que, bem, alguém respeita.
Não vou prever o futuro. Sei que números iniciais mudam, que o público pode odiar o que críticos aprovam, e que ‘Faces da Morte’ carrega um legado pesado. Mas também sei que quando um filme famoso por ser ruim tem seu remake recebido melhor, algo mudou no cenário do horror — e não é apenas a qualidade técnica. É a ambição do que o gênero pode ser.
Se você procura choque gratuito, o original continua lá, em algum canto obscuro do YouTube ou em DVDs de sebo. Se você quer algo que faça você pensar sobre por que busca esse tipo de conteúdo, talvez o remake mereça seu ingresso. Só não espere que seja uma experiência confortável — nem deveria ser.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Faces da Morte’ remake
Quando estreia o remake de ‘Faces da Morte’ nos cinemas?
O remake de ‘Faces da Morte’ estreia nos cinemas em 10 de abril de 2026. O filme é um lançamento da Shudder, plataforma especializada em horror.
Quem dirige o remake de ‘Faces da Morte’?
O remake é dirigido por Daniel Goldhaber, mesmo diretor de ‘How to Blow Up a Pipeline’ (2022). A escolha sugere uma abordagem mais reflexiva e política do horror.
Preciso assistir o original para entender o remake?
Não. O remake funciona como obra independente, com narrativa ficcional diferente do pseudodocumentário original. Conhecer o clássico de 1978 adiciona camadas de ironia, mas não é necessário.
O remake de ‘Faces da Morte’ é baseado em fatos reais?
Não. Diferente do original, que fingia mostrar mortes reais, o remake é inteiramente ficcional. A trama segue uma moderadora de conteúdo que encontra vídeos que replicam cenas de filmes de horror.
Onde vai ficar disponível ‘Faces da Morte’ remake após o cinema?
Como produção original da Shudder, o filme deve chegar à plataforma de streaming após a janela theatrical. A Shudder é disponível no Brasil através de Amazon Prime Video Channels.

