Analisamos como a série ‘Extraordinária’ da Disney+ subverte o gênero de super-heróis ao transformar poderes em fardos cotidianos. Um mergulho no humor britânico que serve como o antídoto perfeito para a fadiga da Marvel, apesar de seu cancelamento prematuro.
Existe um peso físico na exaustão que o gênero de super-heróis impõe hoje. Não é apenas tédio; é a saturação de uma fórmula que exige que cada batalha tenha estacas universais e cada piada seja calculada para um post de rede social. A série Extraordinária Disney+ (Extraordinary) surge não apenas como uma paródia, mas como um antídoto ácido e profundamente britânico para essa fadiga.
A estética do fracasso e o ‘anti-Marvel’
Criada por Emma Moran, a série inverte a lógica do ‘escolhido’. Em um mundo onde todos manifestam um poder aos 18 anos, Jen (Máiréad Tyers) chega aos 25 sem absolutamente nada. Mas, em vez de seguir o tropo de ‘Sky High’ ou ‘My Hero Academia’, onde o protagonista sem poderes prova ser o mais heróico de todos, Jen é deliberadamente difícil de gostar. Ela é invejosa, amarga e usa sua falta de dons como uma muleta para justificar sua inércia existencial.
Visualmente, a série troca o brilho asséptico do MCU pelas ruas cinzentas e apartamentos apertados do leste de Londres. A fotografia de Álvaro Gutiérrez trata os superpoderes com uma banalidade quase ofensiva: voar não é um espetáculo de CGI, é uma inconveniência logística; ter superforça é apenas um jeito mais rápido de quebrar móveis baratos da IKEA.
Poderes como fardas e bicos de fim de semana
Onde ‘Extraordinária’ brilha é na desconstrução da ‘responsabilidade’ de Peter Parker. Aqui, os poderes são extensões bizarras de neuroses humanas ou simplesmente ferramentas para o capitalismo tardio. Carrie (Sofia Oxenham), a melhor amiga de Jen, canaliza mortos, mas passa o dia em um escritório advocatício permitindo que herdeiros briguem com fantasmas por causa de testamentos.
A série usa o som de forma brilhante para pontuar esse ridículo. O silêncio constrangedor que segue um poder ‘inútil’ sendo ativado é mais eficaz que qualquer explosão. Quando conhecemos o personagem que causa orgasmos pelo toque, a série não foca no erotismo, mas no isolamento social que isso provoca. É o poder como uma deficiência social, uma barreira para a conexão humana real.
Extraordinária vs. The Boys: O cinismo vs. a apatia
É tentador comparar a produção com ‘The Boys’, mas a escala é fundamentalmente diferente. Enquanto a série do Prime Video é uma sátira política hiperviolenta sobre corporativismo, ‘Extraordinária’ é uma sitcom de personagens. Se em ‘The Boys’ os heróis são deuses malignos, aqui eles são apenas pessoas comuns — e pessoas comuns costumam ser medíocres.
Essa abordagem episódica e contida é libertadora. Não há necessidade de ‘fazer o dever de casa’ ou entender conexões com multiversos. A série se sustenta no roteiro afiado e na química do elenco, especialmente na dinâmica entre Jen e Jizzlord (Luke Rollason), um homem que passou anos preso na forma de um gato e agora tenta reaprender a ser humano. É absurdo, é visceral e, estranhamente, muito mais honesto sobre a condição humana do que qualquer discurso do Capitão América.
O paradoxo do cancelamento e a crise do streaming
Apesar de ostentar 100% de aprovação no Rotten Tomatoes, ‘Extraordinária’ foi cancelada após duas temporadas. O motivo é um sintoma claro da era atual: a Disney+ está recuando em investimentos de IPs originais que não geram merchandising ou sinergia de franquia.
Séries como ‘X-Men 97’ ou ‘Agatha Desde Sempre’ possuem uma rede de segurança de fãs que ‘Extraordinária’ nunca teve. Em um mercado saturado, a originalidade virou um risco financeiro. O cancelamento não é um veredito sobre a qualidade — que é altíssima — mas sobre a incapacidade dos algoritmos de valorizar o que é único fora de uma marca estabelecida.
Vale a pena assistir?
Para quem busca ação épica, ‘Extraordinária’ será uma frustração. Mas para quem quer ver o gênero de super-heróis sendo usado para explorar a crise dos vinte-e-poucos anos com humor ácido, é essencial. São 16 episódios que funcionam como uma história completa sobre aceitar que, talvez, você não seja especial — e que está tudo bem.
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Perguntas Frequentes sobre a série Extraordinária Disney+
Onde posso assistir à série ‘Extraordinária’?
As duas temporadas de ‘Extraordinária’ (Extraordinary) estão disponíveis exclusivamente no Disney+ (antigo Star+ no Brasil).
A série terá uma 3ª temporada?
Infelizmente, a Disney+ cancelou a série após a segunda temporada. Apesar da aclamação crítica, a produção não foi renovada para um terceiro ano.
‘Extraordinária’ é parecida com ‘The Boys’?
Ambas subvertem o gênero, mas o tom é diferente. Enquanto ‘The Boys’ foca em sátira política e violência, ‘Extraordinária’ é uma comédia de costumes britânica focada em problemas cotidianos e relacionamentos.
Qual a classificação indicativa de ‘Extraordinária’?
A série é voltada para o público adulto (16+ ou 18+ dependendo da região), contendo linguagem forte, humor ácido e situações de teor sexual.
Preciso conhecer o universo Marvel para entender a série?
Não. ‘Extraordinária’ é um universo totalmente original e independente, não exigindo nenhum conhecimento prévio de outras franquias de super-heróis.

