Evil Dead: como a franquia se reinventa e sobrevive há 45 anos

A Franquia Evil Dead completa 45 anos em 2026 com uma estratégia de reinvenção que Hollywood insiste em ignorar. Analisamos como a série sobreviveu trocando protagonistas, tons e orçamentos — e o que o fracasso de US$ 400 milhões de O Exorcista nos ensina sobre arriscar em franquias de terror.

Em 2023, Hollywood aprendeu uma lição cara com ‘O Exorcista: O Devoto’. O filme arrecadou US$ 137 milhões mundialmente — números que, para a maioria das produções, seriam um sucesso respeitável. Para um estúdio que pagou US$ 400 milhões pelos direitos da franquia e planejava uma trilogia inteira, foi um desastre. A sequência ‘O Exorcista: O Enganador’ foi cancelada antes mesmo de começar, e agora a franquia aguarda um reboot total com Mike Flanagan. Enquanto isso, a Franquia Evil Dead prepara seu oitavo filme para 2026, com o nono já em produção. A diferença entre os dois destinos não é sorte. É estratégia.

Ao longo de 45 anos, Evil Dead fez algo que quase nenhuma franquia de terror consegue: reinventar-se completamente três vezes sem perder sua identidade. O original de 1981 é terror sobrenatural puro, angustiante e experimental — um filme de estudante que se tornou cult pelo uso criativo de orçamento mínimo. Em 1987, a sequência ‘Uma Noite Alucinante 2’ jogou tudo fora e apostou em comédia-terror, com Ash lutando contra sua própria mão possessa em cenas que mais parecem um cartoon de Chuck Jones em versão sangrenta. Em 2013, o remake voltou ao terror absoluto, com uma violência gráfica que faz o original parecer moderado. Cada mudança de tom foi uma aposta arriscada. Cada uma funcionou.

Como Evil Dead transformou limitações em estilo visual

Como Evil Dead transformou limitações em estilo visual

A transição de ‘Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio’ para ‘Uma Noite Alucinante 2’ não foi planejada como uma evolução artística. Sam Raimi não tinha os direitos do primeiro filme para exibir flashbacks no início da sequência, então ele simplesmente refilmou os eventos principais com novos atores e um tom completamente diferente. O que começou como uma solução prática virou marca registrada: a franquia descobriu que poderia se reinventar sem pedir permissão.

O terceiro filme, ‘Uma Noite Alucinante 3: Exército das Trevas’, radicalizou ainda mais. Ash viaja à Idade Média, enfrenta um exército de esqueletos em cenas que homenageiam Ray Harryhausen, e o filme assume totalmente o absurdo. Há um momento específico em que Ash recita frases de efeito enquanto atira em deadites — algo impossível no primeiro filme, que tratava o horror com seriedade absoluta. Essa flexibilidade de tom permitiu que a franquia sobrevivesse onde outras morreriam. Quando o público se cansa de uma abordagem, Evil Dead muda para outra.

A troca de protagonista que deveria ter fracassado

Bruce Campbell é Ash Williams. Ash Williams é Bruce Campbell. A identificação entre ator e personagem é tão forte que Campbell se aposentou do papel em 2021, declarando que seu corpo não aguentava mais as exigências físicas do papel. Para qualquer franquia tradicional, isso seria o fim. Para Evil Dead, foi uma oportunidade.

O remake de 2013 apresentou Mia, interpretada por Jane Levy, como protagonista. A decisão foi controversa entre fãs puristas, mas funcionou: o filme manteve a mitologia dos deadites e o gore extremo, mas com uma protagonista completamente diferente. Em ‘A Morte do Demônio: A Ascensão’, a franquia avançou ainda mais, com Beth e sua sobrinha Kassie no centro de uma história ambientada em um prédio condenado. Alyssa Sutherland entrega uma performance de deadite que rivaliza com qualquer momento icônico de Campbell — especialmente a sequência em que seu personagem Ellie, possuída, persegue a família pelos corredores apertados do edifício com movimentos que mesclam contorção física e CGI de forma quase indistinguível. A claustrofobia substituiu a cabana na floresta. O terror familiar substituiu o terror de amigos em férias. A essência permaneceu, a execução mudou.

O que O Exorcista errou e Evil Dead acertou

O que O Exorcista errou e Evil Dead acertou

A falha de ‘O Exorcista: O Devoto’ não foi falta de qualidade — o filme tem momentos eficazes e um elenco comprometido. O problema foi a premissa comercial: assumir que o nome “Exorcista” por si só garantiria uma trilogia. O filme tentou expandir o universo de forma conservadora, trazendo conexões com o original enquanto apresentava novos personagens. O público não se conectou o suficiente para justificar uma continuação imediata.

Evil Dead nunca assumiu que o público voltaria automaticamente. Cada filme precisa conquistar seu público do zero. ‘A Morte do Demônio: A Ascensão’ foi lançado diretamente no streaming, sem a garantia de um público de cinema cativo. A produção custou uma fração do que ‘O Exorcista: O Devoto’ custou. O orçamento enxuto permitiu experimentação — o diretor Lee Cronin ambientou a história em um prédio residencial em vez de uma cabana, criou regras novas para os deadites, e não precisou incluir Ash para validar a história. O resultado foi um dos filmes de terror mais bem recebidos de 2023.

A estratégia de Evil Dead para ‘Evil Dead Burn’ (2026) e ‘A Morte do Demônio: Wrath’ (2027) reflete essa abordagem: ambos foram planejados simultaneamente, mas com diretores diferentes e premissas distintas. Sébastien Vaniček dirige Burn, Francis Galluppi dirige Wrath. Não há tentativa de criar uma “saga” artificial. Cada filme é tratado como uma obra independente que pode ou não gerar sequências.

Por que Hollywood insiste em ignorar a lição de Evil Dead

Franquias de terror modernas frequentemente confundem “universo expandido” com qualidade. ‘Premonição’ e ‘Pânico’ passaram por reboots e sequências que tentaram capitalizar nostalgia sem adicionar nada substancial. A diferença de Evil Dead está na disposição de quebrar suas próprias regras. O primeiro filme estabeleceu que deadites são demônios ancestrais invocados por uma fita de áudio. A série ‘Ash vs Evil Dead’ expandiu a mitologia para incluir profecias, sociedades secretas e viagens no tempo. ‘A Morte do Demônio: A Ascensão’ introduziu discos de vinil como o novo meio de invocação e sugeriu que a possessão pode ser transmitida entre gerações.

Cada adição à mitologia serve à história sendo contada, não ao marketing de uma franquia futura. Quando Sam Raimi, Bruce Campbell e Ivan Raimi desenvolveram a “Bíblia Evil Dead” para planejar o futuro da série, o foco não foi em quantos filmes poderiam fazer. Foi em quais histórias mereciam ser contadas. Campbell já declarou que retornaria como Ash — mas apenas se Raimi dirigir. A condição não é diva de ator aposentado. É garantia de que a história seria consistente com a visão original.

O futuro de Evil Dead não depende de orçamentos de cem milhões de dólares ou campanhas de marketing massivas. Depende de continuar fazendo o que fez por 45 anos: respeitar a inteligência do público, assumir riscos criativos, e aceitar que cada filme pode ser o último. ‘Evil Dead Burn’ chega aos cinemas em julho de 2026. Se funcionar, ótimo. Se não, a franquia vai se reinventar novamente. É assim que se sobra no terror — e é a lição que Hollywood parece teimar em não aprender.

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Perguntas Frequentes sobre a Franquia Evil Dead

Quantos filmes tem a franquia Evil Dead?

Até 2026, a franquia Evil Dead terá 8 filmes: os três originais (1981, 1987, 1992), o remake de 2013, ‘A Morte do Demônio: A Ascensão’ (2023), ‘Evil Dead Burn’ (2026) e ‘A Morte do Demônio: Wrath’ (2027). A série ‘Ash vs Evil Dead’ (2015-2018) adiciona 3 temporadas de televisão.

Qual a ordem dos filmes Evil Dead?

A ordem de lançamento é: ‘Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio’ (1981), ‘Uma Noite Alucinante 2’ (1987), ‘Uma Noite Alucinante 3: Exército das Trevas’ (1992), ‘Evil Dead’ (2013) e ‘A Morte do Demônio: A Ascensão’ (2023). Os filmes não formam uma linha temporal única — cada um funciona de forma independente.

Bruce Campbell ainda interpreta Ash Williams?

Bruce Campbell se aposentou do papel de Ash em 2021, alegando que seu corpo não aguenta mais as exigências físicas do personagem. Ele afirmou que retornaria apenas se Sam Raimi dirigir, mas não há planos anunciados.

Onde assistir os filmes Evil Dead no Brasil?

A disponibilidade varia por plataforma, mas geralmente os filmes Evil Dead estão na Netflix, Amazon Prime Video e serviços de aluguel digital. ‘A Morte do Demônio: A Ascensão’ estreou no Globoplay em 2023.

O novo Evil Dead de 2026 terá Ash Williams?

Não. ‘Evil Dead Burn’ (2026) terá novos personagens, seguindo a estratégia da franquia de não depender de Ash. Bruce Campbell permanece como produtor executivo, mas não deve aparecer na tela.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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